Archive for janeiro \30\UTC 2007

Tá Russo

janeiro 30, 2007

Russo Casa
Seu Antônio Pedro, o Russo, em frente a sua casa

O cobrador da linha que leva de Engenho da Rainha até Casacadura não repara no rosto de ninguém. Mas esse senhor que acaba de sentar, já avisando que não paga a passagem porque passa dos 70, ele estranhou. Ou, pelo contrário, sentiu já conhecer aquele velho de boca frouxa e o olhar claro. De onde? Não pode ser da TV, não. Não nessa linha, tão pobre e carregada de trabalhador. Não nesse horário, 7:30 da manhã.
Eis que uma senhora abre um sorriso, fala algo que o motor abafa, cata um papel na bolsa, uma caneta, e pede um autógrafo, prontamente concedido pelo senhor da boca frouxa assim que o ônibus pára em outro ponto.
O cobrador não sossega mais. Quem é?

Seu nome é Antônio Pedro de Souza e Silva e tem 73 anos. Mora no Engenho da Rainha, bairro da periferia norte do Rio de Janeiro. Acorda perto das seis da manhã, antes da serralheria que funciona embaixo de seu modesto apartamento começar o barulho. Desce a rua estreita, sem pavimentação, passa por um terreno murado, todo pichado com a sigla do Comando Vermelho, que à noite serve como boca de fumo. Gasta mais ou menos uma hora em um ônibus até o bairro de Cascadura. Mais uma hora no segundo coletivo até Jacarepaguá, onde chega para o batente às 9 da manhã. Rotina dura, e nada incomum para trabalhadores do subúrbio. Não fosse por um detalhe – os autógrafos e a meia hora extra que gasta no caminho para dar atenção aos fãs, ao povo que faz questão de trocar umas palavras, tirar um retrato ou pedir um autógrafo para ele, o funcionário na ativa mais antigo da televisão brasileira.

O cobrador força a memória e lembra! É o rosto que há décadas aparece no fundo de dezenas de programas campeões de audiência. No seu crachá da Rede Globo não há seu nome de batismo. Está escrito o apelido que ganhou em 1946, assim que plugou o primeiro microfone nos fase de testes da TV Tupi – Russo.

TV Tupi
Russo, à direita, ao lado da câmera, anos antes de ir para a frente dela

Já recebe aposentadoria, mas nem pensa em sossegar na velhice. Tem quem sustentar. Sua casa é bem humilde e transparece o orçamento apertado. Conversar com Russo em sua sala requer foco – sua memória embaralha histórias, responde coisas que não foram perguntadas, a serralheria no andar de baixo está na ativa e Laryssa, sua “filhinha”, está pedindo atenção. A garotinha de dois anos não tem sangue de Russo, mas ele trata como sua. É filha de sua namorada, Adriana, uma jovem e voluptuosa negra, clássica musa de subúrbio carioca que Russo venera. “Ela precisa de mim, sabe? O ex marido tá na cadeia, um cara perigoso”, revela, sem experiência com jornalistas, em um sábado de folga onde recebeu Fudeus para essa reportagem. A única folga na semana.
Russo e Chacrinha
Russo e seu patrão, algoz e redentor Chacrinha

Russo “trabalha” desde os 7 anos. Começou a carreira bebendo colheradas de vinagre puro para ganhar alguns réis de quem duvidasse do sacrifício. O dinheiro ajudava sua família de 12 pessoas – o pai, imigrante russo, a mãe, portuguesa, e seus nove irmãos. Adolescente, nem se lembra como, começou a segurar microfones na rádio Tupi. De noite, para interar a renda, fazia bico como trapezista de circo. E foi justamente no trapézio, aos 14 anos, que perdeu todos os dentes ao cair de cara na borda do picadeiro.
Latejando de dor, na hora desistiu da carreira artística. Ganhou a boca frouxa, meio cômica, que até hoje recusa uma dentadura. Até tentou uma prótese, “mas comecei a assobiar, engordar, achei estranho. Dentadura não é pra mim.”

Na época do acidente, com a gengiva inchada, entrou de cabeça no promissor emprego que lhe ofereceram no quinto andar do prédio da Tupi. Iria cuidar do áudio de um novo meio de comunicação que, diziam muitos, substituiria o rádio – a televisão. Em 1946, ainda em circuito fechado, em fase de testes, começou a trabalhar na TV Tupi. Antes de baixar âncora na Globo, passou pelas extintas TVs Rio, Continental e Excelsior, sempre montando microfones.

O anonimato dos bastidores acabou quando em 1965 seu chefe no palco, Chacrinha, notando a boca frouxa, convocou Russo para servir de palhaço no palco e ganhar um extra. Vestiu uma peruca colorida, roupas largas e ajudava Abelardo Barbosa a atirar bacalhau na platéia, a atazanar artistas em playback ou a se submeter sorrindo às piadas sobre sua beleza polêmica. Conheceu e cuidou da voz de muita gente famosa. De Sidney Magal no “Cassino” a Frank Sinatra no maracanã.
Seu maior orgulho, no entando, não são os áudios que armou ou as pataquadas de auditório. Russo não se cansa de exaltar a amizade com seus ex-patrões.
Tem foto com Deus e o mundo, e um álbum que guarda com amor: imagens dos quartos gigantes onde que Xuxa estoca os milhares de que ganhou dos fãs. Ele pode visitar tais salas do tesouro da “nossa rainha”.

