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A Terra do Nunca

novembro 22, 2006

era do gelo
           A Era do Gelo, em cartaz no cine Celebration

 

Em março desse ano visitei a primeira cidade criada por uma corporação, a Disney. Mapa, leis, diretrizes e… uma cultura foram determinadas em escritórios para fazer os habitantes desse lugar mais felizes. Em Celebration, arredores de Orlando, Flórida, grandes empresas não têm vez. Curioso… quando uma corporação vira o Estado, a vida imita o que era o mundo antes das corporações dominá-lo. A reportagem foi publicada na revista Trip #144, mas com uma edição e fotos um pouco diferentes. Aqui, a versão de Fudeus do “melhor lugar do mundo”

 

 

Há um mundo bem melhor

Todo feito pra você

É um mundo pequenino

Que a ternura fez

Versos do tema de “Domingo no Parque”, programa apresentado por Sílvio Santos nos anos 80, versão de “It´s a Small Word”, uma canção da Disney

 

Como uma Sapucaí do consumismo, a Highway 192 corta Orlando em uma apoteose de lojas de desconto, fast food, mini golfes, farmácias e colossais anúncios explodindo luz néon. Mickeys, Plutos, Patetas, Flamingos, Steaks, Frangos, Sonys, Nikes, Adidas, Levi´s, McDonald´s, Volvos, Shell, Exxon, Burger Kings, Hyatts, Marriotts – coorporações cintilam seus logos e palavras de ordem (BUY! NOW! 20% 30% 50% OFF!) em busca dos dólares e travellers checks do torrencial fluxo de turistas que dirigem acelerados em carros refrigerados rumo à Disney World.

Não há como andar a pé, e certas placas de trânsito tem orelhas do Mickey. Não há como atravessar andando as seis faixas sem esperar 10 minutos. Não há um vira-lata para abrigar pulgas na 192. Uma visão tão cheia de cores quanto de desolação – atrás das milhas emendadas de lojas não há uma casa. Apenas os pântanos da Florida e enormes pedaços de terra que, cedo ou tarde, se o mundo não acabar, serão mais parques, lojas, mini golfes, hotéis…

Acontece que em uma das saídas da 192, entrando na cidade de Kissimmee, algo, digamos, mágico acontece. A estrada estreita, cai para menos da metade o limite de velocidade, desaparecem os logos. Assim que suas laterais ganham plácidas calçadas e cercas brancas – um branco perfeito como anúncios de alvejante – a pista muda de nome. Celebration Avenue, a avenida principal do “melhor lugar do mundo”. Melhor lugar do mundo? “É o que gostamos de pensar”, explica Marnie Schubert, relações públicas de Celebration, a cidade que a Disney inventou há 12 anos.


 

cercas

O branco que sua família merece. Bem vindo a Celebration


O PLANO B DO PLANO X

Marnie trabalha no Town Hall, espécie de prefeitura da “cidade”. “Não somos uma cidade oficialmente. Ainda. Estamos no processo para nos tornamos uma, é inevitável”, explica de novo. Não são cidade, ok, mas se comportam como uma. Ou melhor, como uma cidade deveria se comportar… Celebration foi criada meticulosamente para fazer seus moradores mais felizes. Claro que dentro do que a Disney e seus arquitetos entendem por felicidade – uma América inspirada pelos valores, costumes e arquitetura do passado, de um tempo anterior às coorporações onipresentes, das letreiros luminosos dos automóveis agressivos e da pressa generalizada. Inspirada, até seus habitantes concordam, em um passado ideal, um passado que na verdade nunca houve. No que a América deveria ter sido se… bem… fosse diferente.

Plano da Disney, mas não do Disney, do Walt. O pai do Mickey tinha uma idéia quase oposta quando pensou e colocou no papel em 1965 seu projeto de uma cidade ideal. Chamou de Projeto X. Criou e rascunhou tudo enquanto definhava do câncer que o matou no ano seguinte.

 

disney

Disney em pessoa arpresenta em um estranhíssimo vídeo de 1965 sua idéia de cidade perfeita: EPCOT, a anti-Celebration, que, anos depois, virou parque

 

Imaginou trens suspensos e silenciosos, arranha-céus monumentais, corporações associadas, altíssima tecnologia e arquitetura futurista. Walt queria, com suas palavras, “um lugar que não poderia ser encontrado em lugar nenhum do mundo”.

Acontece que hoje os tais arranha-céus, corporações e alta tecnologia são encontrados em qualquer meridiano do globo. E seu sonho do Projeto X, batizado por fim como Experimental Prototype Comunity of Tomorow (Protótipo Experimental de Comunidade do Amanhã) foi abreviada para sua sigla EPCOT e virou um dos parques da Disney Wolrd.  A visão do tal “lugar nenhum do mundo” teve que ser revista.

180º depois, eis Celebration. Uma cidade sem edifícios, sem velocidade, nostálgica e sem nenhuma corporação associada. (Bem, quase nenhuma, como veremos adiante.). Lá, logotipos, lojas de rede, propagandas de qualquer tipo são proibidas. Curioso… quando a Disney planejou uma cidade, proibiu justamente o que ela pratica com afinco pelo mundo.

 

logodisney

Nos postes da cidade, uma das poucas chances do visitante saber a quem pertence a “cidade do futuro” 

 

Pulando as cercas brancas (de plástico) que cercam a cidade estão as casas e apartamentos erguidos dentro de um rigoroso conjunto de regras, um manual, estabelecido antes do primeiro morador carregar sua mudança para lá. Certos estilos deveriam ser respeitados – uma leitura limpa da arquitetura do sul dos EUA. As casas coloniais da Louisiana, dos senhores das fazendas de algodão, versões mais brejeiras de desenhos vitorianos britânicos. Nenhuma casa pode ser alta demais, colorida demais, ter placas ou luminosos. “Arranha-céus fazem as pessoas se sentirem pequenas, como na cidade grande. Aqui não…”, Marnie prossegue. Nenhuma casa pode ter garagem na parte da frente, não pode ter uma lixeira que dá para a rua.

Todas as casas devem ter varandinhas antes da porta – “para os habitantes acenaram uns para os outros”, Marnie ainda, “para relembrar dos velhos costumes do interior”. Todas as cercas em Celebration, devem ser brancas. Todos os jardins devem estar impecáveis. E se não estiverem, Marnie? “Temos uma equipe que circula. Quando algo não está no padrão, mandamos uma cartinha pedindo mais cuidado com o jardim. Funciona sempre”.


MUITO ALÉM DO JARDIM
 

Denise Lord está com sua van toda suja de terra. Passou a manhã comprando grama para seu jardim. É que Denise recebeu uma cartinha dessas, pedindo mais atenção com a aparência das plantinhas defronte sua casa. Denise é brasileira, de Fortaleza, mas mora nos EUA há 20 anos. Faz tempo. Já morou em tudo o que é cidade, a última foi Miami, e não quer deixar Celebration por nada nesse mundo.

“Eu tenho uma filha de 13 anos. Miami é uma cidade louca demais, não queria que ela tivesse tantas opções na porta da adolescência”, desabafa enquanto toma um café no Barnie´s, com vista para o lago. De fato. Perfeitamente pacata, silenciosa e segura, não há muita opção em Celebration.

 

chafariz
O point da cidade: o chafariz de águas mornas dançantes. Loucura total

 

O Barney´s é o único café da cidade. Há mais 9 restaurantes (todos deliciosos) e 11 lojas. Roupas, cartões, velas, souvenires e jóias. Não há uma livraria em Celebration, nem loja de CD. Os únicos jornais disponíveis na cidade são o Celebration Independent, Celebration News, jornais comunitários que estampam na capa desfiles de cachorros e festivais de caridade, e o USA Today , notório periódico superficial dos EUA. Há um moderno cinema em estilo Art-Déco, com duas salas, a construção mais arrojada do lugar – na verdade, uma réplica do cinema em que Branca de Neve e os Sete Anões estreou em 1937.

 

panoramica

A rua do mercado em frente ao lago da “cidade pato”. Onde TUDO acontece 

 

Todo esse comércio se concentra em quatro quarteirões, metade de frente para o lago. Há uma fonte de águas dançantes que pulam do chão, onde em qualquer hora sob o sol há crianças brincando. Uma calçada plana circunda o lago todo e se estica pelos bosques, onde em qualquer hora sob o sol há alguém caminhando, pedalando ou empurrando um carrinho de bebê. Árvores antigas (trazidas já velhas e plantadas em Celebration), devidamente identificadas por placas nas raízes. E cadeiras de balanço de madeira clara onde repousam os habitantes, diante do lago, espiando o reflexo do sol desfazer a bruma que se forma pela manhã sobre a água; espiando e os pequenos jacarés que dão à superfície. Répteis que muitos pensam se tratar de bonecos, por isso as placas na altura dos olhos: não entrem na água e não alimentem os jacarés.

