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Sonho lúcido

setembro 27, 2007

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Terence Mckeena, o cara aí em cima, morreu. Lamentável. Um câncer tomou seu cérebro, justamente o cérebro, que era o território desse explorador, verdadeiro Colombo da mente humana.
Estou acabando de ler seu livro “Food of the Gods”. Como disse meu chapa Arthur “Condorcito” Veríssimo, trata-se de uma bíblia da consciência. Sua visão sobre alucinógenos e evolução, sobre repressão e ignorância, sobre natureza e humanidade… uma tese praticamente incontestável de que o cérebro humano é rico demais para ser tratado de maneira sóbria e receosa. E que apenas a alteração de sinapses e mecanismos mentais pode calibrar nossos sentidos para entender ( e não delirar) que o mundo é bem mais vivo e profundo do que a vida que entendemos na TV.
Terence tomou de tudo. E basta lê-lo para ver que só lhe fez mais lúcido. Tem a ver com uma frase perfeita sua na entrevista a seguir: “Drogas não são confortáveis, e qualquer um que pense que elas são uma forma de conforto ou escapismo não deveria tomá-las até que tenham coragem de lidar com as coisas como elas realmente são.”

Não tive a chance de saber de Terence antes de sua morte. E atrás de mais palavras suas, me deparei com essa entrevista para o site Horizonte Vertical. Não achei o crédito do jornalista,  e peço desculpas por republicar aqui. Mas o autor vai entender. Lições como as de mr. McKenna não podem ficam nas sombras enquanto o coro dos manés vocifera contra a MALDIÇÂO DAS DROGAS.

Fudeus tem o orgulho de dar a palavra a Terence McKeena. Boa viagem.

Para que servem suas pesquisas com substâncias psicodélicas?
MCKENNA: É uma tragédia pensar que alguém pode ir para o caixão ignorante das possibilidades da vida. E faço analogia com o sexo. Poucas pessoas podem evitar, em suas vidas, uma experiência de natureza sexual, já que sexo é uma das informações de que a condição humana dispõe. Sexo é um grande prazer, sexo liberta. Detesto pensar que alguém pode morrer sem experimentar sexo! O mesmo acontece com a experiência psicodélica. Ela é parte legítima da condição humana. Ela disponibiliza uma infinidade de informações fundamentais que perdemos quando o homem passou a se distanciar da natureza.

“Food of the Gods” liga DMT à psilocibina. Qual a relação?
MCKENNA: A psilocibina (presente em alguns cogumelos e no LSD) e o DMT são quimicamente da mesma família. Meu livro é sobre a história das drogas; mostra o impacto cultural e o poder de desenhar a personalidade que elas possuem. As pessoas têm tentado, sem sucesso, responder como nossas mentes e consciências podem derivar do macaco. Já formularam todo o tipo de teoria sobre isso, mas para mim a chave que destranca este grande mistério é a presença de plantas psicoativas na dieta do homem primitivo.

PS: A um tempo atrás eu perguntei se o LSD tinha algo haver com os cogumelos e me disseram que não tinha nada a ver… então, oq me dizem? 

O que o levou a concluir isto?
MCKENNA: A teoria ortodoxa da evolução nos diz que pequenas mudanças adaptativas de uma espécie acabam sendo geneticamente impressas em seu DNA. Os descendentes da espécie vão acumulando novas mudanças adaptativas, até que o conjunto de mudanças gere outra espécie. Pesquisas de laboratório mostram que a psilocibina, mesmo ingerida em quantidades muito pequenas, é capaz de imprimir mudanças em nós. Nos anos 60 Roland Fisher, do National Institute of Mental Health, deu psilocibina a voluntários, e então realizou testes oftalmológicos. Os resultados indicaram que a visão periférica aumenta quando havia psilocibina no organismo do voluntário.
Bem, o aumento da visão periférica seria de grande ajuda adaptativa para o hominídeo, pois caçavam com mais sucesso e se defendiam melhor, também!

Então aqui temos o fator químico: quando adicionado à dieta, psilocibina resultou num excelente “artefato” de sobrevivência.Quando os macacos desceram das árvores encontraram cogumelos no solo. Em pequenas quantidades aumentou sua capacidade visual periférica; em maiores quantidades, aumentou as atividades de seus sistemas nervosos centrais, que resulta em maior atividade sexual e, conseqüentemente, descendentes que carregam genes modificados pela psilocibina.

Como as informações disponíveis sobre a psilocibina sustentam sua teoria?
MCKENNA: Bem, este é o problema: a psilocibina foi descoberta em 1953, e não foi totalmente caracterizada até ser proibida, em 66. A janela de oportunidade que se abriu para estudá-la foi de apenas nove anos. Quem pesquisava a psilocibina nem sonhava que os estudos seriam proibidos pelo governo americano! Quando o LSD foi apresentado à comunidade psicoterapêutica, e uma grande esperança de estudos dos processos mentais e psicológicos se abriu, o governo suprimiu as pesquisas com drogas psicodélicas. A conseqüência disto é que a comunidade científica está capenga, pois não pôde cumprir sua missão de conhecer profundamente os mistérios da mente humana. A ignorância e o medo do governo atrapalharam o trabalho dos cientistas.

Você está dando uma enorme quantidade de poder a uma droga. O que você pode dizer sobre a psilocibina?

MCKENNA: Ainda não sabemos tudo o que a psilocibina e o DMT podem oferecer. É como quando Colombo avistou terra, e alguém disse, “Então você viu terra. Isso é importante?”, e Colombo disse, “Você não entende: este é o Novo Continente”. Então uns marinheiros, como eu, retornaram da viagem dizendo, “Não há bordas no planeta, ele é redondo. E mais: não há monstros marinhos, e sim vales, rios, cidades de ouro”. É duro de engolir, mas caso possam voltar a estudar a psilocibina, os cientistas poderão revolucionar a forma com que lidamos com o ser humano e com o universo. Nos últimos 500 anos a cultura ocidental suprimiu a idéia de inteligências desencarnadas, da presença real de espíritos. Mas trinta segundos de viagem com DMT acabam com a dúvida. Esta droga nos mostra que a cultura é um artefato, que você pode ser um psiquiatra em Nova York ou um xamã em Ioruba, mas que essas realidades são apenas convenções locais que organizam as pessoas em sociedade. A experiência com DMT é universal, pois mostra do mesmo modo, para qualquer pessoa de qualquer cultura, a legitimidade do universo espiritual.