Russo e Paquitas
Fazendo papel de palhaço com as Paquitas

“Sou famoso. Graças a Deus” – suspira Russo, como que aliviado. Seus olhos tristes ganham vida quando fala das pessoas o reconhecem, do carinho das crianças, dos aplausos que recebe vira-e-mexe em alguma situação pública. Porque quando o assunto é sua vida privada, ele desanima um pouco.
Da Rede Globo recebe por mês cerca de R$2.000. Pelas palhaçadas que faz no Caldeirão do Huck ou em algum outro programa da Globo recebe R$70 de cachê. Mais a aposentadoria de R$800 não daria um salário de fome. Mas Russo não era fácil… “Sou meio marinheiro. Saí por ai fazendo filho” – explica-se o homem que já foi chamado pela imprensa de “o último mata-cachorros”, um farrista.
Quando vai à Caixa Econômica Federal do centro do Rio no quinto dia útil, três mulheres, uma de Niterói, uma de Xerém e uma de Jacarepaguá, estão esperando por ele e pelo dinheiro que sustenta seus cinco filhos. Somando com as contas de seu, Adriana e Laryssa, mais os preparativos para sua próxima filha com Adriana que nascerá em dezembro, não sobra nem para o aluguel – conta que Luciano Huck paga todo mês para ajudar seu contra-regra favorito.

Russo e Maria Alcina
Maria Alcina e Russo – montados na fama no final dos anos 70

Russo não larga seus álbuns de fotos enquanto conta episódios. À medida que relaxa e se convence que a matéria é realmente sobre ele, só sobre ele, envaidece-se um pouco. E, antes de criar empáfia enumerando mais pessoas importantes que são amigos de verdade, seus olhos se enchem de lágrimas.
Para mim foi bem difícil. Choro de velho me arrasa. Aliso seu ombro devagar e digo que realmente, ele é um homem querido. A pele está gasta e larga no corpo miúdo, sua mente confunde nomes e datas, e seus olhos estão turvos, perdidos entre lamúrias e glórias. Seu choro contido com o afago parecia sair da fenda entre a fama e a pobreza, da lacuna nunca superada entre o shwbizz e a realidade de Engenho da Rainha. Entre o amor de Xuxa e o toque de recolher do CV vez ou outra baixa. Enxuga o olho e retoma:
“Todo mundo me fala que eu tenho que me candidatar a vereador. E o pior é que eu acho que seria eleito mesmo.”

Russo e Lula
O contra-regra que poderia ser vereador microfona a lapela do operário que virou presidente

Mas Russo não quer mudar. Prefere ser pobre, “para se manter simples”. Prefere andar de ônibus, “para não atropelar ninguém”. E prefere fazer campanha para eleger o ator Sterphan Nercessian à câmara carioca para cumprir sua plataforma de ajudar o Retiro dos Artistas [instituição que abriga velhos artistas sem dinheiro] do que buscar ele mesmo uma escora financeira.
“O povo acha que eu tenho uma casa bacana porque eu apareço na Globo, conheço os artistas. Quando descobrem sempre perguntam porque a Globo nunca me deu uma casa, porque eu não ganho aumento, promoção”. – comenta enquanto, à pedido da reportagem, coloca o apertado colar com um pingente de ouro puro moldado com o logo da Globo que ganhou, pessoalmente, de Roberto Marinho. “Aumento só de trabalho.”
Só mais uma pergunta me interessava no fim daquela manhå: Não se sente frustrado, Russo?
“Não, eu sou feliz. Não adianta discutir. Tem que esperar a bondade deles” – suspira novamente, revelando o espírito conformado que parece ser o carrasco e o bálsamo na apertada vida de Antônio Pedro.

Retrato Russo
Russo e seu apertado colar de ouro da Rede Globo – presente do Doutor Roberto

*Versão não editada de uma matéria publica na revista Trip 128, de novembro de 2004.

443 anos de É Paulo

janeiro 26, 2007

Mutantes chegam
Mutantes acharam a glória de volta à cidade natal.

Por conta de meu emprego, há cinco anos desfruto de um privilégio considerável: credenciais fáceis para os melhores shows do país. Vi muita, muita coisa boa ali do gargarejo. Algo tão prazeroso quanto viciante. Rapidamente, ver espetáculos no fundão, junto com a platéia normal, me dá nos nervos. Arrogância, podem dizer. Nem tanto.
Entendo que muita gente possa se ofender, mas é como viajar de primeira classe ou usar drogas realmente boas – é uma séria mudança de parâmetros.
Agora a arrogância: acredito que ontem usufruí da melhor credencial da minha vida, no show dos Mutantes no parque do Ipiranga. Assisti, confortavelmente, no lugar mais próximo possível de Arnaldo Baptista.
Não vou cair nos frios elogios elaborados como adora o pomposo e infantil jornalismo musical da Folha. Acontece que senti um impulso de deixar registrado meus sentimentos ao ver a volta da mais importante banda brasileira após ler o texto de Marcelo Negromonte, editor do Uol Música. Estão lá os detalhes, as roupas, os estilistas, o set list, as críticas ao microfone e os convidados. Mas…

A chamada objetividade jornalística misturada ao “senso crítico” muitas vezes causa na imprensa cultural uma espécie de catarata emocional que a distancia do sentido mais elementar do espetáculo: o prazer. Muito repórter naufragado no mar de áreas vips e CDs grátis acaba registrando para a posteridade textos tão próximos de análises econômicas que nem parece que estava presente, no fim das contas, em uma celebração.
Escrevi nesse mesmo blog que não explicitar certas alegrias é um tipo horrível de arrogância. No caso de ontem, omitir a alegria alheia, também.
Não se trata de um texto injusto nem tão frio assim. Há o “começo triunfal” e elogios à performance de todos. Mas duas passagens, na minha opinão, se devem à tal catarata.
Ao ponto:
O editor do Uol, no meio de seu texto, tenta uma ironia ao dizer que Sérgio Dias puxou pra si o papel de líder e que, no passado, era o “o moleque”.
Marcelo ouviu os mesmos discos dos Mutantes que eu escuto há anos? Sérgio, menor de idade, já era o responsável pela guitarra mais original e influente do rock brasileiro, só comparável a Lanny Gordin. Ser um moleque, no caso, só pode ser um elogio.

