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Fudeus existe?

março 20, 2008

deporter.jpg

Cérebros! Cérebros!
Sim, voltei da tumba. Talvez esse blog não… Retorno de saturno veio com tudo, caros sete leitores.

Aviso rápido aos navegantes que inauguro hoje, com pompa, um blog novo na Trip. Clica aqui. Deporter é o nome. Novidades realmente nobres por lá, onde pretendo tratar de viagens de todos os tipos. Blasfêmias e remorsos estão em pause. Mas aqui mesmo em Fudeus, nos próximos dias posto um desabafo final. Meu mais do que querido avô morreu há pouco tempo. Foi a pior semana da minha vida. Assim que passou a tormenta, uma onda de sorte me pegou de jeito. Explico: estou na Suíça, em Basel, para cobrir um evento fabuloso e conhecer um dos meus heróis. Dr. Albert Hoffman. Não apenas isso… a coisa vai longe.
Tudo eu explico no blog novo. Agora com esse picareta que vos tecla em vídeo também, reportando in loco.

até breve
BTN

http://www.trip.com.br/blogs/deporter

Sem vergonha no Tennessee

novembro 9, 2007

Senhoras e senhores,
devo desculpas pela demora, mas há um bom motivo: estou enfiado em trabalho e tentando gastar meus dedos em textos para o papel.
E hoje, em vez de um post novo ou de uma requentada matéria, vou anunciar que Fudeus agora tem um podcast. Uma parceria na verdade, com o chapa Filipe Luna e a Radiola Urbana.
Apenas canções de amor, descaradas e de metáforas baratas. Uns chamariam de cafonas, mas esses não tem coração. Eu as chamo de sem vergonha. Sem vergonha no sentido mais amplo… sem vergonha de admitir um coração partido, um corno, uma paixão proibida ou simplesmente de sair a plenos pulmões contando que topou com a alma gemea.

Eis o link do primeiro “Amor Sem Vergonha”: http://www.radiolaurbana.com.br/index.asp?Fuseaction=Conteudo&ParentID=9&Menu=16&Materia=1631

E para quem acha que estou fazendo corpo mole e cansei de escrever, comunico que estou teclando apressadíssimo em um hotel de beira de estrada no interior do Tennessee, sul dos EUA. A minha vista é uma caixa d’agua com uma cruz em cima. Por todo lado há uma igrejinha para praise the lord. E campos de algodão, os mesmos de que tanto ouvi falar nos meus blues favoritos.
Há dias estou acompanhando Gui Pádua em sua tentativa de quebrar o recorde mundial de tempo em queda livre. Ele quer ser o homem que passou mais tempo voando na história. E eu, amanhã, subirei com ele a 30.000 pés. Quase vácuo, -45 graus celsius. Ele vai cair por quase 5 minutos. Depois será minha vez. Vou saltar, pela primeira vez na minha vida, de 15.000 pés. Na próxima Trip eu vou contar tudo em detalhes.
Então, senhoras e senhores, torçam por Gui, por mim e, amanhã ao menos, espero que Fudeus não exista. Deus sim, Deus sim…

Sexo, nikes e Al Corão

setembro 8, 2007

zone_isla.jpg
Joy Food (o puteiro), Islamic Center (a mesquita) e Bang Bang (a butique fetichista)

