Mais uma partida

xeque

Uma queda de seis horas.
Seis horas acelerando livre, sem ver o solo. Só dois pontos azuis, piscando na minha frente, e meu corpo ficando mole e pesado.
É mort anunciada, nada petit.
Uma queda de seis horas, com um pé chumbado no chão, o outro inquieto no piso quadriculado. E ela ali… bebendo devagar.
Ela ria e ria e ria. E sua cara aumenta tanto quando ri. Ela ri toda, ela chacoalha quando ri. Ela tem um cabelo curto e infinito de tantas curvas lentas. E o cabelo também ri. Ela tem uma gargalhada em staccato, de todos os tons.
A gargalhada ganha volume enquanto os copos secam. Meu ego duro e calejado de amor e sexo cínico depõe as armas. Agora não sou nada – e me sinto mais vivo.
Ela fala e ouve tudo. Não falsifica nada, não inventa nada, não olha de lado. Ela olha de frente, olha reta e não procura ninguém nas outras mesas. É absolutamente linda. Linda por fora e em torno, nos cantos, nos vincos e nas dobras finíssimas dos anos e das rugas de alegria. Linda e não tem medo nem orgulho de ser a mulher mais linda que sabe rir com o corpo todo. Ela nunca tem medo quando ri.
Então, ela pára de rir. Para chorar.
Acabou.
Eu não existo – estou vivo.
O choro zuniu. Uma foice no intestino do canalha que caiu morto de mim e escorreu para fora do bar. Ela chora e não olha para o lado. Olha pra frente. Os pontos azuis minavam água para que eu afundasse depois da queda de seis horas. Fim. Estou morto. Só sirvo para vestir essa mulher… quero arrancar os ossos, minhas carnes e virar um casaco para ela.

__________________________

Há um ano e quinze dias escrevi o texto acima. Dois dias depois nos beijamos. Onze meses depois nos casamos. Durante o eclipse de sábado, acabou.
Eu já conhecia tudo naquele rosto grande, cada agudo súbito da voz linda, o cheiro de cada canto dela. Eu tive tudo…
Acabou no eclipse, senhoras, acabou. Em quinze minutos os olhos dela não eram os mesmos, miravam o lado, incrédulos no texto sem alma, nas palavras sem amor. Nossa sala estava tétrica e seus cabelos eram cachos da Medusa. Meu ego fuçava todo seu paiol enquanto os olhos minavam a água que me emergiu desse ano lindo.
Atirei uma garrafa no chão. Ela gritava enquanto água passeava lenta pelo piso. Chutei o globo terrestre que reformei para ela no natal. Partiu-se contra a parede, dividindo em dois cada oceano. Ela gritou enquanto eu descia as escadas, abandonando fria minha mulher, catando nos degraus meus ossos, minhas carnes para me dar conta de que estava morto. Viver, agora, requer um parto.

Sim, senhoras, vou sumir daqui uns tempos. Vou à Recife ver o mundo começar.
Aposto que volto. Aposto que vivo.

7 Respostas to “Mais uma partida”

  1. tina oiticica harris Says:

    Lamento, se a estória é um relato pessoal. Sempre é desagradável, doloroso o fim.
    Claro que você sobrevive. Sobrevivemos todos. É pra isso que estamos aqui.

  2. eva Says:

    aposto que sim.

  3. Mandrião Says:

    Muito se louvou a arte do encontro, mas poucos louvaram a arte do adeus. No entanto, não há gesto tão profundamente humano quanto uma despedida. O momento em que renunciamos não apenas à pessoa amada, mas a nós mesmos… morrer um pouco pra se continuar vivendo.

  4. Carla Says:

    Certeza de que não é a melhor coisa a se dizer no momento, mas isto é lindo.

  5. doho Says:

    isso é muito lindo. é no estômago.
    senti medo de perder minha mulher.

  6. paula Says:

    ô moço.. também aposto que sim. vais mesmo à Recife?

  7. Ollie Says:

    Aposto que sim com moeda Britânica.

    E se Recife não der certo, temos um quarto livre em Londres. Seria muito bom te ver novamente.

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