            O silêncio é praticamente uma atração turística do lugar. Apenas uma leve melodia de pássaros e um zunido quase mudo brotando de caixas de som em cúpulas de metal verde chumbadas nos canteiros das palmeiras de altura idêntica. Soft jazz, sempre. Talvez um carro faça um barulho, mas jamais buzinará. Ou um ronco suave do motor de um dos muitos carros elétricos que os habitantes preferem ter. De rodas pequenas e velocidade baixa, quando parados ficam “abastecendo” com fios ligados à tomadas dos postes da cidade. Grátis, é claro. Mal se queima petróleo em Celebration, apesar das Ferraris que passam aqui e ali e das Land Rovers que exibem adesivos republicanos e patriotas. “Freedom is not free”, “One Nation Under God”, “Suport our Troops”, “Truth will set us free”. Não há unanimidade quanto a isso, evidente. E Celebration não é, assim, um lugar político. Mas W. Bush não é lá muito impopular nas redondezas. Conservadores? “Sim. Eu sim. Não tenho muito do que me queixar”, defende a América William Vaughan, 62, republicano aposentado em Celebration, enquanto balança na cadeira defronte ao lago.

 

ferrari

Ferrari repousa na segurança da Market Street. 40km/h é o limite de velolcidade

 

NO LOGO           

Nada parece acontecer… e o repórter caminha com um deslumbramento contínuo pelas alamedas sem texto, sem som e sem problemas. Um lugar perfeito. “Não é, não”, dispara Stwart Ramsey, inglês, negociante de imóveis na Florida, enquanto caminha junto, “as pessoas acham que é um lugar perfeito. Mas todos têm problemas.” Qual o seu problema aqui, Stu? “hummm, melhorar a escola da cidade para meus filhos”.

            Stuart faz parte de um grupo de pais que procura recursos e professores para melhorar o ensino da escola fundamental de Celebration. Não que seja das piores, longe disso. O colégio é considerado uma escola pública modelo nos EUA. Comparável a poucas. Mas sempre dá pra melhorar, não é, Stu? “Sempre. É que as coisas complicaram um pouco nos últimos tempos.” Ele se refere a saída gradativa da Disney no financiamento e administração da cidade. “Sempre foi o plano deles, deixar a cidade nas mãos dos habitantes na medida que a comunidade amadurece. Antes eles ditavam as regras aqui, mas davam dinheiro para quase tudo aqui. Hoje têm apenas uma cadeira no Town Hall, mas a cidade precisa se manter sozinha agora.”

 

professoras

As teachers de Celebration: orgulho de “uma das melhores escolas da América”

 

             2006 é o décimo ano de Celebration como uma comunidade de fato. Foi fundada dois anos antes como empreendimento, mas seus primeiros habitantes só chegaram lá em 1996. A procura por casas na “cidade da Disney” foi tão grande e inesperada, que a empresa teve que sortear quem teria direito a morar ali na primeira etapa. Pagava-se para ter o direito de disputar. “Todos pensavam que seria como morar na Disney, e muita gente se decepcionou quando não viu o Mickey Mouse na rua”, Marnie, a porta voz, explica, “uma mulher chegou a ligar para Michael Eisner (então presidente da Disney) para reclamar que foi enganada. Celebration não era perfeita porque seu marido havia a abandonado”.

            2006 é o último ano da Disney em Celebration também. Após estabelecer os padrões, criar as tradições, os feriados e as “leis” da cidade, e depois de receber seus dólares dos terrenos e casas, a Disney vai pular fora. Até porque, nunca quis fazer de Celebration uma “cidade temática”. Não há Mickeys ou nada do tipo nas ruas. Apenas três prédios com pinta de maquete, a sede do grupo, e um discreto relevo em metal nas placas dos postes da cidade, abaixo do selo de Celebration, escrito “Disney ®”.

 

sede

Sede do departamento mundial de marketing da Disney, em uma das entradas de Celebration. Toda a diretoria tem casas por lá

 

Ainda nada parece acontecer… e enquanto o repórter caminha ao lado de Stuart pelas alamedas onde apenas os jatos automáticos de água molham os gramados impecáveis, pergunta se o entrevistado não se sente entediado. “Não. Eu comparo Celebration com um pato”. Pato? “Sim, um pato. Na superfície é calmo, flutuando devagar. Debaixo d´água as patas estão agitadas, muita coisa acontece”.


SUPER AMIGOS

Karlheinz Jaehling, ou Karl, é um alemão de 65 anos. Foi alto executivo e engenheiro da Mercedes Benz por toda sua vida adulta. Montou as principais fábricas da empresa fora da Alemanha, inclusive no Brasil, em Juiz de Fora, onde morou por dois anos implementando o projeto do Classe A. É um homem rico, acostumado com reuniões importantes. Mas no momento, aposentado, ele está abrindo potes de sorvete de creme e flocos para servir aos outros colegas de terceira idade da Friendship Force de Celebration.

 

Friendshipforce

Frindship Force de Celebration e o lanche para recepcionar Fudeus. Força total para fazer amigos. Karl é o da ponta direita 

 

É um dos muitos e muitos grupos que existem para “agitar a comunidade”, como disse Stuart. Há grupos de escoteiros, de fãs de golfe, pôquer, de republicanos, de dança, de brasileiros… Esse, o Friendship Force, é para fazer amigos ao redor do mundo. Em torno da mesa estão 8 pessoas. Seis senhoras, dois senhores (Karl incluso. É uma reunião semanal,  de duas horas exatas de duração, para planejar, discutir e votar as melhores maneiras para receber amigos do exterior de viajem marcada para Celebration e para onde eles próprios devem ir no ano que vem. Ah, e um tópico especial na pauta do convescote: dar as boas vindas ao presente repórter do Brasil.

Votam para ver em que restaurante devem levar os convivas e todos parecem concordar. Até que surge um impasse – quem vai hospedar Joyce, uma senhora Sueca que vai chegar para o festival de tortas de maçã com sérias dificuldades de locamoção. Deliberam, mas nenhuma conclusão. Deixam a querela para uma lista de discussão por email e pretendem ter a questão solucionada até a semana seguinte.

            Karl e sua mulher, a simpática Pat, fazem questão de poupar vinte dólares do repórter e ofertam uma carona até o hotel na 192. Enquanto os néons ressurgem e o tráfego da volta dos parques congestiona a estrada, Karl relembra de São Paulo. “O oposto de Celebration. Ah, você mora no centro? Hahahaha. Caos, não é?”

 

CELEBRATION É COISA NOSSA

             Não há crimes por lá. Nunca houve nada mais grave do que um furto de um veículo estacionado. Nunca houve uma apreensão de drogas, nunca ninguém foi pego chapado ou embriagado demais. Algumas pessoas morreram por lá, sim, mas de causas naturais. Mas ninguém foi enterrado lá, porque, em Celebration, cemitérios não são bem vindos – é triste, e isso não convém.

É uma cidade sem jovens, praticamente. Para se ter uma idéia, dos 1500 estudantes por lá, apenas 150 são da High School, ensino médio dos EUA. A grande maioria dos filhos crescidos de Celebration vão embora da cidade. Não há muito para eles mesmo. A população de 9000 pessoas é, basicamente, de aposentados ou jovens famílias com filhos pequenos. Feita de gente que quer sossego, segurança e uma vida oposta a das grandes cidades. Exceção a essa regra é Tato, curitibano, ex-plioto de F3, ex-baterista de banda de festa de 15 anos e, atualmente, golfista e artista plástico morando em Celebration. Ele tem 28 anos.

Tato está tentando ganhar a vida vendendo seus quadros de esporte em telas customizadas, que ele mesmo prepara de acordo com o esporte retratado. Tem futebol, golfe, baseball… e na sua busca por clientes, Tato acompanha o repórter na busca a dois dos proprietários mais inusitados de Celeb – Sílvio Santos (ele) e Jorge Bem Jor (ele mesmo).

Ambos tem casas milionárias e separadas por apenas uma única residência na Spring Park Loop, um dos lugares mais nobres da comunidade.

É de sua casa alva, vitoriana, de Celebration que Sílvio Santos decide muito do que vai fazer com seu SBT, onde assiste muitos programas para “se inspirar”. De lá ele deu aquela famigerada entrevista onde disse, em uma pegadinha nacional, que iria morrer em seis anos. Na época, Sílvio disse que “era o melhor lugar do mundo esse que a Disney construiu”. É lá que o MC do Clube do Mickey brasileiro pretende viver quando não tiver mais ânimo para ditar as regras em sua TV.

 

casas

A doce vida em Spring Park Loop: a casa de Sílvio Santos, vizinha de Jorge Ben Jor; abaixo, outro vizinho, o carioca gente fina Eduardo em sua piscina no quintal e a rua dos fundos das casas da rua: para não deixar o lixo na frente, sabe?

