Sonho lúcido

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Terence Mckeena, o cara aí em cima, morreu. Lamentável. Um câncer tomou seu cérebro, justamente o cérebro, que era o território desse explorador, verdadeiro Colombo da mente humana.
Estou acabando de ler seu livro “Food of the Gods”. Como disse meu chapa Arthur “Condorcito” Veríssimo, trata-se de uma bíblia da consciência. Sua visão sobre alucinógenos e evolução, sobre repressão e ignorância, sobre natureza e humanidade… uma tese praticamente incontestável de que o cérebro humano é rico demais para ser tratado de maneira sóbria e receosa. E que apenas a alteração de sinapses e mecanismos mentais pode calibrar nossos sentidos para entender ( e não delirar) que o mundo é bem mais vivo e profundo do que a vida que entendemos na TV.
Terence tomou de tudo. E basta lê-lo para ver que só lhe fez mais lúcido. Tem a ver com uma frase perfeita sua na entrevista a seguir: “Drogas não são confortáveis, e qualquer um que pense que elas são uma forma de conforto ou escapismo não deveria tomá-las até que tenham coragem de lidar com as coisas como elas realmente são.”

Não tive a chance de saber de Terence antes de sua morte. E atrás de mais palavras suas, me deparei com essa entrevista para o site Horizonte Vertical. Não achei o crédito do jornalista,  e peço desculpas por republicar aqui. Mas o autor vai entender. Lições como as de mr. McKenna não podem ficam nas sombras enquanto o coro dos manés vocifera contra a MALDIÇÂO DAS DROGAS.

Fudeus tem o orgulho de dar a palavra a Terence McKeena. Boa viagem.

Para que servem suas pesquisas com substâncias psicodélicas?
MCKENNA: É uma tragédia pensar que alguém pode ir para o caixão ignorante das possibilidades da vida. E faço analogia com o sexo. Poucas pessoas podem evitar, em suas vidas, uma experiência de natureza sexual, já que sexo é uma das informações de que a condição humana dispõe. Sexo é um grande prazer, sexo liberta. Detesto pensar que alguém pode morrer sem experimentar sexo! O mesmo acontece com a experiência psicodélica. Ela é parte legítima da condição humana. Ela disponibiliza uma infinidade de informações fundamentais que perdemos quando o homem passou a se distanciar da natureza.

“Food of the Gods” liga DMT à psilocibina. Qual a relação?
MCKENNA: A psilocibina (presente em alguns cogumelos e no LSD) e o DMT são quimicamente da mesma família. Meu livro é sobre a história das drogas; mostra o impacto cultural e o poder de desenhar a personalidade que elas possuem. As pessoas têm tentado, sem sucesso, responder como nossas mentes e consciências podem derivar do macaco. Já formularam todo o tipo de teoria sobre isso, mas para mim a chave que destranca este grande mistério é a presença de plantas psicoativas na dieta do homem primitivo.

PS: A um tempo atrás eu perguntei se o LSD tinha algo haver com os cogumelos e me disseram que não tinha nada a ver… então, oq me dizem? 

O que o levou a concluir isto?
MCKENNA: A teoria ortodoxa da evolução nos diz que pequenas mudanças adaptativas de uma espécie acabam sendo geneticamente impressas em seu DNA. Os descendentes da espécie vão acumulando novas mudanças adaptativas, até que o conjunto de mudanças gere outra espécie. Pesquisas de laboratório mostram que a psilocibina, mesmo ingerida em quantidades muito pequenas, é capaz de imprimir mudanças em nós. Nos anos 60 Roland Fisher, do National Institute of Mental Health, deu psilocibina a voluntários, e então realizou testes oftalmológicos. Os resultados indicaram que a visão periférica aumenta quando havia psilocibina no organismo do voluntário.
Bem, o aumento da visão periférica seria de grande ajuda adaptativa para o hominídeo, pois caçavam com mais sucesso e se defendiam melhor, também!

Então aqui temos o fator químico: quando adicionado à dieta, psilocibina resultou num excelente “artefato” de sobrevivência.Quando os macacos desceram das árvores encontraram cogumelos no solo. Em pequenas quantidades aumentou sua capacidade visual periférica; em maiores quantidades, aumentou as atividades de seus sistemas nervosos centrais, que resulta em maior atividade sexual e, conseqüentemente, descendentes que carregam genes modificados pela psilocibina.