Escrevo da casa do Oliver, o amigo que tenho há mais tempo na vida. Nos conhecemos desde 1989, quando me mudei para São Paulo, aos 10 anos de idade. Em 1991 ele se mudou para Singapura, mas todo santo ano a gente se vê no Brasil.
Hoje ele mora em Londres e estou aqui há 10 dias, a economizar as centenas de Pounds de uma estalagem, na primeira vez em que sou eu quem chega de visita.
Oliver tem sido de uma paciência budista em nossas caminhadas desnorteadas pela cidade. Tudo para mim é novidade. Para ele, quase nada. Ainda assim divide as bolhas nos pés e os kebabs econômicos.
Mas o assunto aqui é outro…
Quem lê esse blog deve saber que sou dado a arregaçar como posso a política dos EUA. Digo política para me corrigir: a máquina do fim-do-mundo que aquela bandeira listrada representa. Mas convêm me policiar, publica e internamente, para não confundir as coisas. Não é porque os muçulmanos são o barbecue da vez que preciso dar tapinhas em suas costas… Porque apesar de se apresentarem como uma nação, o Islã, não vejo lá muitos valores que deveriam reger um grupo com mais de dois sexos envolvidos.
Quem me lembrou disso, aliás, foi o Oliver.
Em Londres tem muçulmano pacas. E estamos em um bairro cheio deles. E antes que eu pudesse manifestar minha simpatia por eles, ou achar bonito o tanto de mulher só de olhos descobertos que circula, Oliver disse na lata:
- Cara, eu odeio muçulmano.
Para contexto: o Oliver é gay. Namora, casado na prática, com o Kevin há 9 anos. Odeia muçulmano por um motivo irretocável. Qualquer um que massacra gays e mulheres não merece lá muito respeito. Vou discordar?
Eu poderia argumentar, até. Dizer que é da religião. E que isso não pode ser julgado com base no ódio, na análise humanista do ocidente “esclarecido”. Até que, poucas quadras depois, chagamos ao Soho. Bairro meio chique, meio boca do lixo. E entramos pela zona do lugar. Boites gays, sex shops e puteiros explícitos. Eis que, entre um prostíbulo e uma loja de artigos fetichistas, há um centro islâmico. Um misto de mesquita e clube social. Está lá para converter as pessoas? Lembrar dos valores eternos em um antro de danação? Aos fatos… um homem com roupinha a la taleban sai do puteiro ajeitando o traje e troca de porta – entra no centro islâmico. O porteiro nem estranha.
Dias antes, no domingo, estava no speaker’s corner, no Hyde Park. Tradicionalmente, há gerações, é um lugar onde basta você subir em um banquinho para falar o que quiser. É sensacional. Fiz fotos aqui. Porém, atualmente, com poucas exceções, virou um lugar de pregação religiosa. Muçulmanos são a maioria. Uns pregam em árabe e uns em inglês. Um rapaz ocidental, sotaque britânico, convertidaço, bradava: “o ocidente enlouquece as pessoas. que mundo é esse onde a prostituição é proibida é a pornografia é legal? Isso é insano!” E evocava palavras do Corão enquanto fazia o sinal de loucura, girando o indicador em torno de sua orelha. Ele parecia sincero… sei lá. Mas em torno estavam uns rapazes e um velho. Em suas túnicas, meio entediados. Todos, o velho incluso, usavam Nikes lustrosos nos pés. Estavam há poucas quadras do centro islâmico da zona.
Será que essa religião não enlouquece as pessoas? Que nação é essa onde a prostituição é proibida e se apraz das meretrizes na porta ao lado? Que tipo de verdade tem um discurso que reconhece o massacre do Oriente Médio como obra de Satã, e continua a fazer de suas mulheres tendas ambulantes? Que tipo de inimigo de tudo o que a América representa usa Nike?
E pode ser fácil também, outra coisa para me policiar, tomar EUA vs Islã como dois extremos, antagonistas perfeitos. O que me sobe à tona aqui são as semelhanças entre os grupos que dominam suas políticas: ou a máquina do fim do mundo. E não me parecem mais conflitantes.
Concordo com o Robert Fisk, não há conflito de civilizações. Há a sinfonia dos hipócritas insanos. Que fracionam verdades e suas próprias mentes no mesmo jogo de poder. Um senador republicano que passa leis anti-gays é pego assediando um homem no banheiro de um aeroporto. Americanos de Cristo incitam ódio. Muçulmanos vestem Nikes, comem putas e vão à rua em nome de Maomé. Americanos tratam mulheres como carne. Muçulmanos como gado. Enquanto “Londres” e todos nós, os cínicos de bom coração, passamos atônitos, cientes do teatro que virou o mundo real, e incapazes de deixar a platéia.
Só me resta entender o Oliver… Que, pacífico como sempre, odeia muçulmanos, odeia republicanos e, ainda assim, volta ao lar para ler sobre Sidarta.
Me dá vontade de subir em um banquinho e fazer eco no hyde park: que mundo é esse que nos obriga a ser Budista e manter o ódio no coração? Isso é insano.