 

A campanhia bate, mas Sílvio não está. Apenas sua empregada, Nalda, uma brasileira que se recusa a ser retratada. “Ele vem muito pra cá, mas não sei quando. Ele não avisa.” Ela interrompe e dá adeuzinho à uma mulher loira que desce de um Audi TT carregada de sacolas: “Olá, Domingas!”. Domingas? Ela é a Domingas, a mulher do Jorge Bem? “Ela mesmo”.

É uma mulher muito simpática e doce. E absolutamente reservada. “Jorge vai ficar muito chateado se você colocar nossa casa na revista. Ninguém sabe que temos uma casa aqui.” Ela mora lá para cuidar dos filhos, Thomás e Gabriel,  que estão em uma universidade da Flórida. Jorge só aparece de dois em dois meses. E, quando vem, adora jogar golfe no campo de Celebration. “Aceita um cafezinho?”. Claro, Domingas.

Uma casa grande, muito limpa a iluminada, americana mesmo. Tomando um expresso na cozinha com vista para a sala, tirando latas de Guaraná e Nescau das sacolas, Domingas desabafa: “Olha, eu acho que está ficando perigoso. É muito bom aqui, mas estamos cercados de um bairro perigoso. Na verdade, Celebration fica em Caxias”.

É o quarto dia de Fudeus em Celebration, e o Disney Way of Life mostra sua face mais caridosa – começa o fim de semana e uma das muitas e muitas atividades comunitárias que Celebration promove. Um dia de feirinha feita pelos moradores para arrecadar fundos em prol do tratamento de câncer. São vinte barrcas vendendo de hot-dogs a memorabilias de cinema. Famílias montam seus home-theaters de plasma no gramado e vendem “ingressos” de filmes por US$3. Outros vendem Polariods com um sósia do Chaplin… coisas assim.

No palco do centro comunitário, Babe Plante entoa sozinho, acompanhado de seu karokê hi-tech, clássicos americanos. “Unforgattable”, “Fly me to the Moon”, coisas assim. Canta bem o danado, 63, aposentado, ex-empreiteiro de Boston que conheceu a esposa, uma loira de Pittsburgh, no hotel Glória, no Rio. Babe é também o MC do fim da tarde, que chama ao palco os homenageados – os sobreviventes de câncer de Celebration.

 

patriotas

Todos de pé para o hino nacional. One nation under Mickey

            Uma garota manda, a capela, tradição americana, o hino. Maão no peito, aquela coisa. E começa a subir, um a um, no palco, os survivors: “Eu sou Chris,  sobrevivo há 3 anos” – palmas. “Eu sou Helen, sobrevivo há 37 anos” – palmas. Sobre ao palco uma garotinha, tem cinco anos de idade. “Sou Cindy, sobrevivo há um ano” – palmas e gritos e u-hu´s efusivos. Babe não hesita – emenda no CD player o hit the Kool and The Gang: “Ceeeeeelebrate good times, Come on!” As famílias dançam e o sol se põe dissolvendo os muitos tons de rosa e azul do sunset da Florida. Os únicos néons de celebration acendem – os do cinema – e começa uma marcha que vai varar a madrugada, até o amanhecer, por todo o passeio que circula o lago. Homenagem aos sobreviventes, enquanto lâmpadas feitas de velas em barquinhos de papel são colocadas na água para assustar, por pouco tempo, os pequenos jacarés daquele reino da alegria. Enquanto a estafa do repórter pede uma prostração na grama impecável defronte à feira, uma aoréola gigantesca coroa a lua que brilha solta no céu. Engraçado, era a lua agora o que mais parecia plástico, um cenário. Parecia estar ao alcance de uma escada, como uma cúpula de um brinquedo da Disney. E, como Celebration, ela mesmo, a lua, era real. Era… perfeita. 

Ecce Homo

novembro 7, 2006

balcao

 

Porra, gravador, bloquinho? O que eu ia dizer? “Como o Pasquim começou?” “Há espaço para aquele humor hoje em dia?” Foda-se. O véio não é guru à toa – um dos grandes mestres da conversa fiada. Um dos heróis que ainda respiram (e bebem de pé) da genial geração que fez Arte da conversa fiada. Fez o Grande Jornalismo a partir de conversa fiada e era essa a lição. Para mim, cria subnutrida dos Grandes Porres, ficou claro desde o início: para entrevistar o Jaguar não se leva uma pauta. Leva-se o fígado. E os amigos, naturalmente.

Ronaldo Bressane topou. Surpreende-me que tenha demorado uma tarde toda para confirmar. Mas topou, claro. E encontramos Jaguar às 20h30, diante de uma long neck de Brahma e uma dose cowboy de Red Label, na primeira mesa na varanda do hotel Poeta Drummond. A conversa, ufa, já começa fiada. “Sempre fico nesse hotel. Drummond. Pior é que o Drummond era um tarado”, e gargalha, “tentou agarrar minha mulher”. E por aí a coisa vai… Noitadas com Cartola, Millôr, Tarso de Castro, Mulatas, Cornos, Cubanas, Ejaculações Precoces, Flávio Cavalcantti, Chutes em Bombas, Maconha, Morte, Punheta com Viagra, Piadas Prontas ou feitas na hora.

Entornamos eu e RB seis Brahmas somadas, enquanto Jaguar enxugou aquela primeira e o scotch. São quase 23hs quando ele pede mais uma dose seca de Red Label, recusando as duas únicas cachaças que o 4 estrelas oferecia (51 e Ypioca, vê se pode). Essa desce rápido. Ele mesmo pede a conta que fez questão de pagar. Despeja de gorjeta mais sete reais tirados de um bolinho amassado de dinheiro solto no bolso. Nem esboçamos um tchau. “Conhece a Mercearia São Pedro, Jaguar? Ah, você tem que conhecer.” E, de táxi, fomos ao porre.

 

“Que lugar do caralho!”, diz antes de meter os pés na Merça. Nem precisava de chancela, mas se até Jaguar intui e assina embaixo, o bar de Marquinhos é de fato especial. E ele mesmo, Marquinhos, recepcionou o ilustre bebum. Mostrou sua livraria seletíssima enrolada em magipack, diz que esgotou o “Confesso que Bebi” (o último do Jaguar) e providenciou que uma mesa brotasse do piso para acomodar-nos. Sentamos com Bel e Joca Terron, Helder, Xico Sá, Queóps e Marcelino Freire. Boemia profissional, mas de quilometragem muito baixa perto dos 74 anos de porres do velho Jaguaribe.

Assunto? Ora, bolas! Conversa fiada. Vez ou outra é que alguém dava uma inevitável puxada de saco: “que honra!”, “a gente te ama”, “quem diria, eu aqui, bebendo com Jaguar…” Puxada de saco sim, justificadíssima, sem qualquer demagogia. Porque não deixar explícitas certas alegrias é um tipo horrível de arrogância. E não havia um ali ignaro do privilégio daquela noite. Não só pelo mito todo, do fígado de aço e do Pasquim. Mas pelo exemplo ambulante. Gente fina demais. As mais de sete décadas loucas e sua turma fabulosa não calejam seu ego nem ânimo. Ainda não resiste a conhecer gente nova, a dormir tarde demais, a ficar de pé no balcão depois da grade baixar, e autografar guardanapos e jantar mortadela em cubo. Um cara que não resiste a ser feliz, custe todo seu dinheiro, seu sono ou saúde. E alegria, como se sabe, é um santo remédio. Por isso está vivo, vivíssimo e resistente. Despejou inúmeras cervejas, cachaças, Underberg de saideira. Profissa. Não cambaleia, não muda o tom. Ao contrário de alguns de nós, que destilaram uma sofrida ressaca no dia seguinte. Mas igualmente felizes, com uma sensação meio besta de “sermos especiais”, sabe? Mas… confesso que bebi e confesso que adorei. E que, depois de escutar e rir com o cara, só uma de suas frases ecoava na minha cabeça. Entornando uma Canarinha, Jaguar falou da morte. Não tinha medo exatamente, mas não se conformava. Resumiu onde está seu talento maior, o de esbanjar, generoso demais, alegria. Enfim, disse Jaguar: “Puta merda. Eu queria morrer junto com todo mundo”.