Como as informações disponíveis sobre a psilocibina sustentam sua teoria?
MCKENNA: Bem, este é o problema: a psilocibina foi descoberta em 1953, e não foi totalmente caracterizada até ser proibida, em 66. A janela de oportunidade que se abriu para estudá-la foi de apenas nove anos. Quem pesquisava a psilocibina nem sonhava que os estudos seriam proibidos pelo governo americano! Quando o LSD foi apresentado à comunidade psicoterapêutica, e uma grande esperança de estudos dos processos mentais e psicológicos se abriu, o governo suprimiu as pesquisas com drogas psicodélicas. A conseqüência disto é que a comunidade científica está capenga, pois não pôde cumprir sua missão de conhecer profundamente os mistérios da mente humana. A ignorância e o medo do governo atrapalharam o trabalho dos cientistas.

Você está dando uma enorme quantidade de poder a uma droga. O que você pode dizer sobre a psilocibina?

MCKENNA: Ainda não sabemos tudo o que a psilocibina e o DMT podem oferecer. É como quando Colombo avistou terra, e alguém disse, “Então você viu terra. Isso é importante?”, e Colombo disse, “Você não entende: este é o Novo Continente”. Então uns marinheiros, como eu, retornaram da viagem dizendo, “Não há bordas no planeta, ele é redondo. E mais: não há monstros marinhos, e sim vales, rios, cidades de ouro”. É duro de engolir, mas caso possam voltar a estudar a psilocibina, os cientistas poderão revolucionar a forma com que lidamos com o ser humano e com o universo. Nos últimos 500 anos a cultura ocidental suprimiu a idéia de inteligências desencarnadas, da presença real de espíritos. Mas trinta segundos de viagem com DMT acabam com a dúvida. Esta droga nos mostra que a cultura é um artefato, que você pode ser um psiquiatra em Nova York ou um xamã em Ioruba, mas que essas realidades são apenas convenções locais que organizam as pessoas em sociedade. A experiência com DMT é universal, pois mostra do mesmo modo, para qualquer pessoa de qualquer cultura, a legitimidade do universo espiritual.

Bem, mas a cultura nos dá alguma coisa para fazer, Terence.
MCKENNA: Sim, mas a maior parte das pessoas acha que cultura é o que é real. A psilocibina mostra que tudo o que você sabe está errado. O mundo não está sozinho, não é tridimensional, o tempo não é linear, não existem coincidências. Existe, sim, um nexo interdimensional.

Se tudo o que sei está errado, então o que está certo?
MCKENNA: Você precisa reconstruir. É, no mínimo, uma tremenda permissão para sua imaginação. Você não tem que seguir Sartre, Jesus, ninguém. Tudo se esvai, e só o que você pensa é, “Sou apenas eu, minha mente e a Mãe Natureza”. Esta droga mostra que o que existe do outro lado é uma impressionantemente real forma de vida auto-consistente, um mundo que permanece o mesmo toda vez que você o visita.

E o que está lá nos esperando? Quem?
MCKENNA: Você cai num espaço. De alguma forma, você pode dizer que é subterrâneo. Existe uma sensação de enclausuramento, mas ao mesmo tempo o espaço é amplo, aberto, caloroso, confortável de uma forma muito sensual, material. Há entidades totalmente formadas, não há dúvidas de que essas entidades estão lá. Enquanto isso você diz, “Batimentos cardíacos? Normais. Pulso? Normal.” Mas sua mente está dizendo, “Não, eu devo ter morrido, é muito radical, muito, muito radical. Não é a droga, drogas não fazem coisas assim”, e você continua vendo o que está vendo. A droga nos tenta revelar qual a verdadeira natureza do jogo. Que a dita realidade é uma ilusão teatral. Então você quer encontrar seu caminho até o diretor que produz a realidade, e discutir com ele o que acontecerá na próxima cena.

Você dedicou boa parte de sua vida no mapeamento do DMT e da psilocibina. Como você os interpretaria?
MCKENNA: Estas substâncias podem dissolver numa única viagem toda a sua programação mental até então. Elas te levam de volta à verdade do organismo – a que diz que idioma, condicionamento e comportamento são totalmente desenhados para mascarar. Uma vez dopado, você renasce para fora do envelope da cultura. Você chega literalmente nu neste novo lugar.

 Você acha que realmente existe algo como uma “bad trip”?
MCKENNA: Uma viagem que acaba te fazendo aprender mais rápido do que você quer é o que as pessoas chamam de bad trip. A maior parte das pessoas tenta dosar o aprendizado inerente às drogas, mas às vezes a droga libera mais informação do que você é capaz de aprender. Para piorar, a mensagem pode ser, “Você trata mal as pessoas!”, e ninguém quer escutar isso.