O texto, provavelmente a resenha mais lida do show de ontem, acaba por dizer que, se os Mutantes não se renovarem ou desmancharem a banda logo, vão acabar como uma piada.
Marcelo estava no mesmo show que eu? No mesmo chiqueirinho VIP que aproveitei tão deslumbrado? Sérgio e Arnaldo tão felizes e bem em seus lugares. Dinho Leme, tão acanhado como figura, tão exuberante como baterista. Zélia Duncan tão ciente de seu papel e fazendo bonito, tapando como pode a vergonhosa lacuna de Rita Lee (que desdenhou de seu passado e dos irmãos que a tornaram a maior mulher do rock nacional). O resto da banda, bastante jovem, rindo à toa e, como tantos dentro ou fora da área Vip – felizes demais pelo milagre no palco. E será que não sentiu o que milhares de pessoas ali sentiram? Que a música dos Mutantes superou décadas inertes tão carregadas de mágoas para redimir o rock brasileiro, hoje em dia tão, aí sim, digno de piada.

Arnaldo
Santo Arnaldo Baptista, padroeiro do rock brasileiro

Arnaldo Baptista é o maior compositor do rock nacional, sofreu os diabos por sua tentativa de suicídio há mais de 20 anos. Ver seu rosto iluminado, ouvir sua voz e sua alegria incontinente é realmente emocionante. Sérgio Dias estava eufórico. Marcelo chama-o de “megalomaniáco”. Eu chamo de realista. Uma multidão de 50.000 derramada pelos jardins do parque, pelas escadarias do palácio que celebra a independência do Brasil, no maior público de sua vida. Marcelo chama-o de megalomaniáco. Eu chamo de realista. Espia a foto:

Megalomania?
Ainda no show de Tom Zé, a “megalomaníaca” realidade

O que mais me entristece em textos tão apurados, detalhados e, no entanto, descatáveis como o do uol, é o tipo de conclusão tão rasa e desnecessária. Vejamos, o texto acaba condicionando a relevância dos Mutantes à seu fim “irrestrito” ou a novas canções para o século 21. Argumentar contra isso não é possível, já que se trata de um óbvio colossal: qualquer banda já feita ou a se fazer na história da terra precisa de música nova ou de um fim se quiser continuar relevante. E, no caso dos Mutantes, é uma ofensa especial. Eles fizeram músicas geniais e eternas o suficiente para não precisarem compor mais nada. E se subirem ao palco caquéticos, mas com a mesma alegria de ontem, por mim podem tocar “Balada do Louco” pelos próximos 70 anos.

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“Vivemos na melhor cidade da América do Sul…” – no final do show, deu pra acreditar no refrão

E quero, enfim, deixar assinado que foi um show maravilhoso no sentido mais espiritual da palavra. E perfeitamente resumido na louca genialidade do chiste de Arnaldo em sua segunda frase ao microfone:

“São Paulo vai virar É Paulo.”

Ali, por mais de duas horas, aqueles 50.000 mais o palco, bem à moda dos Mutantes, ficaram “todos juntos, numa pessoa só”. Arnaldo tinha razão, em seu aniversário, a cidade Foi Paulo.
E isso, desculpe Marcelo, nunca vai virar piada.

E um presentinho de Fudeus a meus parcos leitores. Um vídeo que eu mesmo fiz de Arnaldo entoando “Cantor de Mambo” pra provar que o cara continua gênio e que meu lugar no show, putaquepariu!, era bom demais:

Excelentes fotos do show dos Mutantes e de muitos outros shows no flickr de Caroline Bittencourt. Espia.

Jornalista tendencioso? Juuuuuuura?

janeiro 25, 2007

Eis o Jornalista

Este blog recebia cerca de 20 transeuntes por dia – oscilando entre 16 e 24. 31 leitores foi o auge, no final de dezembro. Até o dia que cobri a manifestação Anti-Cicarelli na porta da MTV. Mais de 2000 pessoas no primeiro dia. Mais de 5000 até hoje.
Curiosamente, em muitos emails e comentários deveras agressivos e mal redigidos que recebi, ganhei certa pecha de defensor da censura, de fazer parte de um complô da mídia ou de ser um jornalista tendencioso.
Ignorei o quanto pude, mas ainda hoje me pego argumentando em pensamento com despautérios ditos neste espaço. Então, por partes:

Complô da mídia?
Derrubar partidos, sufocar passeatas, defender a Cicarelli ou, ai ai ai, levantar a opinão pública não são objetivos do jornalista. Trazer a verdade a público? Menos ainda.
A função do jornalista é a mesma do operário comum: não ser despedido, não sofrer acidentes na labuta, reclamar do salário e manufaturar algo que, antes dele meter a mão, era mais próximo de seu estado natural.
O que nos difere do operário? Em poucos casos uma melhor noção gramatical. Em quase todos a ilusão de que a fluência de seu texto é sintoma de uma caudalosa inteligência – e comunicar isso ao mundo nos expedientes das publicações. Certo, não exclusividade do jornalista tal presunção. O que nos separa também de advogados, políticos e poetas é a descrença travestida de curiosidade. A falta de fé no homem, no mundo, no futuro e também no passado. A convicção de que a realidade é tão traduzível como um cacarejo de galinha. E a vontade incontrolável de estar lá, ao vivo, sentindo o cheiro da carne queimando, as bombas caindo, o zunido das balas, no meio das mães em prantos e pensar sozinho: quanta bobagem…
Quem acha que há um complô da mídia, não sabe ler. Pois o bom leitor deve ter o mesmo adjetivo crucial do bom jornalista: o cinismo. E com cinismo, meus caros, não se faz um complô. Na melhor das hipóteses, uma calúnia.