Aquilo Rosa

novembro 7, 2006

Atendendo a pedidos, e aproveitando o súbito pico de audiência que este blog teve ao postar o texto anterior sobre o protesto anti-Cicarelli na MTV, aqui republico um texto meu na mesma onda “pra que isso?”.
Trata-se do único relato in loco da imprensa sobre a festa de lançamento do Perfume de Paris Hilton no Terraço Daslu, dia 14 de setembro de 2005, mesmo data do célebre discurso de Roberto Jefferson horas antes de sua cassação.
A repercussão dessa festa, lembro, foi descomunal. Porém ninguém teve autorização para clicar o desenrolar da festa (aqui exposto), ou espaço nos veículos para falar a escancarada verdade: ô povo pra ser brega!
A matéria foi publicada no dia seguinte, no extinto e saudoso blog Fakerfakir.
À festa:


Paris Vela
O tom que definiu essa luminosa, endinheirada e tediosa noite

O tapete rosinha, alinhado entre colunas neo-clássicas e vasos de rosas do mesmo tom, era apenas o primeiro acorde da sinfonia de gosto duvidoso que retumbou por toda a noite no Terraço Daslu. Era o lançamento da fragância que leva o nome – e supostamente o cheiro – de Paris Hilton, a herdeira.Depois do pórtico por onde a reportagem de Fudeus passou [de táxi], uma bifurcação: à esquerda, convidados. À direita, os jornalistas.
– Imprensa? – indaga duramente um leão de chácara.
– Não. Receita Federal! …Brincadeira, imprensa mesmo…, responde, ante o olhar feroz do Man In Black, o presente repórter.
– Por aqui… – e indica a lateral do corredor, atrás de um cordão, onde mais de 50 jornalistas, quase todos fotógrafos, se encoxavam sobre uma comprida e estreitinha plataforma. Todos ali ávidos pelo mesmo clique: das parcas celebridades que deram as caras naquela noite.
A saber: Marcos Mion [“cicerone” de Paris em sua luminosa passagem por Sampa], Junior Lima [irmão da Sandy, que no momento agora descrito estava defronte à parede rosa choque sorrindo aos pipocantes flashes], Costanza Pascolato, Mariana Mantega, e Luciano Szafir.

Imprensa Paris
O tapete rosinha por onde passaram as celebs. “Jornalista? Só
no chiqueirinho”

A reportagem de Fudeus não compreende o encurralamento da imprensa. Chama uma assessora, pede explicações e escuta:– Isso mesmo. Vocês ficam aqui fazendo o trabalhinho de vocês, tá?
Trabalhinho?
Roçar ombros com paparazzi por horas aguardando seres iluminados não é exatamente o que Fudeus chama de trabalho. Cinco minutos depois, foi chamada a, sei lá, gerente e, dada a envergadura do veículo, foi liberada a entrada. Enquanto passava pelo tapete rosinha nenhum flash estourou.

Luiz Peido de Rico
Luiz, do elevador Daslu – sommelier de peido de rico

O ascensorista trajava uma roupa de branco perfeito, botões dourados e chapeuzinho com um brasão. De um lado, uma TV de plasma.
– Passa filme aqui?
– Não, senhor. Só comercial.
– Hum. Escuta, sempre quis saber uma coisa… Milionário peida no elevador?
– Ah, peida sim. Mas… não faz barulho.
– Alguém peidou hoje?
– Hoje não. Mas ontem mesmo, soltaram um, muito fedido!
– E você sai do elevador nesses casos?
– Não… mas a mocinha vem e abana com uma almofadinha. Quarto andar!
A porta abre e revela um opulento arranjo de flores em forma de P em um grande canteiro retangular – algo como um túmulo de uma drag milionária. Atenha-se à foto, glamouroso leitor.

 
Tumbalacatumba
O arranjo floral celebrativo – aqui jaz a elegância

Tudo naquele salão refletia algo róseo. Muitas luzes e holofotes eram rosinhas, velas rosinhas estampadas com palavras do tipo “powerful”, “pretty”, “Paris” e …. “pink”. Depois da segunda taça de Veuve Clicquot, a pista de dança [mas não para dançar, veja lá]. Damas lânguidas, de pele luminosa não mexiam muito mais do que um dos pés para marcar o ritmo. No palco um dos irmãos da Família Lima, tocando um violino plástico, branco, em uma base eletrônica. Tipo o “projeto eletrônico” do carinha. Algo como se Kitaro fizesse a trilha de um comercial da Marabraz. Liminha fazia trejeitos de artista entregue, “possuído pela música”. Páro, completamente constrangido, para tirar um retrato. Ele nota, sorri, e dá uma curvadinha para a pose performática.

 Liminha vergonha alheia
Todo o carisma do irmão Lima e seu violino sintético


Minha vontade é me enterrar vivo de tanta vergonha alheia – ou de espocar o violino branco em tamanho almofadinha.
O show termina, mas não a tortura. Nova base eletrônica de teclado infantil começa e um saxofonista de blaser largo improvisa em cima – desta vez circulando pelo terraço, soprando perdigotos nos VIPs, olhando a todos nos olhos, performático ele, também. Era para dar um toque jazzy, e ao mesmo tempo muderrno. Porém, ninguém olhava o Kenny G do Center Norte que assoprava solfejos aos ricos ouvidos. Tão ignorado quanto os garçons e garçonetes que enchiam os copos de 10 em 10 segundos – o melhor da festa, sem dúvida: nada a reparar no serviço.
Fica essa lenga-lenga por horas. Nada acontece e o passatempo é admirar a cútis das milionettes. Um bronzeado cuidado, peles sedosas até ao olhar. Epidermes curtidas em cosméticos japoneses [os melhores], sem irregularidades. Seus pés pareciam esculpidos dentro dos sapatos de salto alto – todos iguaizinhos. Cabelos invariavelmente lisos, nitidamente custaram os olhos da minha parva cara. Quanto a seus olhares, deslizavam no ar, laterais, egípcios, dir-se-ia treinados para nunca encarar outro olhar.
Súbito, nossa exclusividade jornalística some. Paparazzi brotam do mármore e câmeras de TV duelam procurando um resto de rostos famosos. A imprensa foi autorizada, enfim. Amaury Jr. e Emílio Surita surgem. Um mar de credenciais – rosinhas – enche o salão. E, da pista, um som mais alto toma o ar. É a banda de Júnior – o irmão da Sandy – a incrivel SoulFunk. Alvoroço. É o auge da noite….

Chega Paris Hilton! 
Tumba Rosinha
Paris posa. 100 fotógrafos, a mesma foto
Sem piada: uma horda de dezenas de fotógrafos e jornalistas cerca o tal túmulo drag onde a loira posa – em um vestido impecavelmente rosinha. Mais de dez seguranças dão as mãos [recordo a Seleção de 94] para atrapalhar a visão da imprensa e dos basbaques. Paris, com um descaramento de ator de pegadinha, faz caricatura de pop star. Ergue o pescoço, faz carinha de safada, não mostra os dentes nem por um segundo e mantém a afetação sem vacilar.Segura o tubinho de seu perfume, fica mais uns segundos virada com o rosto para a direita (seu melhor ângulo) e surta:– Thank you. Thank you very much! E sai cercada por uma dezena de armários.
Frascos oprimidos
O Perfume de Paris e Povilho Granado. Os melhores perfumes
estão nos menores frascos
 

A gigantesca fama de Paris Hilton [o terceiro nome mais procurado no Google, atrás apenas das outras loiras Madonna – homônima da Virgem Maria – e Britney Spears] é uma das mais cômicas e irritantes provas de que, para ser famoso, basta agir como um.
Ela anda cercada de dez brutamontes. A troco de quê? Justamente na Daslu? Será que correria risco de uma curra dos 400 VIPs?
Mas a horda de securities provoca o assédio. A chegada triunfal, com fogos de artifício, a área VIP reservada [por seguranças de mãos dadas] dentro do Terraço ainda mais VIP, o inevitável atraso de horas, a impossibilidade de fazer uma pergunta… Um muro colocado entre ela e o povo milionário (!) como as duas outras colocadas no pódio do Google têm. Por isso é famosa: paga para ser. Além disso, fez um reality show zombando de sua própria arrogância [Simple life], um filme de terror fracasso de bilheteria [House of wax]. Ah, claro, além de sua maior obra: um vídeo caseiro em que fela seu namorado com a destreza de uma feminista lésbica.
E, ainda assim, ali estavam jornalistas e o mailing da Daslu, tão herdeiro quanto ela, sedentos por um pouco da figura de Paris Hilton.Coceira nas costas
Paris coça as costas – ahá! Falta de banho.
Ela dança no palco. Não tem bunda alguma. Não tem peito. Mas tem belas costas, e sabe disso. Paris as oferecia ao público em um amplo decote, em seus meticulosos movimentos. No único instante em que cruzou a pista de dança, colocou o celular junto ao rosto e passou apressada no meio da roda de seguranças. Senti seu perfume, o motivo da festa: forte, doce, cafona. Um de seus amigos, o produtor de seu novo CD, baixinho e de blaser largo, pára o som e discursa:– Esse dia é uma honra para vocês, brasileiros. Paris Hilton está aqui e vocês vão escutar agora, em primeira mão, uma música do CD de Paris que será lançado. Apenas 9 pessoas escutaram essa faixa. Ah, não reparem porque só está 40% pronta…Aplausos. Surge um hip-hop de quinta, com sussurros da loura gelada. A pista tenta dançar, meio sem jeito…Dois lampejos de decência: 1. Lobão e Mariana Weickert [costas muito mais suculentas que as de Paris], que deram as caras horas depois de Paris e foram embora depois da meia hora que descortinou o mico [Lobão dizia: “E eu pensava que nada poderia ser mais cretino que o discurso de Roberto Jefferson hoje”]. Momento Nelson Rubens: será que o Lobão está de coisa com a Mariana? Fica levantada a lebre.2. O bar. A agência contratada para servir os drinks empregava jovens de boa aparência – modelos mal-remunerados. Eles vestiam camisetas contrangedoras escritas “I Love Paris” e se submetiam sorrindo à boçalidade do jet-set que não sabe juntar os fonemas das palavras “por favor” e “obrigado”. Uma das bartenders, Fernanda, define de forma bem simples: “Todos iguais”. A beldade do balcão, que pretende ser cineasta, ostentava o melhor penteado da festa – e possivelmente o olhar mais vivo da noite. Já passava das três da matina, e enquanto Fernanda preparava meu quinto drink, suspirava de cansaço – de manhã ela tem aula. Embriagado, enquanto o mau elemente 50 cent soava nas caixas, eu recordava de Odair José, um cafona com mais classe do que 20 gerações de Paris: “Eu vou tirar você desse lugar”.Chega. Volto ao elevador, zonzo, levando embora o copo de vidro com o consentimento do segurança e deparo de novo com Luiz, o sommelier de pum de rico.
– E aí, Luiz, alguém peidou hoje?
– Hoje, não. De fedido, só o perfume.
Vazando
E Paris se vai… tarde…