Bem, mas a cultura nos dá alguma coisa para fazer, Terence.
MCKENNA: Sim, mas a maior parte das pessoas acha que cultura é o que é real. A psilocibina mostra que tudo o que você sabe está errado. O mundo não está sozinho, não é tridimensional, o tempo não é linear, não existem coincidências. Existe, sim, um nexo interdimensional.

Se tudo o que sei está errado, então o que está certo?
MCKENNA: Você precisa reconstruir. É, no mínimo, uma tremenda permissão para sua imaginação. Você não tem que seguir Sartre, Jesus, ninguém. Tudo se esvai, e só o que você pensa é, “Sou apenas eu, minha mente e a Mãe Natureza”. Esta droga mostra que o que existe do outro lado é uma impressionantemente real forma de vida auto-consistente, um mundo que permanece o mesmo toda vez que você o visita.

E o que está lá nos esperando? Quem?
MCKENNA: Você cai num espaço. De alguma forma, você pode dizer que é subterrâneo. Existe uma sensação de enclausuramento, mas ao mesmo tempo o espaço é amplo, aberto, caloroso, confortável de uma forma muito sensual, material. Há entidades totalmente formadas, não há dúvidas de que essas entidades estão lá. Enquanto isso você diz, “Batimentos cardíacos? Normais. Pulso? Normal.” Mas sua mente está dizendo, “Não, eu devo ter morrido, é muito radical, muito, muito radical. Não é a droga, drogas não fazem coisas assim”, e você continua vendo o que está vendo. A droga nos tenta revelar qual a verdadeira natureza do jogo. Que a dita realidade é uma ilusão teatral. Então você quer encontrar seu caminho até o diretor que produz a realidade, e discutir com ele o que acontecerá na próxima cena.

Você dedicou boa parte de sua vida no mapeamento do DMT e da psilocibina. Como você os interpretaria?
MCKENNA: Estas substâncias podem dissolver numa única viagem toda a sua programação mental até então. Elas te levam de volta à verdade do organismo – a que diz que idioma, condicionamento e comportamento são totalmente desenhados para mascarar. Uma vez dopado, você renasce para fora do envelope da cultura. Você chega literalmente nu neste novo lugar.

 Você acha que realmente existe algo como uma “bad trip”?
MCKENNA: Uma viagem que acaba te fazendo aprender mais rápido do que você quer é o que as pessoas chamam de bad trip. A maior parte das pessoas tenta dosar o aprendizado inerente às drogas, mas às vezes a droga libera mais informação do que você é capaz de aprender. Para piorar, a mensagem pode ser, “Você trata mal as pessoas!”, e ninguém quer escutar isso.

Como você pode defender as drogas com tanto entusiasmo quando elas estão associadas a tanto sofrimento e caos?
MCKENNA: Nós deveríamos falar da palavra êxtase. Em nosso mundo, comandado pela Madison Avenue, êxtase é aquilo que você sente quando compra uma Mercedes e pode bancá-la. Mas este não é o significado certo. Êxtase é uma emoção complexa que contém elementos de medo, triunfo, empatia e pavor. O que substituiu nosso pré-histórico conceito do êxtase é a palavra “conforto”, uma idéia tremendamente asséptica, letárgica. Drogas não são confortáveis, e qualquer um que pense que elas são uma forma de conforto ou escapismo não deveria tomá-las até que tenham coragem de lidar com as coisas como elas realmente são.

Que tipo de pessoas não deveria tomar drogas?
MCKENNA: Pessoas mentalmente instáveis, sob enorme pressão, ou operando equipamentos dos quais dependem as vidas de outros seres humanos. Ou pessoas frágeis, ingênuas, superprotegidas. Algumas pessoas foram tão estragadas pela vida que a dissolução de amarras não é boa para elas. Essas pessoas deveriam ser cuidadas com carinho, e não encorajadas a arrebatar limites. Se por fatores genéticos, culturais ou psicológicos as drogas não são para você, então não são para você. Não estou pedindo para que todas as pessoas tomem drogas, mas acredito que assim como uma mulher deve estar livre para controlar sua fertilidade, uma pessoa deveria estar livre para controlar sua própria mente.

Todos deveriam ser livres para tomar o que quisessem, e estar bem informados sobre o que cada opção envolve. Exatamente como acontece com educação sexual. Hoje a forma com que lidamos com informações sobre drogas é a mesma como fazíamos nos anos trinta com sexo. Você aprendia através de rumores! Então as pessoas acabam tendo idéias absurdas sobre as coisas.

Onde está sua esperança?
MCKENNA: Está na psicologia e nos jovens. Eles têm o que nunca tivemos: pessoas mais velhas que já tiveram experiências psicodélicas. O LSD tomou, e ainda toma, de assalto nossa sociedade. Dois estudantes de bioquímica podem fazer um pequeno laboratório móvel e produzir, num final de semana, de 5 a 10 milhões de doses de ácido para distribuir em papel pelo mundo. Esta facilidade e discrição criou uma pirâmide de atividade criminal de tanta potência que o governo reage como se um revólver estivesse apontado para sua cabeça. O que, no fundo, é verdade! A estratégia certa é subversão, atenção e discreto não-conformismo contra o tédio e a opressão do mundo.

Terence, meu amigo, existe alguma coisa que o deixa com medo?
MCKENNA: Loucura. As pessoas me perguntam, “Posso morrer tomando esta ou aquela droga?”. É a pergunta errada. Claro que sempre existe algum risco em qualquer coisa, mas o que é realmente perigoso é a sua sanidade, porque como a desconstrução da realidade é infinita, você pode se mudar para algum outro lugar. Tenho medo de não ser capaz de contextualizar essa desconstrução, me perder e não retornar à comunidade humana. Estamos tentando construir pontes, não navegar infinitamente.