Tendencioso, me chamam.
Sim. Mea culpa. Só me espanta que isso seja demérito para meus algozes dos comments. Não me excluo do que disse acima, e, agora mesmo, penso que era desnecessária tal explicação. Sou tendencioso desde o minuto que acordo. E, quando dá, puxo a brasa para a minha sardinha também em sonhos. Textos como os que redijo são sempre uma maneira sedutora de provar um ponto de vista com verdades selecionadas. É mentira? Não, nunca. É tudo verdade. É toda a verdade? Não, menos ainda.

Quase me esqueço: defensor da censura.
Vejamos… Imagine a ditadura militar em seu auge repressivo. Imagine um grupo de jovens em flor, livres do buço, já capazes de bigodes. Eles estão reunidos em células clandestinas. Eles se organizam sob códigos e pseudônimos. Eles querem o fim da repressão, as eleições diretas e a liberdade de imprensa. Eles decidem uma data para um protesto contra aquele que representa toda a tirania. E vão todos da cartolina em punho pedir que Sílvio Santos deixe o país até o fim da tarde. Chamar essa rapaziada de boba é uma constatação que em nada tem a ver com apoiar censura. Tolice foi das poucas que Deus distribuiu uniformemente pelas ideologias.
Apenas uma comparação bem tosca para ilustrar que sim, achei bobo demais o protesto contra a Cicarelli que gerou tanta revolta neste site. Que não, não sou a favor da censura. E que sim, seria engraçado ver o tal protesto acabando em pancadaria e eu pensando: quanta bobagem.

Para quem tentou discutir o que, enfim, era censura, prefiro me calar e deixar Frank Zappa falar no link abaixo. O sujeito, um que não me acanho em chamar de gênio, mostra o rosto e explica por A + B do que se trata a censura. É Zappa em um programa de debates da CNN, achatando um jornalista (veja você) de argumentos tão moralistas quanto os das cartolinas patriotas pedindo a cabeça de Cicarelli. Zappa no auge de seu clareza, coerência e… cinismo, para dizer que liberdade, meus caros, é o inalienável direito de falar merda e a consciência da possibilidade de pagar pelo que se faz. Seja trepar numa praia frequentada ou difundir um vídeo mal intencionado para milhões de pessoas.

Zappa no Crossfire – disponível adivinha onde? You Tube

O Jesus Cristo do Estadão

janeiro 23, 2007

Pernil
Eis o pernil antes de virar sanduíche

Dispenso os gastos elogios ao sanduíche de pernil da lanchonete Estadão. Trata-se também de comida barata na madrugada. Barata, corrijo, em termos, já que os 8,50 necessários para uma refeição completa de um homem adulto pode bem ser uma atitude perdulária. Enfim… Pernil recém tirado da perna assada, suculenta, iluminada por lâmpadas de gás dentro da vitrininha do balcão. Cebola, pimentão, provolone na chapa e molho marrom no pão francês. E toda essa sutileza é servida em um balcão onde come funcionário público, polícia, travesti, família, casal, michet, bêbados, crentes. Normalmente, todos ao mesmo tempo.
Em uma terça feira qualquer do mês passado, Zuza, o velho caixa da madrugada, contava histórias com sua voz de caçapa frouxa. Mais de 20 anos no centro de SP, naquela mesma madrugada de cheiro forte.

– Aqui, meu amigo, é lei do cão. Sabe esses dois que saíram aqui?
Contou que eram policiais. A mulher, uma delegada. Jaqueta de courino, brilhante, cabelo armado e maquiagem mal desenhada, últimos respiros da ex-taquígrafa, endurecida pela Força do Estado. Feia pra burro, falava e sacudia as mãos estupidamente. Timidez, nítida, pelo pequeno galanteio que o outro policia ofereceu – um bom-bom genérico embrulhado em alumínio vermelho, de R$0,50, que ela, por falta de troco dele, teve que pagar. O policial pega mais um docinho, quase enfia no bolso. Hesita o furto. Mas tenta não pagar, diz a Zuza, impávido no caixa, que dê o brinde pela conta de R$14,50. Nada feito, R$0,10 até perdoava, R$0,50 não.
Zuza fez cara de desprezo ao vê-los sair, e sorriu ao lembrar de outra delegada. Linda, gostosa, atreveu-se. Loira, cabelos compridos. Comia, como as prostitutas e jornalistas ao seu lado, pernil. “Lei do cão”, lembrava.
Uns rapazes, “sabe bobão? Então, bobão”, se sentiram confiantes demais. Eram do interior e não sabem do centro. Um deles:
– Ô, gostosa.
A delegada loira e linda deixa o pernil no prato e, de boca cheia, capricha um tapa na cara da sujeito. Bobos os sujeitos… Os amigos tomam partido e lascam a mão na bunda da autoridade, ainda à paisana. Agora é tarde.
Ela tira a pistola calibre 40. Pânico. Os rapazes correm rápido como em filmes mudos. Travestis fingiam não ver, mastigavam os sanduíches, o amarelinho achava graça. A delegada gosotosa dá um tiro para o alto. Um dos bobos tropeça e rola de susto. Foram pegos por homens que brotaram na rua. Apanharam na calçada imunda. Houve quem batesse palma.
Jogados no camburão, pensavam em Araçatuba, na doce cidade em que só os homens carregam distintivos. Deram suas desculpas. Estavam fazendo um curso em São Paulo. Promissores, seriam gerentes do Unibanco em poucos meses. Bobões. Prato cheio para a loira delegada. Diretoria avisada. Estavam na rua, prontos para Araçatuba.