Só INRI salva

novembro 7, 2006

INRetrato

Que o fim do mundo está próximo quase ninguém duvida. Mas quem diria que Jesus Cristo, o encarregado do Juízo Final, voltou e mora no subúrbio de Curitiba? Ele, que hoje chama-se INRI Cristo, recebeu a reportagem de Fudeus e revelou sua versão da Bíblia, de sua trajetória como profeta e do futuro da humanidade. Preparai-vos, caros leitores

Texto e fotos: BTN

        Ele está entre nós. Ausente do plano terrestre por quase dois milênios, Cristo voltou. Hoje tem 56 anos, mora no Paraná, não faz sexo desde os 30 e é um homem de poucos sorrisos. O sobrenome é o mesmo, mas não se chama mais Jesus. Abandonou o nome antigo por ordem de Seu Pai e adotou o que lhe foi dado por Pôncioe Pilatos no dia do martírio – Jesus Nazareno, Rei dos Judeus, ou melhor, sua abreviação latina fincada no topo da cruz romana – INRI. Desde a infância, muito dura, escuta a voz imperativa de Deus. Foi essa voz que o fez abandonar o lar da família aos 13 anos, a largar a escola assim que foi alfabetizado para se tornar um poliglota teodidata (ensinado por Deus).
            
Já foi padeiro, verdureiro, cobrador de ônibus. Em 69 se tornou profeta de um “Deus desconhecido”, mas somente em 1979, ao quebrar o nariz em uma queda enquanto jejuava em Santiago do Chile, Deus lhe falou que era ele seu primogênito, o mesmo cristo crucificado no calvário. Não por coincidência, mas por obra divina, bastou girar a segunda letra de seu nome de batismo terreno, Iuri, para que se tornasse Inri, INRI Cristo. Vestiu a túnica e as sandálias que até hoje usa e vagou e falou ao povo em mais de 20 países, na europa e em toda a américa latina. Queimou seus documentos, aglutinou multidões, invadiu igrejas, quebrou imagens, foi preso 28 vezes e deportado ao Brasil como apátrida.
          
Conhecido no Brasil pelas escandalosas e bizarras aparições televisivas, em que frequentemente é humilhado, ele se quiexa fervorosamente da cruz que carrega nessa encarnação – o boicote que sofre da imprensa. “Coisa da igreja meretriz romana, dos arcebestas do Brasil”, postula em seu sotaque estranho, resíduo do aramaico que falava nos arredores de Nazaré, em sua última encarnação.
         Fudeus passou a semana santa com o primogênito de Deus em sua pequena e única igreja e obteve bombásticas revelações que, para quem tem fé, mudam completamente nosso entendimento do céu e da terra.
Exemplos: INRI também foi Adão, Noé, Moisés e Abraão; Maria não era virgem coisa nenhuma; e enquanto espera o Apocalipse, adora jogar bilboquê.

bilboque

INRI dá exemplo para as crianças acertando 100% das manobras com seu bilboquê: “No meu tempo não tinha videogame, era bem melhor”Deus está farto

            Ele mora em um sítio, em uma montanha nos arredores de Curitiba. Vive cercado de pouco mais de uma dezena de fiéis seguidoras e de uns dois fiéis seguidores cuidam das tarefas domésticas, burocráticas e administrativas que o life-style de um Messias solicita. Em seu rancho, adora andar de bicicleta, jogar sinuca e tomar caldo de cana espremido na hora. Também pratica um pouco de halteres e faz abdominais para manter sua saúde na santa paz. Mas seus compromissos são todos marcados em seu templo único no subúrbio de Curitiba. A igreja SOUST, Suprema Ordem Universal da Santíssima Trindade, fica em uma esquina do bairro do Alto do Boqueirão, perigoso, segundo informações. Não é à toa que mantém guardas armados rondando a sede durante a noite.

SOULST

A única e verdadeira igreja cristã fica no perigoso bairro do Alto do Boqueirão, subúrbio de Curitiba. “Só os filhos de Deus são bem vindos”

            É sob esse teto que INRI mantém seu templo simples, com lugar para cinqüenta pessoas, cheio de recortes de jornais enquadrados, fotos dele em programas de TV, uma televisão de quatorze polegadas ao fundo e um altar oculto por uma cortina rosada que só é aberta quando INRI surge para proferir suas palavras. Era sábado de aleluia, fim de tarde, e apenas 14 pessoas suas palavras duras e seríssimas.
         O messias não fala, brada trechos de suas falas bíblicas como Jesus. E no final de seu monólogo intima a platéia atônita:
         – Alguma dúvida?
        
Silêncio. Ninguém respira.
        
– Já que ninguém tem nenhuma dúvida, devem estar todos satisfeitos. Mas eu não estou satisfeito!

missa

A missa no sábado de Aleluia. “Maldita seja a Igreja proscrita romana”

         Ao final de suas palavras, chega a hora da benções às avessas, ou melhor, uma maldição fervorosa contra a igreja católica apostólica romana. Não tome como incoerência essa cólera do homem que foi Jesus. Ele voltou para acabar com tudo. Não recolhe esperança no coração. Só aguarda a hora que seu Pai escolheu para que ele, INRI, reúna sob sua tutela os escolhidos para viver depois do apocalipse terrestre – o fim do mundo como conhecemos hoje – todos felizes, no reino dos céus sobre a Terra. E sob o teto da SOUST mantém seu gabinete, onde recebeu a reportagem de Fudeus, na ocasião representando a revista TRIP.
          A sala é simples, iluminada com luz branca, onde há um sofá pequena para as visitas, três cadeiras para o corpo eclesiástico (suas jovens discípulas) e um altar raso, de pano vermelho, onde repousa o trono de madeira entalhada onde o Rei dos Reis se senta. Na parede há um mapa-mundi, um modelo científico do corpo humano em tamanho pôster e algumas fotos importantes. À sua frente, um apoio para seus pés descalços. Muito áspero, desconfiado e arredio, INRI começou nossa conversa. E depois da longa entrevista mostrou-se muito mais calmo e solícito. Evitou posar para fotos. Mas cedeu quando disse ter visto que o coração do repórter é puro.

Essa reportagem foi publicada originalmente na revista TRIP de maio de 2004. Lá encontra-se uma versão bem mais compacta do que a apresentada aqui. Quando viu seus retratos e leu minha versão de suas palavras na revista, INRI gostou. O próprio filho de Deus me acordou no domingo, dia 16 de maio, dizendo ao telefone que eu escrevi muito bonito, que eu serei abençoado, e que eu vá ao seu sítio jogar uma sinuca e tomar um caldinho de cana. Que alívio nos porões de minha alma. Se Ele estiver certo, e agora torço para que esteja, estou salvo. A não ser, é claro, que INRI leia o Fudeus. Mas, prestai atenção, caros leitores. E nas palavras de Pilatos antes de lavar suas mãos: Eis o Homem.

Fudeus: Como foi sua infância nessa encarnação?
INRI CRISTO: Vamos dizer que (pausa) eu não tive infância. Eu comecei a trabalhar muito cedo, vendendo coisas na rua, lavava roupa, trabalhando em feiras, vendendo verduras. Mas eu já escutava a voz de meu Pai, mas naquele época eu ainda não sabia que era Ele. Falava sobre o fim da humanidade e sobre o que eu deveria fazer. Aos 13 anos recebi uma ordem do Senhor para que eu aproveitasse que não havia ninguém em casa e começar minha peregrinação.

E qual foi a primeira coisa que fez quando saiu de casa? Para onde o Senhor foi?

Por que quer saber disso? … eu chamei um amiguinho meu, o Valdir, e pegamos carona na carroceria de um caminhão. Tinha um boi junto da gente que pendia para o nosso lado sempre que o caminhão virava. Tivemos que disputar espaço com o boi. Quando chegamos na cidade de Gaspar pegamos outra carona. Era outro caminhão, mas carregado de tijolos. Quando cheguei em Blumenau, que era meu destino, estava todo vermelinho de pó de tijolo.