Como você vê o futuro?
MCKENNA: Se a história seguir futuro adentro, será um futuro de escassez, preservação do privilégio, controle da população através do uso cada vez mais sofisticado de ideologia para acorrentar e iludir as pessoas. Estamos no limite exato. O que também potencialmente nos aguarda é uma dimensão de tanta liberdade e transcendência que, uma vez lá, viveremos de imaginação. Seremos rapidamente irreconhecíveis se comparados ao que somos hoje porque hoje somos definidos por nossas limitações: a lei da gravidade, a necessidade de comer, de ficarmos ricos. Temos o poder de nos expandir indefinidamente para o prazer, atenção, carinho e conexão. Só precisamos nos libertar e nos permitir.

Pé de Guerra

setembro 26, 2007

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A entrevista que republico aqui é do começo de 2005. Importante manter isso em mente para quem tiver fôlego. De lá pra cá muito sangue passou debaixo da ponte. Mas as recentes crises no Iraque envolvendo as empresas de segurança terceirizadas (eufemismo para mercenários) me fizeram lembrar da conversa que tive com o gentil Luiz Augusto Branco.
Naquele ano eu estava especialmente perturbado com a invasão ao Iraque. Fora as mentiras e a atrocidade toda, para mim estava claro que um novo mundo se desenharia a partir de Bagdá. A Veja bradava que “não era nenhum vietnã”. Para mim era pior. O terrorismo islâmico e o terrorismo de Estado ganhariam força, a democracia virou a bandeira do facismo. Era 2005, mas parecia 1984.
Eu estava atrás justamente de brasileiros que ganhavam dinheiro dando tiros para americanos. Eu estava pronto para denunciar, apontá-los como gente sem coração. Quando notas isoladas em jornais sobre Luiz, um “mercenário” que sofreu um ataque de um carro bomba. Deu trabalho achar o cara. Falei com sua mãe, mandei carta, consegui o telefone e o ok para uma conversa sem compromisso. Quando me passou o endereço… estava a três quarteirões da minha mesa. O encontrei de cama na sala de casa, ainda incapaz de caminhar, cheio de cicatrizes de estilhaços no rosto. E um olhar tranquilo.
Eu deitei minhas armas. Luiz é um homem de paz autêntico, com um currículo aparentemente violento. Uma mente culta e inteligente, piedosa e espiritual, ciente das mentiras em que se envolveu e de seu papel de protetor.
Prefiro não continuar a descrevê-lo,  já que a entrevista que fiz para a Trip vão cuidar de desenhar melhor o sujeito. O texto de abertura não me orgulha especialmente. Faria outro hoje, certamente. Ainda assim é honesto com a época em que foi escrito.

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Luiz Augusto Branco estava no banco de trás de um carro blindado, voltando do aeroporto de Bagdá, olhando um automóvel que passava ao lado, quando um clarão pardo tomou toda a sua vista. Um estrondo tão violento que nem barulho fez. O próprio som sumiu. A próxima coisa que sentiu foi a água e a lama de uma poça. Se deu conta de que o veículo que trafegava lentamente a seu lado na pista da direita era um carro bomba.

Suas pernas estavam moídas, imersas na lama, o fêmur exposto. Mas nos 20 minutos seguintes, antes do socorro do exército americano chegar, ele não pensava em seus pais em São José do Rio Preto [SP], nem nos amigos que fez quando trabalhava na Rota ou na missão de paz que integrou no Timor Leste. Não pensava em sua noiva australiana, em Deus nem na dor dos músculos rompidos e dos ossos quebrados das pernas e mãos. Luiz Augusto Branco só queria saber onde diabos estava sua pistola. Tinha que se preparar para um previsível ataque secundário dos insurgentes iraquianos que, sem dúvida, viam em homens como ele inimigos.

 

Desde que o primeiro míssil Tomahawk atingiu Bagdá em 20 de março de 2003, matando Ahmad Al-Bath, um taxista jordaniano, a Guerra do Iraque já custou a vida de mais de 100 mil pessoas. A maioria esmagadora são civis iraquianos. E a cifra ainda vai longe. Em recentes declarações, até a Casa Branca admite que a violência no Iraque não tem data para estancar. E não apenas lá. Dos quatro maiores parceiros dos EUA na coalizão para ocupar o país [Inglaterra, Espanha, Austrália e Itália], apenas o último não foi vítima de atentado, mas está sob ameaça.

 

Se a primeira invasão militar ocidental foi devastadora e fulminante, a segunda é bem mais longa e silenciosa: a invasão corporativa. Fora as empresas babando por contratos cheios de zeros em Bagdá, 48 ONGs trabalham por lá financiadas em sua maioria pelos EUA. E estrangeiros em terras iraquianas precisam de proteção. E era aí que entrava Luiz Augusto Branco.

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O soldado Branco em Bagdá

Meu entrevistado passou um ano e meio em Bagdá, planejando e atuando na segurança de estruturas e pessoas ligadas a ONGs. Foi contratado pela Unity Resource Group, uma empresa de segurança australiana. Seu currículo ajudava. Filho de professores, o garoto pacato e bom aluno cruzou dois dos portões mais difícies do sistema educacional brasileiro – engenharia na Poli e direito no Largo do São Francisco, ambas da USP. Mas trocou o Olimpo acadêmico por outra academia menos badalada, a da Polícia Militar. E logo estava atuando na Rota, uma das mais temidas divisões da PM, patrulhando áreas violentas. Com uma carreira exemplar, se tornou policial da ONU por um ano, no período crítico da transição de poder no Timor Leste. De volta à Rota, insatisfeito com o trabalho na polícia, não pensou duas vezes quando soube de uma vaga para segurança em Bagdá. Em toda sua carreira, Branco diz que nunca disparou um tiro na rua. Ele jura que é avesso ao risco. Gosta da profissão pois está certo de que tem a vocação de “estar perto das pessoas quando elas mais precisam”.

 

Luiz viu de perto a Bagdá invadida, e está certo de que o Ocidente não entende o que acontece por lá. Apesar de ser parte assumida da tal “segunda invasão”, ele não reconhece nenhuma legitimidade na política americana e sentiu na epiderme como o terrorismo está mais forte do que nunca. Dia 16 de abril passado ele foi vítima de um carro-bomba. Sofreu graves queimaduras e sérias fraturas nas pernas e hoje passa o dia fazendo fisioterapia para tentar voltar a andar.