“Pior foi outro, metido a carioca”, Zuza continua enquanto faz um troco. “Sabe cara com jeito de carioca, mas que nem carioca é?” Sei, Zuza. Conta que o sujeito usava óculos de lentes espelhadas. Cabelinho engomado, sem brilho. Mexeu com um travesti. Um travesti baixinho, tarrancudo.
– Ô, Mariazinha! – atiçou o folgado – Que beleza…
O travesti virou logo, não deixou o homem acabar. Foi para fora da lanchonete, ao lado de uma banca de jornais. Com dois dedos tirou aberta uma navalha da bolsa. Voltou com os olhos vidrados. Errou o alvo a primeira vez, tentando fazer uma fenda na nuca do carioca da Móoca. Desespero.
O homem desaba de susto e de gatinhas tenta fugir. Levanta como uma ave parva, de olhos fechados. Toma o corte definitivo, para toda a vida – um talho da maça do rosto ao lado do queixo. Ainda assim, sangrando copos pela face, deu motivos para que um policial lhe enchesse de tapas antes de chamar uma ambulância. O travesti? Ficha longa, oito inquéritos por agressão. Um por tentativa de homicídio.

Começa tudo de novo. Pernil, cebola, pimentão, pão francês e molho marrom. Sem provolone dessa vez – mais barato. Eu e Felipe Nelson, inseparável praguejador, sentávamos na vitrine, camarote lateral, na frente da janela para a rua, ao lado da porta de entrada. Segunda mordida, vem um mendigo, um velho.
– Me paga um café?
– Não posso. – só depois o notei.
Velho apodrecido em vida, fedia horrores. Cabelos abstratos, volumosos, cheios de pedaços e migalhas. Roupas eram como cascas, mais carne que tecido. Um devastado. Olhou-me fundo e foi horrível. Ele abaixou a cabeça e foi ao lixo sem pedir mais nada a alguém. Tirou latas, vasculhou com a mão preta guardanapos e lambeu farelos, em busca de qualquer coisa com calorias.

Uma culpa instantânea me ergueu, no meio do segundo sanduíche, e tentei oferecer metade do pernil. Não deu. O garçon que cuida do movimento chegou antes. Cutuca-o nas cotas. Nada. Agora mais forte. O velho sacolejava, fingindo que ainda não está acontecendo. Toma mais cutucão na casca. Não deu.
Saiu correndo, berrando e escancarando a gengiva seca na vitrine do lanches Estadão. Berrou tanto, um urro antigo e animal. Ele já não escutava nada. Eu já estava do lado de fora, ao lado da banca, tentando entregar o sanduíche ao homem. Ele atira uma pedra dentro da lanchonete. Berra mais alto. Medo. Em passos longos voltei para a vitrine de onde saí.
Ele chorava seco, um desespero de juízo final. Se enfurece agora, parece que pensou. E ofereceu a maior ofensa que lhe estava ao alcance: abaixou as calças e levantou a camisa. Estendeu-se em cifose. Pra rimar – não era pênis, sim fimose.
Uma pele pendurada, flácida e vermelha como couro fresco. Chacoalha. Berra. E vira. Mostra o traseiro para o desfecho monumental.
Penso que a miséria mais profunda é a miséria do ânus. E ele era isso – um miserável anal. Segura um lado com cada mão e separa suas nádegas. Lá estava a cor escura, densa. Marrom não era, não era preto nem esverdeado. Era a cor de carne esquecida. A cor que tem mais cheiro que matiz. Havia um pedaço mais claro. Outro, mais nítido, vermelho. Sujo, profundamente sujo. E eu olhei para o pernil, com vergonha do que via, fascinado e triste. Aquela carne de porco do meu sanduíche, brilhante e suculenta, também não tinha cor.

sanduiche
Eis o sanduíche

Voltei os olhos. Ele dava tapas loucos na bunda e na coxa. Cansou um pouco e abaixou por fim as cascas de seus panos. Xinga menos, volta a verborragia em que só se distingue, “puta”, “rua”, “fooome”. Duas vezes “fooome”.
E estava lá, o Jesus Cristo do Estadão. Pagando por todos os pecados daqueles homens e mulheres mastigando calados, sem misericórdia, sem paixão. Enquanto comíamos carne de porco entre ganância, gula e sodomia, o devastado mostra as entranhas do inferno em vida. Ninguém dá pelota. Ninguém vira o rosto ao passar com os ouvidos e narinas a palmos daquele homem fétido que, afinal de contas, devia ter um nome. Mas não tinha, e nunca mais terá um nome. Não existe, quase, aquele mártir. Era o messias sem fé, um fantasma ardendo de tão descrente.
E ali, meu sanduíche de pernil, metade e mais um pouco. Demorei a comê-lo. Felipe Nelson fazia coro de carpideira comigo. A vida era mesmo uma bosta. Suspiro e logo a piada, – “cu de mendigo, bom nome para uma banda”. Risos perversos e sinceros. E todo mundo no Estadão come com olhos vidrados. Sinto os meus olhos vidrados. Lei do cão, seu Zuza.