olha o passarinho

maio 17, 2007

Nada Pessoal
Jorge Du Peixe não gosta de paparazzi

Não é por nada. Ou, ao contrário, é por tudo que ando cansado de escrever. Conta complicada essa, nunca fecha: Quanto mais você escreve, melhor escreve. Quanto mais você escreve, pior seu texto lhe parece. Isso para dizer que vou atrasar até o final de semana uns posts prometidos. E logo, segunda-feira, me despacho de novo algures. Torçam por mim.

E aproveito o mofado espaço de Fudeus para convidá-los a espiar o Flickr que fundei ontem. Como disse, ando cansado de escrever, cabreiro com o texto e com a defecação de regras. E de uns tempos pra cá, bateu um saudosismo violento do tempo em que eu não sabia bem se era repórter ou fotógrafo.

Espanei as câmeras, passei álcool no scanner, comprei meia dúzia de filmes e voltei a andar com minha amada Pentax MX na mochila. No link, além da bem polida foto acima, mementos de dias atuais e dos primeiros anos desse século XXI. Maldito século que digitalizou toda aquela fartura de tubinhos de filmes grátis de diferentes asas e bitolas na Redação da Trip.

 http://www.flickr.com/photos/brunotorturra

Mais uma partida

março 6, 2007

xeque

Uma queda de seis horas.
Seis horas acelerando livre, sem ver o solo. Só dois pontos azuis, piscando na minha frente, e meu corpo ficando mole e pesado.
É mort anunciada, nada petit.
Uma queda de seis horas, com um pé chumbado no chão, o outro inquieto no piso quadriculado. E ela ali… bebendo devagar.
Ela ria e ria e ria. E sua cara aumenta tanto quando ri. Ela ri toda, ela chacoalha quando ri. Ela tem um cabelo curto e infinito de tantas curvas lentas. E o cabelo também ri. Ela tem uma gargalhada em staccato, de todos os tons.
A gargalhada ganha volume enquanto os copos secam. Meu ego duro e calejado de amor e sexo cínico depõe as armas. Agora não sou nada – e me sinto mais vivo.
Ela fala e ouve tudo. Não falsifica nada, não inventa nada, não olha de lado. Ela olha de frente, olha reta e não procura ninguém nas outras mesas. É absolutamente linda. Linda por fora e em torno, nos cantos, nos vincos e nas dobras finíssimas dos anos e das rugas de alegria. Linda e não tem medo nem orgulho de ser a mulher mais linda que sabe rir com o corpo todo. Ela nunca tem medo quando ri.
Então, ela pára de rir. Para chorar.
Acabou.
Eu não existo – estou vivo.
O choro zuniu. Uma foice no intestino do canalha que caiu morto de mim e escorreu para fora do bar. Ela chora e não olha para o lado. Olha pra frente. Os pontos azuis minavam água para que eu afundasse depois da queda de seis horas. Fim. Estou morto. Só sirvo para vestir essa mulher… quero arrancar os ossos, minhas carnes e virar um casaco para ela.