Branco não trouxe só dores e desgraçadas do Iraque. Foi lá que conheceu sua noiva, uma australiana que também trabalhava como segurança e que veio com ele para São Paulo. No bairro de Pinheiros, na sala de seu apartamento, cheia de livros de história e dicionários, deitado em uma cama hospitalar, abaixo de um pôster da declaração da Independência Americana que comprou na Disneyworld, Luiz Augusto Branco, 37, concedeu à Trip a seguinte entrevista, a primeira e única entrevista que deu até aqui.

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Como foi o dia em que você sofreu o atentado?
Foi em 16 de abril deste ano. A minha equipe tinha a missão de buscar passageiros que estavam chegando ao aeroporto de Bagdá. Saímos de manhã, aguardamos todos chegarem e, no intervalo entre duas e três horas da tarde, saímos do aeroporto. Eram três carros. Não tenho como me lembrar da formação deles e do tipo de carro, mas eu estava no banco de trás do segundo deles, no que foi alvo do carro bomba.O carro bomba trafegava do seu lado?
É. Não havia outros carros próximos. A gente estava passando por ele e notei que o carro se locomovia lentamente na pista da direita.

Você estava olhando pro motorista? Viu ele detonar a bomba?
Acredito que tenha sido um segundo observador, talvez alguém em um outro carro, que detonou. Porque o motorista não teve nenhuma reação, não fez nada suspeito. Quando chegamos a uns 10 metros tudo explodiu.

E como foi o instante? O que você sentiu?
Eu não ouvi a explosão. O estrondo é tão grande que houve um bloqueio do som. Simplesmente ausência total de barulho. Eu estava de óculos escuros e vi um clarão pardo, meio bege escuro. Essa cor ficou gravada na minha cabeça. Eu estava olhando para o carro e de repente me senti dentro da água. Minhas mãos estavam na lama. Levantei a cabeça e percebi que estava numa poça no meio do canteiro entre as duas pistas. Quando eu me virei para sentar percebi que as minhas pernas estavam todas bastante fraturadas. Senti a perna fora da posição, o meu fêmur tinha fratura exposta, o osso saía pra fora da calça.

Você se lembra do momento em que foi jogado para fora do carro?
O carro era blindado e ficou bastante danificado. Foi atirado uns 20 metros adiante na pista. Mas não sei de que forma eu fui jogado do carro. Não tenho idéia se ele rodou, se capotou ou o quê.

E o que você fez na hora em que se deu conta?
A primeira coisa que pensei foi que estava consciente e respirava bem. A poça era meio curta e vi minha perna saindo do outro lado. Os pés meio boiando, a perna meio solta. Aí vi que ainda conseguia mexer os pés. Percebi que as pernas estavam totalmente desalinhadas, mas ainda ligadas. Minha mão esquerda não estava respondendo muito bem. A força da explosão provocou as fraturas e também a onda de calor que me fez queimaduras no rosto e nos braços. Lembro ter ficado preocupado com a perda de sangue e com medo de perder a consciência dentro da água. Então procurei me arrastar com o cotovelo pra fora da poça. E me recostei.

E o que fez depois?
Olhei em volta e procurei minha arma. Nessas horas há o risco de ataques secundários dos insurgentes. Não achei meu fuzil, só a pistola. Então percebi que o meu pessoal, dos outros carros não atingidos, já tinha estabelecido um perímetro de segurança. Só relaxei mesmo quando chegou o exercito americano uns 20 minutos depois.

O que você pensava nesse tempo?
Eu só pensava no que estava acontecendo lá. Nesta hora a gente acaba fazendo o que estamos treinados, o “ABC”. Isto primeiro, isto depois, qual o próximo passo.

Não pensava que poderia morrer ou ficar paralítico?
É como um assalto. Tem gente que fica fria, se controla, faz pergunta para o assaltante. Tem outros que entram em pânico e tentam lutar. Na nossa atividade temos muito preparo mental, estudamos e treinamos procedimentos justamente para tirar o lado emocional na hora que acontece um acidente. São coisas que estão no subconsciente e o medo acaba ficando em segundo plano.

Como foi seu tratamento?
Passei alguns dias em Bagdá, fazendo os primeiros atendimentos no hospital militar. Fizeram um trabalho excelente. Eu estava com medo de perder as pernas, porque os cortes estavam muito profundos. Depois eu fui mandado para o Kuwait. Não senti confiança para ficar naquele hospital e logo voltei para fazer o tratamento no Brasil.

E seus pais, como ficaram sabendo?
Foi um pânico, não tem um jeito bom de dar uma noticia dessa. Minha noiva me acompanhou o tempo todo lá, ligou para meu irmão e ele disse a meus pais. Na hora eles viajaram para o Kuwait. Não consegui evitar.

Falando nos seus pais, você deu trabalho quando criança?
Não. Nunca arranjei briga. Sempre fui bom aluno… pelo menos até entrar na faculdade. Eu terminei o colegial em Rio Preto e vim pra São Paulo fazer um ano de cursinho. Quando entrei na Faculdade de Engenharia [Poli-USP] deixei de ser bom aluno e fiquei dando cabeçada. Realmente não me encontrei no que fazia.

Você estava em crise?
É, não estava contente. Até o colegial tudo foi muito tranqüilo. E de repente eu não estava feliz. E quando eu comecei a estudar essa possibilidade da polícia eu senti um entusiasmo que eu já tinha perdido na Poli. Então eu acabei me direcionando pra isso e posso falar que deu certo, porque apesar de nunca ter sido uma carreira gostosa é uma coisa que eu faço com satisfação.

Você fez quantos anos de Poli?
Eu fiquei uns quatro anos até que saí pra entrar em Direito no Largo de São Francisco [USP]. No mesmo ano, prestei Academia do Barro Branco, para virar policial, mas só entrei no ano seguinte. Foi quando larguei a São Francisco também. Eu queria ser PM mesmo, trabalhar na rua.

Por que acha que teve essa vontade?
Eu sentia vontade de estar mais próximo das pessoas quando elas precisam, aquele momento mais extremo. Eu queria poder atender a suas emergências. O risco da profissão nunca me atraiu.

Você não tinha preconceito da polícia?
Não, apesar de ter sido criado numa família em que varias pessoas fizeram USP e eram mais voltados pra esquerda. É a velha história, você ouve muito sobre um lado só que acaba tentado a descobrir o que tem do outro, né?