O Senhor teve medo de ficar sozinho?
Eu nunca tive medo. O Senhor Deus, meu pai, sempre me assistiu. Mesmo as vezes em que eu fiquei perdido, tinha aquela certeza de que tinha que estar ali, de que havia um sentido maior na minha vida.

O Senhor é apenas filho de Deus ou também é Deus?
Eu sou o primogênito de Deus. Ninguém é obrigado a crer. E como primiogênito eu disse que meu pai e eu somos uma só coisa, pois eu não tenho livre arbítrio. Eu vivo só para seguir a vontade de meu pai e Ele age através de mim. Eu e ele somos uma só coisa, mas na hora da crucificação, se você prestar atenção, teve um momento em que eu disse: Pai, porque me abandonaste? Ora, se eu fosse Deus eu não dizia isso… E meu pai nunca aceitaria receber chicotadas, cuspe no rosto. Por outro lado eu disse, sem ser paradoxal, que quem me vê, vê meu pai. É uma questão de raciocinar com honestidade intelectual. Me confundem com Deus pois eu sou o primeiro filho de Deus. O réptil rastejante evoluiu, chegou a ser macaco e a primeira vez que esse ser deixou de ser macaco, fui eu: Adão. Deu pra entender?

O senhor foi Adão? E qual foi o pecado original?
Também fui Moisés, Abraão, Davi e Noé. Mas Adão é uma palavra para definir o primeiro filho de Deus, poderia ser qualquer nome, o que importa é que sou eu o pai da humanidade. Deus, mesmo sabendo que eu não iria cumprir a ordem Dele, porque não tinha experiência, disse que eu não deveria comer do fruto da árvore da vida. Se eu comesse eu teria de arcar com as conseqüências – trabalhar, cuidar da prole… E a arvora da vida era o sexo. Fui tentado e acabei fornicando com a fêmea. Daí vieram os descendentes. Como conseqüência eu fiquei responsável por toda minha prole. Daí nasceu a industria, que nasce da necessidade, e a necessidade nasce do pecado. Daí vem a imundice e a miséria.

Então a culpa de tanto sofrimento nos tempos é do Senhor?
Sim, por conta da minha desobediência é que tudo está errado. Mas eu me redimi na cruz. Meu castigo foi a crucificação, pois eu teria que voltar como Juiz ilibado, que não deve para a lei.

Logo o senhor veio para realizar o juízo final, o apocalipse?
Minha missão, como Cristo, é estabelecer o reino de Deus na Terra e cumpir o que está escrito em Apocalipse. Através da Soust (suprema Ordem Universal da santíssima trindade), a minha nova e única igreja, formar um só rebanho com um só pastor – eu.

E quando acontecerá o apocalipse?
O dia e a hora nem os anjos sabem, nem eu, o filho do Homem sei. Os sinais já estão acontecendo… Como eu já disse (levanta a voz): guerra, rumores de guerra, reino contra reino, tempestade, terremoto, inundações, pestilências, fome são apenas o início das dores. E então vereis o sinal do filho do Homem. Alguns itelectualóides falam que sempre houve fome, terremotos, guerra. É verdade, só que nunca houve tudo na mesma época. Agora tu liga a televisão, vê tudo isso em um só jornal. Só falta a humanidade ver o rosto do filho do homem. Mas como está previsto em Apocalipse 1:14, que quando chegar a hora de todso homem me ver, eu estarei com os cabelos brancos. Por enquanto não estou totalmente grisalho.

E sabe quando vai ficar grisalho?
Olha, minha barba já está bem branquinha. Mas o dia e a hora, meu filho, nem os anjos sabem.

Falando em anjos, como é o paraíso?
O paraíso, meu filho, é dentro da tua cabeça quando tu te harmonizas com a lei divina. E o inferno é dentro da cabeça quando rompe a lei divina.

Quando morremos nós vamos para o céu da boca das minhocas (risos). Quando tu trancendes, não está mais à mercê de calendário, não existe tempo. De onde eu vim, não faz nem um segundo que fui crucificado.

Deus tem um rosto?
Se Ele tivesse um rosto físico então alguém poderia bater no rosto dele, cuspir nele. Entendeu? Também não tem nome. Tem título, mas não tem nome.

INRIfrente

Eu sou o Messias. Vai encarar?

Eu sinto algum rancor, uma espécie de raiva no seu discurso. Isso não é incoerente com o Jesus misericordioso que oferece a outra face?

Não é incoerente por que há dois mil anos eu já disse. (Levanta-se e começa a gritar) Geração de víboras! Quanto tempo ainda terei que ficar entre vós?! (abaixa o tom) Esse é o mesmo Jesusinho que depois foi crucificado. Leia na Bíblia. Mas eu não guardo nenhum rancor. Mas às vezes a santa cólera de meu Pai se manifesta em mim.

Mas o senhor acha que todos merecem perdão?
(Pensativo) Um juiz justo não perdoa. Ele dá uma sentença exemplar. Até para o penitente evoluir e aprenda a viver dentro da lei. Todos merecem perdão, mas eu não posso violar a lei do Carma, do retorno. Eu perdôo para que ele possa se entender logo com o santo tribunal.

E qual o pior pecado que existe?

Pecado é tudo que fizeres que faz mal a ti ou aos outros é pecado. Mas o maior de todos os pecados, para mim, é a mentira. É o mais terrível de todos. Por causa da mentira muita gente morre, há fome, problemas sociais. Se não fosse a mentira eu não teria sido nem sequer crucificado.
A igreja romana, proscrita, meretriz, injetou um dose tão grande de mentira no mundo que é quase um milagre quando alguém admite a possibilidade de eu não ser um louco. Mas isso não me atinge, é terrível para o povo que não pode desfrutar da minha benção, da minha ajuda.

Porque o senhor tem o nome INRI? Porque não Jesus?
Porque meu pai sabia que na minha ausência eles usariam meu nome para fins de canalhice. Para que ninguém me confunda. Como bem disse Arnaldo Jabor, fazem todo tipo de maracutaia em meu nome.

Explique essa coroa de espinhos que usa sempre.
Uso a coroa de espinhos para oficializar minha condição de Rei dos Reis, o único rei coroado poelos inimigos. Nessa encarnação meu Pai manda eu usar a coroa para lembrar do passado. Mas os idiotas perguntam porque só tem espinhos para fora… Volto minha vida pela coerência.

Então o senhor deve ser descrente da política como forma de resolver as mazelas da humanidade.
Não é questão de crença, eu sou é realista, racional. Eu piso com firmeza na recionalidade. Então eu vejo antecipadamente quando um candidato está mentindo. Então se os políticos garantem coisas matematicamente impossíveis, tu vês que ele está mentindo. Entendeu. Há uns três anos falei para os deputados, no congresso nacional, que uma guerra civil estava em marcha. Eu disse que se houvesse democracia no Brasil não precisaria gastar R$200 milhões para informatizar o voto. Se a democracia fosse real o voto seria facultativo e daria para contar os votos manualmente. Aí me expulsaram do congresso.

Por que o senhor voltou no Brasil?
Deus escolheu a terra da Santa Cruz para o filho dele reencarnar. Um dia o Brasil será um país cristão. Hoje ele é um país romano e outras cositas más… Mas será o primeiro país a saber que eu estou aqui. O Brasil tem particularidades que nenhum outro país tem no aspecto místico. Aqui existe essa coisa de dizer que Deus é brasileiro, uma diversificação religiosa. Mas eu não vou dizer, você vai ter que deduzir. E eu nasci, veja você, em Santa Catarina. Catarina quer dizer pura. E Santa pois Deus santificou aquela terra para que eu nascesce. Entendeu? Santa, Catarina…

O que o senhor pensa do presidente Lula?
(pensativo) Eu não posso opinar sobre ele. Posso dizer que ninguém chega a ser presidente sem o consentimento de Deus, então há um propósito. Ele tem um bom coração, mas tenho certeza que não vai cumprir o que prometeu.

O que o senhor pensa do Padre Quevedo?
Todo rei tem seu bobo da corte. Ele é o meu bobo da corte. Mas fora das câmeras ele é um vigarista simpático.

E de Buda?
Ele foi um príncipe que percebeu que vivia em uma gaiola de ouro. Mas não é filho de Deus. Nenhum homem que morre de diarréia por comer carne de porco pode ser o iluminado.

Mas Buda morreu de diarréia mesmo?
Sim. Eu li na SuperInteressante.

O que o senhor achou do flime Paixão de Cristo, de Mel Gibson? É tudo verdadeiro?
O diretor fantasiou muito no filme, mas aconteceu toda aquela violência. Louca mesmo foi a idéia de há dois mil anos, de me chicotear. Era só crucificar e pronto. Mas aquele sangue todo é para dar bilheteria.