– E aí, Fudeus, vamos? – Nelson tinha o ar sério, duro.
– Vamos.
R$12,20 a minha parte. Facilitava o troco e pensava no mendigo, em mim, em dinheiro e na namorada. Disse a Felipe que, depois do parto, não fica bem chorar por que nasceu. Rir, isso sim, valia a pena – já que sofrer toma tempo e tempo, enfim, é a vida em si.
Aposto que o metido a carioca faz piadas com o talho no rosto e os idiotas de Araçatuba enchem a cara, gargalham e fazem pouco da carreira abortada. Até o traveco tarrancudo, na cadeia, ainda vai ter sucessivos orgasmos e sonhar bonito. Exceto para ele, o mendigo de alma oca.
Fiquei feliz, que vergonha, agora exatamente. Pois há um ponto final logo ali, no fundo dos fundos do mendigo. Um final que me redime. Pois estou mais longe da morte do que ele. Me sinto feliz, subitamente, pois não sinto uma alma disposta a sair de mim e ir pro inferno. Pois vejo o mendigo, vejo que sou real, e reconheço o inferno – ser um fantasma. É pior do que a vida, é bem pior do que a morte.

James Brown não descansa em paz

janeiro 16, 2007

JB no Palmeiras
James Brown rindo à toa, ao vivo no Brasil em 1978 no
clique perfeito de Penna Prearo

Fui a dois shows de James Brown em minha vida – obrigado, Senhor. O primeiro no Palace, o segundo, dois dias depois, no velódromo da USP, em meados de 1994.
Não me lembro bem do set list, mas de detalhes cravados – dois bateristas, dois baixistas, de um percussionista inflamado que atirava alto um pandeiro e das gostosíssimas bailarinas em frenesi. Eu nem passava perto das drogas naquele tempo, mas reconhecia na cara, olhos e disposição de muitos no palco o efeito de substâncias mal quistas pela família brasileira.
James Brown estava velho, mas nada caído – sua alma nunca coube no corpo pequeno. A voz explodia, os olhos apertados quando berrava. Eu imaginava quantas e quantas vezes ele havia cantados aqueles mesma músicas, feito as mesmas piadas e os mesmos passos. Seria esperar demais que o homem, como mentem os artistas, “sentisse a mesma emoção todo dia”.
Não. Era um trabalho, dava pra ver. Mas um ofício que ele fazia questão de executar melhor do que ninguém no mundo. No início do show, invariavelmente, desde 1961, seu MC bradava: “The Hardest Working Man In Showbusiness”.
E lembro do final do show, mais clássico do que a intro, onde ele faz que sai do palco, arrasado de cansaço e tristeza, é coberto por um manto ofuscante com suas iniciais e… num tranco se livra da coberta e volta ao microfone decidido para mais berros e aplausos incansáveis como ele.

Eu tinha 15 anos, havia acabado de montar uma banda de Blues e Rock’n’Roll – ver James Brown ali na minha cara (a mesa era boa pacas…) era tipo perder um cabaço, tomar uma droga forte, boa, sem remorso.

No natal ele morreu, todo mundo sabe. E só fiquei sabendo dia 30, quando o Jornal da Globo mostrou o velório de JB no teatro Apollo, em Nova York.
Escutei um dos Live at Apollo, lembrei do show e procurei umas fotos que fiz do tal show do Palace. Não achei. Tentei escrever um texto para esse Fudeus, não rolou…

Sexta passada deixei a patroa em casa para comer uma pizza na Real, do lado de casa. No balcão está o chapa Penna Prearo, fotógrafo veterano, com uma alma apertada no corpo como JB.
Conheci Penna em uma reportagem que fizemos juntos, cobrindo os dias que antecediam a gravação de um DVD ao vivo de uma banda evangélica – a Praise Machine.
Ele era um expert em clicar bandas, desde os anos 70.
Já no primeiro dia de nossa matéria, Penna me contou de muitos cliques seus – retratos clássicos de Elis, Tim Maia, Mautner, Gil… E James Brown.
Quando lembramos, ali no balcão, da morte do cara, lembramos das fotos.
Quando entrei em casa de volta, Penna já havia mandado os cliques por email.

Nelson Triunfo
Nelson Triunfo triunfante na platéia do Chic Show, a festa back paulistana que chegou ao topo com James Brown. (foto de Penna Prearo)

JB também havia pisado por aqui em 1978, ano em que nasci. E Penna estava lá, no Palmeiras, no palco, registrando o Papa em plena forma.
A platéia sem área VIP, sem pulserinhas – o gargerejo sem camisetas do celular que patrocinou, mas cheio de pretos, e fãs.
Que fotos sensacionais.
Na janela ao lado, no uol, a chamada: “corpo de James Brown ainda não foi enterrado.” Já houve três velórios e ninguém jogou terra sobre o caixão.
Na hora me veio a imagem dele entrando e saindo do palco, se livrando do manto cintilante e voltando para um pouco mais de aplauso.
Seu corpo não se conforma com o caixão, e a alma do rei do soul, por mais mórbido que pareça, se recusa a descansar em paz.

Então, já que JB ainda está sendo velado, ficam aqui minhas condolências ao Papa que conclave nenhum substitui.
Nas fotos de Penna Prearo e nesse links absolutamente histórico:

  

Em 1968, assim que Martin Luther King foi assassinado, negros em todos os EUA armaram justificados protestos e distúrbios. James Brown tinha um show marcado em Boston (cidade de um silencioso, mas intenso racismo), imediatamente cancelado pala produção.
James Brown insistiu em fazer o show e transmiti-lo ao vivo pela TV para tentar conter as pessoas em casa e evitar a violência. Resultado: Boston foi a única grande cidade amerciana sem distúrbios.O povo negro ficou em casa para ver o homem tocar.
JB ainda conteve no verbo e em inacreditáveis passos de dança uma pancadaria prestes a acontecer entre polícia e a craude em cima do palco.
E… o triste – depois desse show, o governo americano, temeroso, percebeu o poder negro que James Brown tinha. E começou uma perseguição fiscal furiosa que lhe custou suas rádios independentes e muito de sua saúde mental.