Por que você optou pela Rota? Tem certeza de que o risco não te atrai mesmo?[risos] Eu acho que é um pouco da mística, de uma unidade que tinha uma moral elevadíssima. Era o policiamento que eu gostaria de fazer e era uma unidade com mais tempo para treinar e fazer uma coisa mais especializada.

E a fama de truculenta da Rota?
A gente trabalhava sempre em áreas de maior índice de criminalidade e a abordagem da Rota é um pouco mais rígida. A chegada mais agressiva acaba colaborando para a segurança porque evita qualquer tipo de reação. Eu sei que abusos acontecem, mas eu nunca vi. Agíamos dentro da lei. Porque se você dá um passo para fora da tua moldura legal, não importa o que o criminoso tenha feito, a gente acaba perdendo a razão. Tem que deixar a Justiça, por mais falha que a gente possa pensar que seja, resolver.

Você confia mais na polícia ou na Justiça?
Eu acho que há falhas no nosso sistema todo, desde como é feito o policiamento até o sistema carcerário.

Qual o maior problema da polícia brasileira?
Existir a Polícia Militar e a Civil como dois entes separados. Acaba existindo duplicidade em tudo. A gente fazia o inquérito pela PM. O delegado da Civil instala outro inquérito, faz um monte de investigações. Os dois processos vão para o Ministério Público. Então é um trabalho duplo, triplo e consome tempo e recursos. Isso é muito frustrante. Parece que a máquina não anda.

Mas você acredita na polícia? É uma instituição com credibilidade baixa.
Já ouvi muito isso dentro da polícia. É um trabalho difícil reverter essa imagem. Havia muitos comandantes dentro da polícia tentando, mas é como qualquer coisa: construir pode levar séculos; pra destruir basta uma cena gravada na TV de um policial espancando alguém num beco.

Você prendeu muita gente?
É, bastante.

O que você sentia quando prendia alguém?
Esse acabou sendo um dos fatores que me frustraram um pouco. Eu sentia muita pena de certas pessoas que eu prendia. E, no fundo, a gente não consegue evitar nem um por cento do que está acontecendo. O meu consolo é que quando a gente trabalha bem como polícia ostensiva a gente acaba evitando muito crime.

Falta polícia em São Paulo?
Não sei. Porque não é só a prevenção. É também fundamental o delinqüente saber que se ele praticar o crime a investigação vai funcionar, ele vai ser preso, o sistema carcerário vai segurá-lo e ele vai ter a justa pena para o crime que cometeu. Acho que é todo o sistema, junto com a falta de educação, oportunidade de emprego… Na polícia a gente combate muito o efeito sem combater a causa. Pode até ser o impulso de alguns policiais tentar fazer o ciclo completo de prender, julgar e punir. Isso não funciona na sociedade. Só vai criar mais uma engrenagem torta dentro da máquina.

E como que você deixou a Rota para ingressar na ONU?
Em 2000 chegou um comunicado no batalhão oferecendo vagas para policiamento da ONU na Guatemala e no Timor Leste. Era um período em que eu já estava um pouco desmotivado, começando a perder aquele gás que eu tinha antigamente, cansado de passar às vezes 18 horas na delegacia pra fazer uma apreensão de 20 gramas de maconha.

Como foi o processo de seleção?
Durante muitos meses não aconteceu nada e eu só ouvia falar: “Ah, nem pensa nisso porque já é tudo carta marcada”. Mas no começo de 2001 o negócio começou a andar. No final quatro de nós fomos selecionados.

Você chegaram lá quanto tempo antes da independência?
Mais ou menos uns dez meses antes. Era a parte mais legal da missão de paz. A época da eleição pra Assembléia Constituinte, depois a eleição pra presidente, a passagem de poder e a cerimônia de independência.

Como era sua rotina lá?
O Timor não tinha nenhuma estrutura de Estado. Todas as instituições tiveram que ser preenchidas por pessoal da ONU, depois foram sendo treinados timorenses para assumir. No começo era como o policiamento de área aqui, atendíamos qualquer tipo de ocorrência. A gente trabalhava em times de mais ou menos 15 policiais. Havia 42 países envolvidos na missão. Por causa do meu background e da minha atuação, depois de um mês e pouco fui convidado pra um grupo tático que trabalhava como a Rota.

Era arriscado?
Não, não. Sempre tem um ou outro que vai gritar que a ONU não é bem vinda, que primeiro foram invadidos por Portugal, depois pela Indonésia, agora pela ONU. Então muita gente não gostava da gente, mas não era uma coisa arriscada, comparando com o que eu estava acostumado aqui em São Paulo. Era como atuar em uma favela enorme. Brigas de grupos enormes, e eles usavam machete, lanças, quase sempre armas brancas.

Você trabalhou com o Sérgio Vieira de Mello [diplomata brasileiro morto em um atentado no Iraque em agosto de 2003] no Timor?
O tempo todo que eu trabalhei no Timor ele estava lá como enviado do escritório geral, era como um governador provisório do Timor. Mas dentro da cadeia hierárquica da missão ele estava distante de mim, os contatos que a gente teve foram breves.

Qual a função da ONU para você?
A ONU acaba atuando mais ou menos como a polícia, combatendo os efeitos. Se na África tem miséria e pobreza, a ONU vai lá para levar comida. Mas não quer dizer que você resolveu o problema da fome. Hoje a ONU está especialmente enfraquecida…Há pouco tempo ela estava aquecida moralmente. Estava no Iraque por uma década, procurando armas, fiscalizando. E, de repente, o Conselho de Segurança não autoriza uma guerra que aconteceu de qualquer forma e não há nada que se possa fazer a respeito. É claro que vai ficar essa mancha. Existe uma hegemonia tão grande dos EUA mundialmente que ninguém tem cacife pra impedir.

Você acha que alguma coisa poderia ter impedido a guerra no Iraque?
Acho que só a população americana mesmo, se eles não tivessem sido manipulados tão habilmente depois do 11 de Setembro. Era um governo que estava sendo totalmente impopular, que estava falhando de todos os lados.