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Há um ano e quinze dias escrevi o texto acima. Dois dias depois nos beijamos. Onze meses depois nos casamos. Durante o eclipse de sábado, acabou.
Eu já conhecia tudo naquele rosto grande, cada agudo súbito da voz linda, o cheiro de cada canto dela. Eu tive tudo…
Acabou no eclipse, senhoras, acabou. Em quinze minutos os olhos dela não eram os mesmos, miravam o lado, incrédulos no texto sem alma, nas palavras sem amor. Nossa sala estava tétrica e seus cabelos eram cachos da Medusa. Meu ego fuçava todo seu paiol enquanto os olhos minavam a água que me emergiu desse ano lindo.
Atirei uma garrafa no chão. Ela gritava enquanto água passeava lenta pelo piso. Chutei o globo terrestre que reformei para ela no natal. Partiu-se contra a parede, dividindo em dois cada oceano. Ela gritou enquanto eu descia as escadas, abandonando fria minha mulher, catando nos degraus meus ossos, minhas carnes para me dar conta de que estava morto. Viver, agora, requer um parto.

Sim, senhoras, vou sumir daqui uns tempos. Vou à Recife ver o mundo começar.
Aposto que volto. Aposto que vivo.

FZ FM

março 2, 2007

Fábio Massari e Frank Zappa
Fábio Massari em sua primeira entrevista com Frank Zappa

Há uns três anos, pouco menos que isso, recebi um convite do Fábio Massari. Se eu escreveria um texto para um livro que ele estava preparando, bem aos poucos. Um tipo indefinido de tributo a Frank Zappa. Na hora topei, mas fui adiando o texto infinitamente, resignado com meu patológico protelamento, lassidão profissional e, digo sem medo de ofendê-lo, com a marcha bem lenta do senhor Massari.

Há sete meses, ou nem tanto, ele me escreve um dos raros emails (Massari não é dos melhores para respondê-los), apertando. A coisa era séria. Ou o texto sairia, ou eu ficaria de fora. Novo prazo: 1 mês.

Nesse meio tempo viajei, escrevi coisas maiores e mais complexas do que a encomenda do reverendo. E nenhuma letra digitada em honra de Frank Zappa. 1 mês depois, novo email de FM (o cara tem rádio até nas iniciais…). Até sexta, senão… valeu a tentativa. Em uma quinta de setembro passado sentei-me no sofá com meu finado laptop no colo. Zappa, então.

Zappa_1993
Duas fotos do fim da vida de Zappa, 1993, pouco antes do câncer o levar. A segunda foto, muito rara, talvez sua última foto ainda vivo, feita em seu estúdio no subsolo de sua casa, é a única em que o vi com um olhar triste

Não discorri sobre o que penso do gênio ou sobre minha coleção de mais de 30 discos do cara (nem metade de sua obra). Só tentei achar um jeito de dizer o seguinte: Zappa me salvou a vida.

Escutei o homem até que tarde, aos 19 anos, e só aceitei o som quando meu chapa Paulo Chapolim (hoje do Ludov e Seychelles) me entregou Joe´s Garage. A ópera cínica, emocional, tarada e oprimida foi o discurso perfeito, tudo o que diria da vida que eu levava – se eu fosse um gênio como Frank.

Era um publicitário em formação, decepcionado com o futuro bem remunerado que meus sucessivos estágios prometiam em poucos anos. Eu era um bom aluno, meia dúzia de slogans já veiculados. E uma aflição presente em qualquer segundo sóbrio: enfiado em fumaça, selinhos e insônias, eu pressentia que estava na bem pavimentada estrada que leva à babaquice. Joe´s Garage, a faixa em si, era um ridículo e infantil resumo da minha vida até então. Em dois acordes.

Moleque monta banda, toca só aquelas notas que sabe, ensaia na garagem horas e horas a mesma canção, as meninas do bairro olham para ele, ele dá um nome para o grupo, toca no colégio, grava aqueles acordes. E, como se o tempo fosse surdo, anos depois está estuprado por cretinos de gravata,infectado por doenças venéreas, fazendo sexo mecânico, e finalmente preso em um lugar cuja a única saída é imaginar solos.