Como você pode defender as drogas com tanto entusiasmo quando elas estão associadas a tanto sofrimento e caos?
MCKENNA: Nós deveríamos falar da palavra êxtase. Em nosso mundo, comandado pela Madison Avenue, êxtase é aquilo que você sente quando compra uma Mercedes e pode bancá-la. Mas este não é o significado certo. Êxtase é uma emoção complexa que contém elementos de medo, triunfo, empatia e pavor. O que substituiu nosso pré-histórico conceito do êxtase é a palavra “conforto”, uma idéia tremendamente asséptica, letárgica. Drogas não são confortáveis, e qualquer um que pense que elas são uma forma de conforto ou escapismo não deveria tomá-las até que tenham coragem de lidar com as coisas como elas realmente são.

Que tipo de pessoas não deveria tomar drogas?
MCKENNA: Pessoas mentalmente instáveis, sob enorme pressão, ou operando equipamentos dos quais dependem as vidas de outros seres humanos. Ou pessoas frágeis, ingênuas, superprotegidas. Algumas pessoas foram tão estragadas pela vida que a dissolução de amarras não é boa para elas. Essas pessoas deveriam ser cuidadas com carinho, e não encorajadas a arrebatar limites. Se por fatores genéticos, culturais ou psicológicos as drogas não são para você, então não são para você. Não estou pedindo para que todas as pessoas tomem drogas, mas acredito que assim como uma mulher deve estar livre para controlar sua fertilidade, uma pessoa deveria estar livre para controlar sua própria mente.

Todos deveriam ser livres para tomar o que quisessem, e estar bem informados sobre o que cada opção envolve. Exatamente como acontece com educação sexual. Hoje a forma com que lidamos com informações sobre drogas é a mesma como fazíamos nos anos trinta com sexo. Você aprendia através de rumores! Então as pessoas acabam tendo idéias absurdas sobre as coisas.

Onde está sua esperança?
MCKENNA: Está na psicologia e nos jovens. Eles têm o que nunca tivemos: pessoas mais velhas que já tiveram experiências psicodélicas. O LSD tomou, e ainda toma, de assalto nossa sociedade. Dois estudantes de bioquímica podem fazer um pequeno laboratório móvel e produzir, num final de semana, de 5 a 10 milhões de doses de ácido para distribuir em papel pelo mundo. Esta facilidade e discrição criou uma pirâmide de atividade criminal de tanta potência que o governo reage como se um revólver estivesse apontado para sua cabeça. O que, no fundo, é verdade! A estratégia certa é subversão, atenção e discreto não-conformismo contra o tédio e a opressão do mundo.

Terence, meu amigo, existe alguma coisa que o deixa com medo?
MCKENNA: Loucura. As pessoas me perguntam, “Posso morrer tomando esta ou aquela droga?”. É a pergunta errada. Claro que sempre existe algum risco em qualquer coisa, mas o que é realmente perigoso é a sua sanidade, porque como a desconstrução da realidade é infinita, você pode se mudar para algum outro lugar. Tenho medo de não ser capaz de contextualizar essa desconstrução, me perder e não retornar à comunidade humana. Estamos tentando construir pontes, não navegar infinitamente.

Como você vê o futuro?
MCKENNA: Se a história seguir futuro adentro, será um futuro de escassez, preservação do privilégio, controle da população através do uso cada vez mais sofisticado de ideologia para acorrentar e iludir as pessoas. Estamos no limite exato. O que também potencialmente nos aguarda é uma dimensão de tanta liberdade e transcendência que, uma vez lá, viveremos de imaginação. Seremos rapidamente irreconhecíveis se comparados ao que somos hoje porque hoje somos definidos por nossas limitações: a lei da gravidade, a necessidade de comer, de ficarmos ricos. Temos o poder de nos expandir indefinidamente para o prazer, atenção, carinho e conexão. Só precisamos nos libertar e nos permitir.

20 Respostas to “Sonho lúcido”

  1. roquesanteiro Says:

    Quero minha mochila Brunildo!!!!
    🙂

  2. Anne Says:

    Oi Bruno, cadê você? Não vai postar nada novo? Agora além dos seus 8 leitores, você tem 9, contando comigo, e eu não me contento com pouco!!!
    Gosto muito de como você escreve, já te sigo faz tempo, desde alguns anos pela Trip. Tem alguns textos realmente bacanas por aqui, legal ter esse “insider look” de algumas matérias que já tinha lido.
    Marquei, e pretendo visitar com bastante frequência.
    Beijos.