Voltando… como foi seu retorno do Timor Leste e sua ida para o Iraque?
A missão na ONU como policial durou um ano. Quando venceu o prazo eu já tinha a idéia de dar baixa definitiva na PM e tentar um emprego definitivo com a ONU. Aos poucos fui me desligando da polícia. Mas eu tinha descoberto que gostava era de trabalhar como policial no exterior. Foi nesse período que um amigo meu da missão no Timor Leste mandou um e-mail avisando que estava indo para o Iraque trabalhar em uma empresa de segurança. Perguntei se tinha algum trabalho para mim por lá, mandei meu currículo e depois de duas semanas estava embarcando.

E te avisaram dos riscos?
Ah, eu sabia. Estava acompanhando as notícias, mas quando comecei a atuar a situação era bem diferente. Eram os meses depois do término das principais hostilidades da guerra, um período de calmaria. Aí começaram a surgir alguns atentados, mas ainda bem espaçados.

Como era seu cotidiano no Iraque?
Trabalhei como profissional de segurança e dava assessoria de segurança para ONGs. Nosso dia a dia era dar essa assessoria, fazer resumos para os clientes a respeito da situação de segurança e dar apoio para algumas operações.

Você trabalhava mais do que no Timor?
Ah, sim. No operacional, atuava digamos umas seis a oito horas por dia, mas você acaba o dia todo pronto para responder em caso de um ataque ao complexo onde você está morando. Então é um trabalho de 24 horas por dia e sete dias por semana.

Você se sentia estressado?
Não. Você se adapta ao nível de tensão. E com a experiência você acaba aprendendo a responder a determinados estímulos. Um tiro em Bagdá, por exemplo, é algo corriqueiro. Pessoas passando de carro e dando rajadas de fuzil não é nada especial. Às vezes são pessoas comemorando alguma coisa. Casamentos em Bagdá rendiam muito tiro. Lá todo mundo tem uma AK-47.

Dizem que o Saddam, quando viu que Bagdá seria mesmo invadida, abriu os paióis para a população se servir de armas…
Pelas informações de pessoas ligadas aos militares iraquianos não só eles abriram antes da invasão como eles tiraram simplesmente armas de bases militares e puseram em paióis subterrâneos, esparramaram munições e materiais explosivos pra serem usados posteriormente pela resistência.

Te incomoda ver que um atentado no Ocidente é uma grande notícia e atentados em Bagdá, às vezes muito mais trágicos, não são?
É que acaba caindo na normalidade. Todo dia explode um carro bomba, acaba diminuindo o interesse da imprensa. E de uns tempos pra cá, com a deterioração da segurança, muitos jornalistas simplesmente saíram de lá. A própria CNN deixou alguns representantes e eles ficavam dentro do hotel. Afetou bastante a quantidade de informação que é gerada pra imprensa mundial.

Recentemente um relatório independente divulgou que, apenas no pós-guerra, os Estados Unidos mataram dez vezes mais civis iraquianos do que nos atentados terroristas. Você acha que os EUA também são terroristas?
Na verdade são, mas depende da classificação que você vai dar pro terrorismo. Não sei se dá para chamar de Estado terrorista, mas com certeza a política externa deles acaba encorajando reações terroristas. A atuação dos EUA no Iraque com certeza causou um aumento de violência naquela região e eu não acho que eles podem acreditar que tenha diminuído a ação terrorista ao redor do mundo. Os próprios terroristas estão tentando provar isso pelo menos anualmente; um atentado em Madri, um atentado em Londres.

Os insurgentes têm bom know-how para atentados?
Ah sim, Bagdá virou hoje um centro de estudos para terroristas. É difícil que forças de segurança, sejam as forças privadas ou os exércitos dos países, detectem e combatam tudo. Os ataques são baseados em técnicas de guerrilha e de terrorismo. O pessoal ataca e some. É uma guerra muito difícil de ser ganha. Eu acho que não tem como vencer isso. O que você pode tentar é sobreviver.

Você acha que esse é o único tipo de guerra possível contra uma hegemonia tão grande?
O único jeito de você combater uma força muito desigual, e isso já foi demonstrado ao longo da história, é você não mostrar resistência frontal. Eu não digo terrorismo em si, mas a guerrilha, esse tipo de ataque de surpresa, talvez seja a única forma para combater uma situação desproporcional como essa. Mas o terrorismo em si já é uma coisa diferente, que não ataca os alvos legítimos.

Como assim?
O terrorista não ataca linhas de transmissão ou alvos estratégicos. Ele ataca todo mundo, qualquer estrago que você fizer é vantagem porque está querendo implantar a desordem e o medo. Fica fora da guerra convencional, não sei nem se dá para chamar de guerra. Mas é claro que isso fará com que toda a estrutura de combate, de informação, toda a estratégia de guerra tenha de ser repensada. Porque o inimigo não existe. É como combater o tráfico, onde não há um chefão como um poder central.

Você vê justificativa pro terrorismo?
Eu acho que eles tentam se motivar em justificativas religiosas, políticas, mas eu não posso ver como legítimo moralmente atuar contra alvos civis. Por mais que a gente não concorde com a invasão americana ao Iraque, ou com a invasão dos territórios Palestinos por Israel acho que o terrorismo não se justifica.

O terror também serve aos EUA?
Exatamente. Ele mantém o medo que conferiu toda essa popularidade pro governo Bush. Enquanto o povo americano tiver medo os EUA continuam apoiando uma ação forte.

Há quem diga que um dos grandes motivos dessa guerra era justamente jogar bombas para depois reconstruir. Uma espécie de segunda invasão. Você não fez parte desse jogo?
Com certeza a estrutura na qual atuei no Iraque fazia parte. As ONGs que eu protegia não têm fins lucrativos, mas elas consomem dinheiro dos EUA e, no final, empregam companhias que têm fins lucrativos, como as próprias companhias de segurança, comunicação e construção. No final, querendo ou não, todo mundo atua no Iraque agora e boa parte da população iraquiana está trabalhando para a estrutura dos EUA.

E você não se sente mal com isso, sendo tão contra essa política americana?
Nunca me senti mal. A ONU poderia ter dito “Bom, vocês fizeram a guerra, nós falamos pra vocês não fazerem, então o problema é de vocês”. Mas houve a guerra e aí a população precisaria de ajuda. E vieram as ONGs, e as pessoas que trabalham para as organizações de ajuda humanitária que precisam de segurança. Assim, atuei financiado pelos EUA, mas sem endossar a política externa deles. Acho que estou fazendo o serviço da mesma forma que eu fiz na ONU, no esforço pela reconstrução.