Em um mês eu sabia os três atos (dois cds) de cor. Um ano depois as lições de Zappa avacalhavam tudo o que eu ouvia na aula. Madrugadas com amigos, destilando o cinismo, a piada impiedosa, a arrogância – e abrindo mais o coração para a loucura. Uma longa lista de festas, livros, empregos, drogas, falências, mentiras e revelações me arrancaram a gravata em 2001, definitivamente, e minhas chances de formatura. Mas, se aqueles 3 anos infernais, que se misturam em estranha pasta, tivesse um rosto, seria um rosto com um vasto bigode preto, cabelos longos mal lavados e um olhar cínico e companheiro.

Zappa_capa
Compre um

Tudo isso para avisar que chega às livrarias, neste março, Detritos Cósmicos, o tal livro do Massari. São muitos textos de colaboradores (o meu incluso), cartuns, fotos e, a íntegra das duas entrevistas que Massari fez com FZ. Tem muito texto bom, tem coisa que não gostei, e os papos com entre Fábio e Frank são sensacionais. Mas, depois dessa talvez desnecessária digressão, o que importa é que estou muito feliz de ver pela primeira vez meu nome em um livro que homenageia um cara que me apontou o caminho deles. E acompanhado nas páginas por Paulo Lima (chefe), Ivan Marsiglia (ex-chefe, ex-fiador e grande sujeito), Arthur Veríssimo (compadre e colega da Trip) e muito gente boa. 

Então… peço aos leitores de Fudeus que adquiram seu exemplar. Mesmo quem não ouviu ou não gosta do som, vai gostar de saber porque Frank Zappa virou gênero de música e porque sua inteligência faz tanta, tanta falta nessa dinastia Bush.

Grato, Massari.

Ave, Zappa.

Zappa Mothers
É dessa cara que eu estava falando…

Me roubaram no Wal Mart

fevereiro 25, 2007

Wal MArt
“Fui roubado na sua loja… pode me ajudar?” – Será a velha surda?

Caríssimos leitores: esse blog está abalado. Roubaram meu computador, minha câmera digital, RG, e muito trabalho gravado (sem backup). Fudeus.

De saída para o carnaval, poucas horas depois do último post, fui roubado. Não só eu, infelizmente, mas Beth, Elohim e Daniela. Fazíamos compras no Wal Mart da Barra Funda, enquanto um ou mais ladrões surrupiaram três mochilas do porta-mala do Fiesta da Dani, parado na vaga 28 do subsolo do estacionamento da loja.
Levaram:
- O Powerbook G4 titânio do Elhoim
- Meu Macbook 1.83  branco.
- O toca-cd da Dani.
- Duas câmeras digitais, um iPod,  um microfone, um RG, 3 malas de roupas, uma sacola de mantimentos, um livro o “Povo Brasileiro” (palavra de honra!), mais coisas… tem que ver o B.O., dá pena.

E o Wal Mart, vai pagar? – o leitor atento pergunta atordoado.
Espero que sim. Não tenho certeza se será fácil, porque até hoje estou aguardando um “parecer do jurídico.” O caso é uma equipe de segurança negligente e suspeita cuidou de criar uma impressão de que aquele subsolo era apenas o finzinho do intestino de um monstro corporativo. Já leu No Logo? Tente.

O caso é, levaram meu laptop descarregado. A fonte ficou comigo. Dificilmente um ladrão de mochila e mantimentos vai ter uma que sirva.
Se você vir por aí um laptop branco descarregado, tente ligá-lo e dar uma olhada. Se ele estiver com um fundo e tela da praia de algodões deserta, arquivos em meu nome, fotos já publicadas nesse blog, pastas como “Fudeus”, “As Minhas Coisas” e “Abimonistas”, tente ficar com ele.
Eu pagaria para tê-lo de volta. Com dinheiro e gratidão.
Amanhã posto aqui maneiras de reconhecer o laptop do Elohim.

Em virtude da perda, aviso que os posts serão mais frequentes.

De computadores alheios vou manter diariamente todo o contato que fizer com o Wal Mart e o quanto da responsabilidade a empresa está disposta a assumir.
Você poderá ler o relato do que disseram os seguranças, descobrir o que é o departamento de “Loss Prevention”, fotos revoltantes, casos semelhantes ou muito piores, câmeras desligadas, ligações não retornadas e manejos jurídicos. Mas poderá também ver um desfecho fascinante quando o maior supermercado dos EUA se redimirá ressarcindo seus clientes de maneira integral e com um crível pedido de desculpas antes que o presidente W. Bush pise em solo brasileiro.