  3. Laura Says:

    Posta algo novo, por favor, por favor.Às vezes estranho algumas coisas que vc escreve( muito diferente da minha realidade), mas nunca paro de ler. Muito bom!
    Beijos

  4. roquesanteiro Says:

    Olha so oque as pessoas buscam e acabam encontrando meu blog:

    trilha sonora roque santeiro 3
    quem era o lobisomem de roque santeiro 2
    resumo novela vale a pena ver de novo 2
    desemprego londres 2007 2
    roque santeiro 2
    asa branca no you tube 1
    porcina e sr. malta 1
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    Altay veloso roque santeiro 1
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    Xuxa na igreja universal 1
    novelas brasileiras anos 80 1
    xuxa frequenta igreja 1
    novela roque santeiro 1
    onde assistir os capitulos da novela Roq 1
    ROQUE SANTEIRO 1
    artistas roque santeiro 1
    banda sonora roque santeiro 1
    fotos da porcina e sr. malta de roque sa 1
    gostosos da tv 1
    todos os capitulos da novela Roque Sante 1
    QUE IGREJA XUXA FREQUENTA? 1
    banda memento mori 1
    “ROQUE SANTEIRO” 1

  5. Anne Says:

    bruno, vc ainda vive? kd vc? pq abandonou o seu blog?

  6. Laura Says:

    Sumiu!

  7. roquesanteiro Says:

    Sumiu nada. Ele ta com pregui.

  8. Laura Says:

    Se for então, com tanta mulher fazendo elogio e tal, deve ele cansou a beleza.

  9. roquesanteiro Says:

    Se a mulherada prometer mandar imagems delas nuas para ele, acho que ele se intusiasma novamente com a escrita.🙂

  10. Laura Says:

    Vai sonhando! Com tanto descaso, pra tal pedido absurdo, só mesmo muito trabalho. Substituto para respostas não-oficial do Bruno, qual seu blog? Vou ler o seu agora.

  11. Laura Says:

    Vai sonhando! Com tanto descaso, pra tal pedido absurdo, só mesmo muito trabalho. Substituto para respostas não-oficial do Bruno, qual seu blog? Vou ler o seu agora.(o outro email tava errado)

  12. Bruno Torturra Nogueira Says:

    Moças… e Oliver…
    Andei enroladíssimo com trabalhos e enroscos de diversas ordens.
    Mas logo mais, amanhã talvez, entra no ar coisa boa. Uma longa e estratosférica experiência de Ayahuasca, um relato de uma invasão à Ilha de Caras e como foi minha primeira vez em uma rave católica.

    Perdão pela demora, caros sete leitores… mas a coisa tá russa.

    beijos

  13. Laura Says:

    Tudo bem, tudo bem. Uma desculpa apareceu. Em futuro menos ocupado, dá resgatar a reportagem do salto-alto pra Tpm? Não acho mais no site de jeito nenhum( por ela cheguei aqui). Juro que te perdôo direitinho.

  14. roquesanteiro Says:

    Oi Laura,

    aqui vai o meu blog: http://roquesanteiro.wordpress.com

    E qual o seu blog (caso tenha um)?

    Atenciosamente,

    Substituto para respostas não-oficial do Bruno🙂

  15. beth Says:

    luv

  16. César L. Miguel Says:

    Gostei desse cara.

  17. Dai Says:

    Cheguei atrasada? hehe…

    Espero poder voltar e encontrar novo post.

    E quanto à tal psilocibina, estamos diante de mais uma atitude obtusa do ser humano social: se governos torcem o nariz e resistem, é porque tem coisa boa para a humanidade e tem a ver com liberdade e descobertas além Igreja e Capitalismo hehe.

    Valeu… gostei do Fudeus existe. Linkei.

    Abraço, Bruno 🙂

  18. Carolina Ih Lin Tsai Says:

    Gostei do blog, gostei desse post, diz muito do que eu também acredito.

    E você, irá comentar sobre expêriências próprias com DMT?

    Um beijo.

  19. Sonho lúcido (via Fudeus existe) | Mas divago Says:

    […] Terence Mckeena, o cara aí em cima, morreu. Lamentável. Um câncer tomou seu cérebro, justamente o cérebro, que era o território desse explorador, verdadeiro Colombo da mente humana. Estou acabando de ler seu livro "Food of the Gods". Como disse meu chapa Arthur "Condorcito" Veríssimo, trata-se de uma bíblia da consciência. Sua visão sobre alucinógenos e evolução, sobre repressão e ignorância, sobre natureza e humanidade… uma tese praticamente i … Read More […]

  20. Vinicius Marquez Says:

    Então, dá pra refutar facilmente que bad trip se refere somente a uma viagem que você aprende mais do que quer. Em experiências com dmt, e se bobear com thc também, você fica muito vulnerável a seres ruins de outras vibrações.

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