As pessoas te tratavam melhor por você ser brasileiro?
Para o insurgente, estrangeiro é estrangeiro. Não existe cristão, muçulmano ou qualquer coisa. Mas o iraquiano gosta muito de brasileiro. Aquela coisa de falar de música brasileira, de pedir discos de pagode e de samba.

Para você, que foi da Rota o que é mais perigoso: Bagdá ou Capão Redondo?
É difícil responder. Atuando no policiamento você também está em evidência, da mesma forma que um estrangeiro dentro de Bagdá. Você é um alvo em uma viatura num local que não conhece e com um inimigo que não usa uniforme. Pode sair um tiro de um beco qualquer. Eu perdi um policial no meu pelotão dessa forma. Mas atuei todos esses anos em São Paulo e não aconteceu nada grave comigo e acabei atingido em Bagdá. Apesar disso, acho que não me sentia mais inseguro lá do que eu me sentia aqui.

E você ainda me diz que você não gosta de risco?
[risos] Ainda posso dizer que não é uma sensação gostosa, a recompensa não está na adrenalina.

Onde está?
Em vencer as barreiras e evoluir profissionalmente, em concluir um trabalho, em fazer policiamento preventivo bem sucedido.

Você ganhava bem em Bagdá?
Sim. Mas não posso revelar valores por obrigações contratuais. Não é aquele valor mítico que se propaga, que eu vi na TV. Falavam em algo como 20 mil dólares por mês. Não era nada disso.

Não foi por dinheiro que você foi?
Com certeza não foi por dinheiro. O que eu pensei do começo até o fim foi naquele espírito da missão. Nunca foi tão gostoso trabalhar como no Timor. No Iraque era muito mais tenso e o tipo de serviço era mais pesado e burocrático. Ficava separado da população.

Quando a bomba estourou você se arrependeu de ter ido para o Iraque?
Não, não. Tive muitos momentos difíceis, principalmente no hospital, e muitas noites sem dormir por causa de dor. É claro que eu pensava em milhões de coisas, mas nunca “eu não devia estar lá”. No final é uma loteria. Foi Deus que quis me tirar de lá. Vai ver que era a hora de eu passar um tempo em casa.

Você é religioso?
Não freqüento igreja, mas eu acredito sim em Deus. Costumo dizer que não duvido de nada mais.

Você reza?
Rezo.

Sozinho?
Sim. Gosto de ler sobre religiões, mas eu sigo o que eu aprendi como cristão. No fim das contas, o que importa é aquilo que você sente, como você se conecta a uma coisa maior.

E você lê bastante?
Sim, gosto muito de história e política externa.

E você tem algum livro que te marcou especialmente?
Eu gosto muito de O Poder do Mito, do Joseph Campbell. Tem também o dicionário de mitologia dele. Heródoto eu achei fascinante. É o pai da história. Sempre volto aos relatos dele sobre as guerras contra os persas.O que você gosta de ouvir?
Gosto de MPB, gosto muito de ópera e de alguns compositores franceses, como Francis Cabrel e Gilbert Becaud. Música andina também acho legal.

Politicamente como se define?
Eu costumava votar mais pra esquerda. Atualmente eu me considero um cético. Eu não vejo direita, esquerda. Só queria honestidade.

Você se considera um cara feliz?
Felicidade é um estado de espírito e isso oscila. Minha vida não terminou para eu fazer um balanço, mas eu sinto que está indo bem. Eu me considero realizado e satisfeito da forma que ela está se desenvolvendo.

Você se sente em paz, então?
Sim. Eu me sinto em paz.

Birth of Jacool

setembro 25, 2007


O estilo jacool de Felipe Nelson, Ângelo Kanaan e Luiz Miranda. Foto minha.

Não é um auto-jabá. É quase… Trata-se do anúncio do show de lançamento do Chimpanzé Clube Trio, a dissidência instrumental de minha mumificada banda, Os Abimonistas.
O presente picareta que vos posta não faz parte do combo, mas lá estará fazendo volume no público e nas palmas.
Muito difícil para mim, que conheço e vi nascer o som do trio explicar que tipo de música faz o Chimpanzé. E prefiro nem tentar. E vou usar aqui um termo que, cada vez mais, tomo como um elogio: anacrônico. Tramas simples e perfeitamente tecidas de tudo o que soa bem aos ouvidos dos três. O resultado foi um disco raro: instrumental e nada cabeça. Pop pacas, mas para ouvidos apurados. Som dançante pra ouvir parado, e vice-versa.
Escuta aqui: http://www.myspace.com/chimpanzeclubetrio
E gaste o começo de sua noite de sábado no lançamento do primeiro álbum dos caras. Dia 29 de setembro, no nobre Museu da Imagem e do Som, 21hs. Por R$6 você vê o show. Por R$12, vê o show e leva o CD. Avenida Europa 158.

 

Sexo, nikes e Al Corão

setembro 8, 2007

zone_isla.jpg
Joy Food (o puteiro), Islamic Center (a mesquita) e Bang Bang (a butique fetichista)