Espia:
Sem Logo, de Naomi Klein
Wal Mart lê blogs
Código de Defesa do Consumidor
Matéria da Business Week

Mea culpa

fevereiro 17, 2007

Let’s Talk About Sex - Angeli
Cartum de Angeli, promíscuo, asqueroso e lindo como memórias velhas

Certa vez, ficcionando a própria infância, disse para uma garota que fui uma criança tarada. O frase chegou ao fim com tamanho ar de verdade que senti estar diante de uma descoberta – de uma confissão incontinente.
A moça riu, ou fez que achou graça, e se limitou a dizer: “que bonitinho”. Eu mudaria de assunto, ou derivaria uma piada para puxar a dama pela cintura e fazer jus à tara assumida da vida adulta. Mas me enxergar com 5, 6, 7 anos afogado em pensamentos lúbricos foi irresistível.

198…4? Por aí. Tomando banho sozinho no amplo box da casa da minha avó em Santos. O piso de azulejo ensaboado e um espaço de três ou quatro metros de uma parede à outra. Eu deslizava de bruços perdido em fantasias voláteis. E arranjei ali uma daquelas irrecuperáveis cicatrizes na memória – pela primeira vez liguei a palavra tesão a algo que estava de fato sentindo.

Tinha uns 6 anos e um elaborado vocabulário sexual. Termos deduzidos das conversas dos meus pais, de seus amigos e da irresistível imprensa libertária dos anos 80: Chiclete com Banana, Planeta Diário, Casseta Popular. Sabia o significado de suruba, buceta, porra, AIDS, camisinha, brochada… tinha plena noção dos processos, acessos e líquidos. Reconhecia alguma sujeira e a conveniencia de manter esses vocábulos e revistas longe de professores e avós.

Culpa, jamais. Contudo, naquela profusão de cartuns sexuais e conceitos precoces, eu jamais me reconheci. A distância entre o requisitado pau fumengante do Leòn de Tchacara do Angeli, entre as enxarcadas xoxotas da Circo e meu pequenino pinto de 6 anos de idade era intransponível. Eu conhecia a palavra tesão, mas só naquele banho eu a encontrei para ancorar uma mini ereção e o impulso de roçá-la no azulejo ensaboado.

Sei que não existe uma unidade para medir memória, mas que falta faz. Ajudaria muito a entender o que acontece quando uma lembrança evapora. Uma palavra decantou minha cultura sexual em algo sólido, um piso para que eu pudesse andar sobre culpa, timidez e taras – até que eu soubesse descansar sobre o corpo de uma mulher. Hoje espero uma idéia que sirva de chão para alucinações e memórias. Um sentimento com nome para que o passado e o futuro não sejam como as surubas de nanquim do Angeli: impossíveis. Ou um milagre que me faça desistir de domar lembranças de vida própria; parar de roçar no presente como um cio da existência.

Explicava à dama, com chistes e frases instáveis, minha súbita angústia. A moça achou um graça louca e ficou mais linda. E acreditei que, nessas horas, qualquer confissão é louvável, mesmo as falsas. Desatei a falar, detalhei enredos de punhetas e primeiras fodas… me perdi em predicados e histórias que não sabia se eram reais. Simplesmente não importava… era tudo memória – e memória não tem lastro.
Enlacei os braços nela enquanto ríamos de uma piada fácil e nos calamos. Já estávamos nus e deitados. Foi a última trepada de uma noite que acabou mansa. Em um sono real, vazio e imenso.

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Texto meio velho, pré-matrimonial, catado num canto de HD para desejar bom carnaval aos leitores de Fudeus Existe.
Esbaldem-se e memorizem: pouco da vida vale a lembrança.


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