Falando em loucura, o senhor já teve dúvida que o senhor é Cristo? Já pensou que pode ser louco?
Quando se tem livre arbítrio a gente pode ter dúvida, pode hesitar.

Mas eu não acredito que sou, eu sei que sou. Eu não tenho esse livre arbítrio, eu não posso ter dúvida, pois todos os atos que fiz foi por ordem de Deus. E tudo o que ele disse que aconteceria realmente aconteceu. Ele premeditou tudo e me dá sempre os recursos. A minha trajetória prova. 

Como estar se vingando

novembro 7, 2006

telemar

Uma das mais invasivas e absolutamente chatas manifestações do Big Brother corporativo são os serviços de telemarketing. Eles te ligam de manhã, nos finais de semana, no celular, falam no gerúndio sem parar, nunca aceitam um não como resposta e nos oferecem os mais dispensáveis produtos de nosso tempo. Depois de estudar o comportamento e os manuais profissionais dessas criaturas, Fudeus chegou a uma síntese dos dez modos mais eficazes [leia-se cruéis] de se livrar da praga. Experimente sem dó.

1 – Simule uma masturbação
Assim que o atendente terminar sua primeira frase diga coisas como: “- Isso, hummm, continua, vai, não pára não. Tô quase esporrando. Seu puto! Ohhhhhhhh”.

2 – Imite alguém famoso
Uma das primeiras perguntas dos serviços de telemarketing é “Com quem estou falando?”. Responda na hora: “- Sílvio Santos, rarái!”. Ou imite alguém famoso de sua preferência e tente levar a conversa normalmente. Funciona sempre. Além disso, seu número será removido da famigerada lista de clientes.

3 – Finja-se de gago
Todas as empresas de telemarketing estabelecem claras metas na relação clientes/hora. Se um atendente fica muito abaixo desse objetivo, ele é tido como improdutivo. Logo perde o emprego. Use isso a seu favor. Logo em seu primeiro comentário dê início a uma gagueira insuportável, capaz de demorar mais de um minuto para terminar um simples ¿muito obrigado¿. Em dois tempos o atendente desliga.

4 – Coloque a mãe no meio
Serviços de telemarketing invariavelmente oferecem alguma coisa para você, cliente potencial. Sua única e primeira resposta à oferta deve ser: “Tá bem, eu quero, mas só se sua mãe vier junto”.

5 – Chá de cadeira
Diga na primeira oportunidade: “- Espere um minutinho, sim?” Deixe o telefone de lado e aproveite para fumar um cigarrinho, defecar, fazer um chá. De minuto em minuto convém voltar ao gancho e dizer: “- Só mais um minutinho, talquei?”.
6 – Finja-se de surdo
Qualquer coisa que lhe for dita ao telefone responda com um sonoro: “O quê?!”, ou “Como?!”, ou “Não escutei…”. Nunca responda outra coisa. Um dos mais eficazes métodos.

7 – Responder tudo na língua do pê
Nenhum manual de atendentes de telemarketing diz o que fazer quando o cliente só se comunica na língua do pê. Nossos interlocutores desistem já na segunda frase do diálogo

8 – Conte a história da sua vida
Dê uma de carente extremo. Qualquer pergunta que o atendente fizer deve ser respondida com desabafos, casos longos e monótonos de sua vida e com confissões de carência. “Que bom que você ligou… há tempos que eu só conversava com meus periquitos…”. Pergunte se o atendente não quer ser seu melhor amigo. Peça para ele jurar que a partir de hoje ele vai te ligar todos os dias. Nunca mais ele liga.

9 – Peça socorro
Interrompa o atendente da cara e diga que você está sendo seqüestrado, que sua casa está em chamas e que seu filho está tentando o suicídio. Peça desesperadamente para o atendente chamar a polícia e os bombeiros e dê o seguinte endereço: Av. Paulista, 1111 [é a sede do Citibank]. Desligue o telefone em seguida.

10 – Aja como em um trote
Duvide de que se trata de um telefonema real. Diga coisas como: “Ah, Meio-Quilo, pára de sacanagem! Eu sei que é trote!”. Insista fanaticamente nessa idéia até que o atendente desista de você. 

Fudeus: em nome do Pai, do Filho e do Espírito de Porco.

Nota da redação: Há quase seis anos publico regularmente em mídias impressas e eletrônicas textos de dos quais me envergonho ou me orgulho em diferentes medidas. Estranhamente o post acima, redigido em menos de meia hora, foi de longe o que mais repercutiu.
Recebi mais de 200 emails. 185 me execrando como uma espécie de nazista. Eram atendentes de telemarketing furiosos. Alegavam que estavam fazendo seu trabalho honestamente. Que todos deveriam ter paciência. Que eles faziam um trabalho fundamental para a sociedade. Que sofriam de estresse. Gente me ameaçando fisicamente, dizendo que eu merecia morrer ou ser estuprado.
Vejamos… Ganhar a vida incomodando gente com frases de apostilas é uma coisa. Se orgulhar disso é cretino demais. Ter noção do ridículo do próprio ofício é condição básica para evoluir. E saber rir de si mesmo é o que separa os chatos do resto do mundo.
Logo, fica aqui o meu não-pedido de desculpas aos indiivíduos que pagam suas contas tentando nos mandar outras.

Consolo de Deus

novembro 7, 2006

jesuspower

Jesus, alegria dos homos

São oito da manhã de sábado. Você está de ressaca. A campanhia toca. Você levanta com muito custo e abre a porta. Um casal trajado muito sobriamente, bíblias na mão, lhe abre um sorriso monótono. Você logo vê – são testemunhas de Jeová. “Bom dia. Viemos lhe falar de Jesus.” Você as convida para entrar. Oferece o sofá, um copo de água. Pede um minuto e vai ao quarto. Você volta, olhas as testemunhas nos olhos e brada: “Sabe o que você faz com seu Jesus?! Enfia no cu!” – enquanto ergue no ar um gigantesco e venoso pênis de silicone em forma de cristo crucificado.              

Isso não é um sonho, caros leitores. Isso já é possível graças ao blasfemo espírito empreendedor de Nigel Ramsbotton, um inglês que vive na Califórnia e hoje tem a idade, vejam vocês, de Cristo – 33. É de Nigel a empresa “Divine Interventions” (Intervenções Divinas), totalmente dedicada à fabricação de aparatos para penetração anal e vaginal com motivos sacros. Em português claro: consolos em forma de santos.

consolos 

Satã, Buda e a descabaçante Virgem Maria. eCUmenismo             

Sua linha se estende em dez produtos. Tem a Virgem Maria, Moisés, Judas, a Morte, Buda e um nefasto Satanás. Todos esses de oito polegadas, coisa de 20 centímetros. Mas os destaques da coleção, os best sellers, são as representações de Cristo. Jackhammer Jesus, verdadeiro martírio, e Baby Jesus Butt Plug, uma cabecinha do menino Jesus, anatomicamente desenvolvida para se encaixar, e ficar, no reto do devoto. Todos são feitos em silicone e custam entre U$30 e U$60. E a reportagem de Fudeus traz uma entrevista exclusiva com o dono da empresa, Nigel Ramsbottom.

Fudeus : De onde veio sua idéia? 
Nigel: Um amigo ganhou um lanterna em forma de Jesus e eu pensei que era um consolo. Voilá! Uma idéia nasceu.

Quantos consolos você vende por mês?
Depende da época do ano. Perto do natal as vendas aumentam muito. Normalmente vendemos entre 10 e 30 consolos. Não é muito, mas faz o negócio andar. Os mais vendidos são o Jackhammer Jesus e o Baby Jesus Butt Plug na versão “brilha no escuro”.

Seus consolos são melhores do que os comuns?
Não necessariamente melhores, mas diferentes. Depende de qual é o seu fetiche. Nós fazemos cosolos bons, de qualidade e temos orgulho de usarmos o melhor material disponível: silicone com base de platina.

Você testa suas criações? Não pessoalmente, desculpe. Mas tenho um número grande de pessoas que testam e muitas implorando para testar meus produtos.

Algum cliente já reclamou?
Por estar insatisfeito? Nunca.

babyjesus 

Baby Jesus Butt Plug. Assim no fio-terra como no céu

Você acredita em Deus?
Eu fui criado na Igreja Anglicana, na Inglaterra. Mas eu sou agnóstico. Só quando estou no mar e uma onda gigante aparece que eu chamo por Deus.

Você não tem medo do inferno?
Não tenho medo, eu não acredito em inferno, qual o sentido? Se existe um Deus
ou Deusa, eu acho que deve ter muito senso de humor.

Suponha que você morreu e está na porta do inferno. O que você diria em sua defesa?
Que eu trouxe mais prazer do que o George W. Bush. Se bem que ele vai pro inferno mesmo… Eu diria também que eu fiz mais gente gritar o nome de Deus do que qualquer pastor.