Escrevo da casa do Oliver, o amigo que tenho há mais tempo na vida. Nos conhecemos desde 1989, quando me mudei para São Paulo, aos 10 anos de idade. Em 1991 ele se mudou para Singapura, mas todo santo ano a gente se vê no Brasil.
Hoje ele mora em Londres e estou aqui há 10 dias, a economizar as centenas de Pounds de uma estalagem, na primeira vez em que sou eu quem chega de visita.
Oliver tem sido de uma paciência budista em nossas caminhadas desnorteadas pela cidade. Tudo para mim é novidade. Para ele, quase nada. Ainda assim divide as bolhas nos pés e os kebabs econômicos.
Mas o assunto aqui é outro…
Quem lê esse blog deve saber que sou dado a arregaçar como posso a política dos EUA. Digo política para me corrigir: a máquina do fim-do-mundo que aquela bandeira listrada representa. Mas convêm me policiar, publica e internamente, para não confundir as coisas. Não é porque os muçulmanos são o barbecue da vez que preciso dar tapinhas em suas costas… Porque apesar de se apresentarem como uma nação, o Islã, não vejo lá muitos valores que deveriam reger um grupo com mais de dois sexos envolvidos.
Quem me lembrou disso, aliás, foi o Oliver.
Em Londres tem muçulmano pacas. E estamos em um bairro cheio deles. E antes que eu pudesse manifestar minha simpatia por eles, ou achar bonito o tanto de mulher só de olhos descobertos que circula, Oliver disse na lata:
– Cara, eu odeio muçulmano.
Para contexto: o Oliver é gay. Namora, casado na prática, com o Kevin há 9 anos. Odeia muçulmano por um motivo irretocável. Qualquer um que massacra gays e mulheres não merece lá muito respeito. Vou discordar?
Eu poderia argumentar, até. Dizer que é da religião. E que isso não pode ser julgado com base no ódio, na análise humanista do ocidente “esclarecido”. Até que, poucas quadras depois, chagamos ao Soho. Bairro meio chique, meio boca do lixo. E entramos pela zona do lugar. Boites gays, sex shops e puteiros explícitos. Eis que, entre um prostíbulo e uma loja de artigos fetichistas, há um centro islâmico. Um misto de mesquita e clube social. Está lá para converter as pessoas? Lembrar dos valores eternos em um antro de danação? Aos fatos… um homem com roupinha a la taleban sai do puteiro ajeitando o traje e troca de porta – entra no centro islâmico. O porteiro nem estranha.
Dias antes, no domingo, estava no speaker’s corner, no Hyde Park. Tradicionalmente, há gerações, é um lugar onde basta você subir em um banquinho para falar o que quiser. É sensacional. Fiz fotos aqui. Porém, atualmente, com poucas exceções, virou um lugar de pregação religiosa. Muçulmanos são a maioria. Uns pregam em árabe e uns em inglês. Um rapaz ocidental, sotaque britânico, convertidaço, bradava: “o ocidente enlouquece as pessoas. que mundo é esse onde a prostituição é proibida é a pornografia é legal? Isso é insano!” E evocava palavras do Corão enquanto fazia o sinal de loucura, girando o indicador em torno de sua orelha. Ele parecia sincero… sei lá. Mas em torno estavam uns rapazes e um velho. Em suas túnicas, meio entediados. Todos, o velho incluso, usavam Nikes lustrosos nos pés. Estavam há poucas quadras do centro islâmico da zona.
Será que essa religião não enlouquece as pessoas? Que nação é essa onde a prostituição é proibida e se apraz das meretrizes na porta ao lado? Que tipo de verdade tem um discurso que reconhece o massacre do Oriente Médio como obra de Satã, e continua a fazer de suas mulheres tendas ambulantes? Que tipo de inimigo de tudo o que a América representa usa Nike?
E pode ser fácil também, outra coisa para me policiar, tomar EUA vs Islã como dois extremos, antagonistas perfeitos. O que me sobe à tona aqui são as semelhanças entre os grupos que dominam suas políticas: ou a máquina do fim do mundo. E não me parecem mais conflitantes.
Concordo com o Robert Fisk, não há conflito de civilizações. Há a sinfonia dos hipócritas insanos. Que fracionam verdades e suas próprias mentes no mesmo jogo de poder. Um senador republicano que passa leis anti-gays é pego assediando um homem no banheiro de um aeroporto. Americanos de Cristo incitam ódio. Muçulmanos vestem Nikes, comem putas e vão à rua em nome de Maomé. Americanos tratam mulheres como carne. Muçulmanos como gado. Enquanto “Londres” e todos nós, os cínicos de bom coração, passamos atônitos, cientes do teatro que virou o mundo real, e incapazes de deixar a platéia.
Só me resta entender o Oliver… Que, pacífico como sempre, odeia muçulmanos, odeia republicanos e, ainda assim, volta ao lar para ler sobre Sidarta.
Me dá vontade de subir em um banquinho e fazer eco no hyde park: que mundo é esse que nos obriga a ser Budista e manter o ódio no coração? Isso é insano.

Inglês é Fisk 2…

setembro 4, 2007

bush_dedinho.jpg

Continuando a série “Recicla Fudeus”, vai aqui o link para a entrevista completa que fiz com Robert Fisk na Flip. Está no site da Trip, um pouco maior do que na própria revista. 3 desvantagens: na versão impressa as fotos são mais bacanas, no site você precisa fazer um cadastro para ler até o fim (vale, é grátis) e uma publicidade mala estoura na tela a cada click (é só fechar).
Mas a razão de postar isso aqui hoje não é apenas para manter meus 6 leitores felizes. É que acabo de ler um novo artigo de Mr. Fisk no Independent (chic, escrevo de Londres) em que ele quase muda uma de suas mais fortes posições, expressa inclusive em minha entrevista. A de que o governo dos EUA não se envolveu no 11 de setembro.
Fisk é tido como um polemista, mas discordo. Seu tom inflamado e radical é apenas reflexo da realidade inflamada (literalmente) e radical da qual ele faz parte. E, pessoalmente, nunca conheci uma pessoa menos dada a polêmica. Fisk é um obcecado por fatos, dados e confirmações do que diz. Por isso é fácil para seus críticos, muito menos criteriosos, tomar certos fatos como opiniões. Polêmica, infelizmente, é a verdade. Dito isso, ao artigo…

Quando o entrevistei, Fisk foi categórico: “não acredito no envolvimento do governo dos EUA. Certamente eles sabiam que algo aconteceria, mas não em NY, não naquele dia, não nas Torres Gêmeas. Sei que muita gente quer acreditar que o Bush fez aquilo, que foi conveniente demais. Mas, desculpe, foi o Osama Bin Laden”.

Agora ele escreve: “Até eu questiono a verdade sobre o 11 de setembro”. E emenda argumentos, alguns de ordem física, para estranhar a versão americana do fato. Nada de novo, você pode dizer. Não seria se não viesse das teclas de Fisk, um sujeito que não fala nada por falar e tem fobia de especulações.

Então leia antes na Trip:
http://revistatrip.uol.com.br//158/fisk/home.htm

Depois no independent (em inglês) :
http://news.independent.co.uk/fisk/article2893860.ece