“Queremos um bom exemplo”

janeiro 14, 2007

Pixo
Na parede da sala de espera do estúdio da MTV, fã
relembra o que a própria Cicarelli não nos deixa esquecer

“Está desesperado? Quer beijar na boca?”.
Na parede da sala de espera para o público dos programas de auditório da MTV há uma lista dos programas ali gravados e uma breve descrição de cada um. O último da lista é o Beija-Sapo, programa de moderada lubricidade para jovens sedentos por visibilidade e troca de saliva. É na descrição desse programa, apresentado por Daniela Cicarelli, que está a citação que abre esse texto.
Nessa sala, passei na tarde de hoje quase uma hora, esperando o desfecho de uma querela que despertou fúria em muitos milhares de pessoas nos últimos dias – o bloqueio do You Tube, resultado de um processo movido pelo casal Daniela Cicarelli e Tato Manzolli (que nome brega…).
Suponho que leitores de tão mocozado blog como Fudeus já saibam do que estou falando. Uma horda online, muito bem disposta, organizou em poucos dias uma manifestação na porta da MTV para pedir o emprego da apresentadora, ou um pedido formal de desculpas.
O que eu fui fazer lá? Nem eu sei bem, mas como novo morador do bairro de Perdizes, vizinho da MTV, e fã de um bom barraco, caminhei 200m munido de câmera, carteira de imprensa e boa vontade para ver quantos dos tantos milhares de pessoas que se manifestaram, estariam ali na manifestação.
10 pessoas. Sim, 10. E quando cheguei, todos estavam dentro do prédio da MTV, portas trancadas, dando e recebendo explicações de Zico Góes, o diretor da emissora.
Nas escadas, mais de 10 jornalistas – Folha, Rede TV, Bandeirantes, Rolling Stone (representada pelo chapa e chapa-quente Alex Antunes)… tinha mais, não lembro quem.
X minutos e um espresso depois, a porta abre e a turba sai à rua.

que exemplo
Eduardo, o dono do incendiário http://www.boicoteacicarelli.com.br, e a mensagem subliminar

Eram só homens, ostentando algumas espinhas e cartolinas com dizeres assertivos. E uma enorme e bem bordada bandeira do Brasil.
Zico Góes dava sua versão aos repórteres de TV. Não literalmente, disse: “Eles estão bem irredutíveis, mas eu expliquei que vamos conversar com a Daniela, que o que eles estão fazendo também é um tipo de censura..”. Atrás de Zico um rapaz ergue a cartolina:
“MAU EXEMPLO. TRANSOU SEM CAMISINHA”.
Outros chamavam Dani e Tato (esse nome…) de ditadores.
Um insinuou cantar o hino. As risadas de transeuntes e jornalistas abafaram.
Um carro passa, reconhece a cena e pára na rotatória ali do lado. Desce um casal de trinta e poucos anos, com um cachorrinho na coleira. A dona escuta Zico defendendo Cicarelli e bate palmas:
– MUITO BEM!
Bastou para um dos rapazes, segurando uma cartolina com FORA CICARELLI e vestindo uma camiseta estampada de QUEREMOS JUSTIÇA sofismar
– Você é a favor da Ditadura! Ditadura!
A mulher não resiste:
– Tanta merda acontecendo no país e vocês vêm echer o saco por causa disso?
Vaias generalizadas e o rapaz puxa pra si a liderança em um deprimente surto legalista:
– Você tem um cachorro, porque não dá a comida dele para os pobres? E seu carro está em lugar proibido! Ilegal! Polícia! Polícia!

bandeira
Todo o patriotismo do jovem

Os garotos falam ao microfones, e posam para as câmeras. Afirmam que Cicarelli é o “monstro da censura”, “uma pessoa que não mede esforços para destruir as liberdades”.

E tive uma vergonha súbita. É que me incomodei bastante com a saída do You Tube na terça feira. Não porque passo o dia fuçando por ali, mas achei de fato um absurdo que a Cicarelli conseguiu tirar do ar um site tão legal e símbolo do novo broadcast, anárquico de fato.
Mas ali, vendo aquele surto de garotos mofados, tão coberto pela mídia, lembrei de algo que eles jamais consideraram: Cicarelli é apenas uma garota meio boba, muito mais bonita do que esperta, condenada por sua genética no capricho. E eu senti que todo o ódio ali manifestado tinha algo de mão cabeluda.
Perguntei a um jovem atrás de um nariz de palhaço:
– Você costuma ir a protestos por aí?
– Sim. Não gosto do Lula, ano passado fui num protesto contra ele e não tinha imprensa lá. Sou contra a censura.