Religiosos enchem o seu saco? Já foi processado?
Recebo dez e-mails de elogios para um de ódio. Já recebi algumas ameaças por telefone, mas nada muito sério. Já me ameaçaram de processo, mas não há base legal para isso. Será que eles acham que têm a patente de Deus?

Qual é o pior pecado na sua opinião?
Não sei se há um pior… Certamente bombardear e assassinar pessoas inocentes está perto da frente. E os desabrigados? Fome? Descaso com a saúde? Corporações pilhando o planeta? Esquadrões da morte? Fundamentalismos? Infelizmente tem muitos para escolher um.

É verdade, pode checar: www.divine-interventions.com

Que parada é essa?!

novembro 7, 2006

bebemorto

Acha a parada do orgulho GLBT uma pouca vergonha? Então pega essa: a primeira parada do orgulho PNZC.                    

 por BTN, de Hagaarstein, Holanda

Uma garotinha morta é carregada cuidadosamente no colo de um senhor grisalho. O pequeno cadáver está nu, empalhado e lambuzado de fezes frescas. Mas o odor não incomoda nenhumas das 400 almas que marcham com a dupla. Na verdade o cheiro de muitas fezes, humanas e animais, se combinam com gases de putrefação em um buquê de um estranho e podre refinamento pelas ruas floridas de Hagaarstein, Holanda. O homem velho acaricia os cachinhos dourados da menina fria. Ele sorri o tempo todo e brada em coro, vez ou outra, frases libertárias: “Podemos tudo com amor”, “Nós somos normais, preconceito nunca mais”. Ao seu lado caminha Jörgeen, rapaz magro de trinta anos incompletos, levando na coleira um bode. O animal, normalmente rústico e fedorento, estava cuidadosamente aparado, penteado, tinha os chifres polidos e de perto cheirava alfazema. “Chama-se Puppy. É meu marido”, Jörgeen explica o porquê do estranho asseio do caprino, “eu o amo, e sei que ele me ama, não é, Puppy?” – conclui antes de segurar o bicho pela barbinha tingida e caprichar um beijo de língua no focinho da criatura. Assustador? Diabólico? Extremo da depravação? Justamente o contrário disso é o que quer provar o organizador da primeira Parada Internacional do Orgulho Pedófilo, Necrófilo, Zoófilo e Coprófilo. “Queremos que o povo veja e sinta que não somos monstros. Que as crianças também gostam de carinhos especiais, que os animais preferem os humanos aos seus iguais, que cadáveres que amamos não devem ser dados aos vermes e que nossas fezes são tão encantadoras quanto um toque, um olhar tenro. Essa parada é sobre o amor” – explica o pacato alemão Günther Gaard, 38, idealizador do evento e, ele mesmo, adepto de todas as práticas exaltadas na passeata.

A iniciativa de juntar os apreciadores das consideradas mais abjetas perversões do mundo em um desfile público surgiu após Günther quase ser linchado na parada Gay de Berlin de 1999 quando, em cima de uma estátua de Otto Von Bismarck, começou a fazer sexo oral em um filhote de carneiro morto. “Foi então que eu percebi que os homens querem ser tolerados, mas não conseguem tolerar os outros. Apanhei muito, nem a polícia apartou. Só se afastaram quando eu comecei a espirrar meu sangue em todos, gritando que eu tinha AIDS. Me senti mal de mentir, mas era meu único recurso” – explica o soronegativo enquanto enche seus olhos de lágrimas. “É tão triste lembrar”. Nos quatro anos seguintes, Günter tratou de aglutinar o maior número de adoradores de fezes, animais, cadáveres e crianças que conseguiu. Não foi tarefa fácil. Quase 100% dessas pessoas se escondem por razões óbvias. Muitos têm uma família constituída e suas preferências sexuais quase sempre são satisfeitas em pequenos grupos extremamente fechados e sigilosos. Nem na Internet, paraíso das taras, ele teve sucesso. “Ninguém acreditava quando eu dizia que queria ir à rua afirmar minha forma de amar. Foi quando vi que eu precisava dar o primeiro passo”.

Em 2002 Günter imprimiu 10.000 cartazes com seu rosto, seu nome, seu telefone e a frase: “Eu gosto de fezes, crianças, animais e mortos. Eu não tenho vergonha. Alguém está comigo?” Colou o anúncio nas ruas de Berlim, Paris, Amsterdã, Budapeste e Praga. E apesar do escândalo, dos telefonemas revoltados, ameaças de morte e perseguições policiais, muita gente telefonou para dizer que sua coragem havia despertado o orgulho de ser como ele. Günter virou celebridade entre os milhares de depravados, ou melhor, “intolerados” – o termo politicamente correto que essa massa já não tão silenciosa prefere. E em dois anos tornou-se o homem mais confiável desse mundo de cheiro estranho. Tem um cadastro com nomes, endereços e taras de mais de 3.000 pessoas, 85% delas são homens com mais de 30 anos.

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O cartaz que provocou uma revolução

               Mas botar o bloco na rua seria bem mais complicado. Nem tanto pela zoofilia, menos ainda pela coprofilia. Mas sexo com cadáveres e crianças são considerados crimes inafiançáveis em todos os países do planeta. Os intolerados podiam questionar isso, mas uma parada seria uma confissão pública com conseqüências impensáveis. O projeto da passeata sonhada por Günter depois da surra em Berlim parecia impossível. Até que seu telefone tocou. Era Cees Horn, prefeito de Hagaarstein. Emocionado, disse que havia lido uma reportagem sobre Günter e de seu sonho de fazer a pesseata. Confessou ser ele mesmo um necrófilo incorrigível, que não aceita ser chamado de viúvo, mesmo 20 anos depois do falecimento sua esposa que ainda repousa (empalhada) no leito do casal. Cees ofereceu as ruas centrais da cidade que governa para a parada do orgulho PNZC. Jurou que a polícia apenas garantiria a segurança da marcha contra ataques reacionários. A cidade compraria qualquer briga legal com o governo federal amparada em um dos primeiros artigos da constituição holandesa que prevê a irrestrita liberdade sexual desde que haja consentimento entre as partes envolvidas. Mesmo entre os pedófilos da marcha de Günter, não parecia haver um molestador. Todas as crianças pareciam felizes, mesmo as em trajes decotados de couro justo. A questão das “duas partes” era ponto resolvido. Até porque cadáveres não discordam de muita coisa. Logo já havia uma data marcada para o desfile – 22 de agosto de 2004, um domingo.

              Günter tinha três meses para organizar tudo. Mandou e-mails, telefonou para quase toda sua lista de intolerados, fez cartazes para serem colados em clubes sexuais de todo Europa, montou um site (www.untolareted-pride.com, sempre alvo de hackers e sabotagens) e pediu que sua turma espalhasse a notícia pelo mundo. 400 pessoas, a maioria europeus, apareceram na data marcada. Traziam seus animais de muita estimação, seus amores mortos, crianças lascivas, bolsas de colostomia repletas e um sorriso luminoso de quem pode, enfim, mostrar ao mundo seu amor. “É o dia mais lindo da minha vida” – soluçava Ester Didot, 50, uma professora francesa com a face pincelada de fezes pastosas e um hálito de fossa sanitária. “Estou viva, enfim.”

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O pequeno Ian aprende cedo a degustar caca

Para a surpresa de muitos, o governo holandês e a União Européia não se manifestaram contra a parada do orgulho PNZC. Os maiores incidentes durante o desfile de 3 horas foram alguns ovos atirados por um grupo católico, que logo se dissipou quando foram atingidos por toletes fecais que os manifestantes retribuíram aos risos. “Foi um passo tão grande. Estou certo de que ano que vem será bem maior. E que outras acontecerão pelo mundo. E que logo seremos mais do que tolerados, seremos aceitos”, orgulha-se Günter que quer muito mais do que mais paradas PNZC. Ele quer transformar sua causa em um real movimento de aceitação dos intolerados. Quer levar para a ONU o debate sobre uma modernização das leis anti-pedofilia e de vilipêndio a cadáveres. Quer conseguir um sócio para lançar produtos especiais para seu “povo”, como camisinhas infantis, lubrificantes específicos para animais e alargadores de borracha para ânus dos mortos – “Você não sabe o que o rigor-mortis anal faz com um pênis.” – brinca. E nas semanas seguintes de sua primeira parada, recebeu muitas mesagens de apoio e de outros “pervertidos” que querem se juntar ao rol dos intolerados. “Sinto-me muito bem com isso, mas é preciso ficar alerta. Temo que em pouco tempo muita gente vai começar a comer cocô e felar crianças só pela moda, sem o menor critério. Isso pode ser prejudicial demais. Outro dia, por exemplo, me telefonou um sujeito que queria incluir os adeptos de incesto na próxima parada. Fiquei chocado. Isso é nojento demais” – conclui, dando a chance de que uma nova parada, mais “família”, tome as ruas de alguma cidade nos próximos anos.

* A repostagem de Fudeus viajou à Holanda a convite da Prefeitura de Hagaarstein