Zico
Zico Góes, com a mão na cabeça, explica que não é um ditador facista

Zico Góes com um ar de “deve ser por isso que eu ganho bem” estava levando a turba para um estúdio, devidamente acompanhado de uma equipe de filmagem da TV, para continuar a conversa. Agora, pasmem, com Cicarelli em pessoa.
A imprensa foi conduzida a tal sala de espera dos programas de auditório, onde começou esse texto, e Zico nos deu declarações em off, dizendo basicamente que os garotos estão surtados.
“Recebi milhares e milhares de emails. Quase todos bem mal criados. Um deles me dizendo ‘vocês demitem a Soninha porque ela fuma maconha e deixam essa aí no ar’. Aí eu respondi que foi a Cultura que demitiu a Soninha. O cara tinha lido no Orkut esse papo…”

Zico foi ao estúdio finalmente e ficamos lá, os jornalistas, em silêncio. E gastei meu tempo espiando as paredes completamente rabiscadas. Por todo o lado, onde a molecada que a MTV chama de audiência esperou para ver ao vivo seus VJS favoritos, estavam links pixados: fotologs, tramavirtual, palavras chaves de you tube, blogs em geral. E aquela recorrente sensação de que havia ali algo maior a ser compreendido, Nem fiz o esforço, e nem faço agora, de compreender… Algo me diz que, no século 21 a análise datou como uma regra de etiqueta. E aqueles pixos de gente louca por um lugar no fundo do auditório eram como pintura rupreste, que ganha dimensão quando fossilizar.

Na sala, junto com os jornalistas, estava Daniel. 27 anos, formado em Publicidade no Mackenzie, atualmente autônomo, freelancer de Photoshop e figurante ocasional em comerciais. Era um manifestante também e, sabe-se lá porque, ficou com os jornalistas. Boa praça, foi o único que entrevistei.
– Porque você ficou tão indgnado assim?
– Ah, eu tinha acabado de colocar banda larga e o You Tube saiu do ar… fiquei revoltado. Fora isso, começa que foi um atentado ao pudor que ela cometeu.
– Mas você não tinha coisa melhor pra fazer num sábado?
– Ah… eu ia acabar ficando na frente do computrador mesmo…
– Você tem namorada?
– Não, pior que não…
– E você frequenta protestos com frequência?
– Não. Mas eu acho que estava faltando algo pra a gente se revoltar. O mensalão era motivo, mas pelo menos esse é alguma coisa. Mas sabe o que eu acho?
– O que?
– Um amigo meu, muito inteligente, jornalista, disse que precisa rolar sangue no Brasil pra a coisa melhorar.
– Como assim?
– Matar gente mesmo, pra a coisa melhorar.
– Ok, ok…

Passa o tempo e outra aspa digna de brilhar em Fudeus. Uma repórter pergunta ao segurança que nos mantinha ali se havia visto o vídeo. O negão nem hesita:
– Claro! Porra, queria que fosse eu ali.
Grato, negão. Eis o problema todo. Porque o vídeo virou o que virou? Porque todo mundo queria estar ali – fornicando gostoso em uma praia espanhola.
Meu telefone toca. É a mulher que eu amo me pedindo pra sair de lá. Ela queria almoçar em casa.
Eu enrolo para ver o desfecho e, tempo depois, desce a turma e Zico Góes.
Ele, Zico, faz de tudo para sair de lá rápido e evitar aparecer demais na Rede TV e, afinal de contas, desfrutar seu sábado. A molecada fica para dar o saldo à nós, jornalistas.
Segundo relato de dois funcionários da MTV, dentro do estúdio alguns ligaram dos celulares para suas mamães “tô na MTV, mãe!”. Outros pediram para tirar fotos com a musa e com o VJ Rafa, ali presente. Daniela Cicarelli até que não é tão desgraçada, explicaram. Pediu desculpas e se comprometeu a lutar, junto com eles, “por leis digitais”.
Que leis? Pergunto.
“Leis digitais para que isso não se repita”, responde prontamente o rapaz do “Queremos Justiça”, “Seu carro está estacionado em local proibido”. Em sua página no orkut, (http://www.orkut.com/Profile.aspx?uid=2882589179675820468) o cara comemora sua vitória como uma vitória dos “internaltas” (sic).
Legalista, sim. E foi o triste saldo. Meia dúzia de gato pingado, uma só mulher presente (namorada de um manifestante, que era contra o protesto e considera Cicarelli “uma fofa”) e um estranho retrato de uma revolta política pedindo “bom exemplo”.

Assim como confundiram ingenuidade com vilania, para mim os caras entenderam tudo errado. Sua tão defendida liberdade no youtube se deve justamente à falta de leis digitais, à incompreensão e incapacidade (por ora) dos juristas legislarem sobre o assunto. Queriam boicotar os produtos que a musa anuncia e agora querem fazer dela sua garota propaganda. Tão autoritários que foram pedindo sua cabeça, que fizeram do algoz, a vítima. E, mesmo sem sabedoria, Cicarelli vence. Mtv vence também, já que vai usar os caras em um programa a ser produzido sobre a polêmica.
Os garotos posam para as fotos dos cínicos jornalistas (como eu) que há pouco riam deles, lamentando o sábado perdido. E se enchem de orgulho ao dizer que “isso não acabou” – vão esperar Cicarelli e MTV honrar sua palavra.
Honra… fica aqui a palavra vazia.
trio calafrio
O triunvirato da manifestação, agora em busca de “leis digitais”

Enquanto a MTV arrebanhava os caras para uma sessão de entrevistas com os manifestantes, pra mim acabou. Voltei pra casa à pé para encontrar minha amada subindo as escadas com sacolas de compra e cara de brava.
– Você me enrolou… demorou muito…
Ora… bolas, a ficha caiu.
Quem sou eu pra falar alguma coisa dos molques? Pior mesmo sou eu, com uma mulher formidável me esperando, gastar meu sábado por conta de uma bobagem dessas. Mas não todo o sábado…

Moral da história (à moda de Millôr Fernandes): Sexo não é tudo. Tudo é a falta de sexo.

(NOTA DA REDAÇÃO: Cacete. Acabei de contatar aqui no wordpress que esse texto foi, precisamente, o centésimo post mais lido do wordpress.com no mundo neste domingo. Acho bizarro, de verdade)