Archive for the ‘Da Reportagem Local’ Category

Fudeus existe?

março 20, 2008

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Cérebros! Cérebros!
Sim, voltei da tumba. Talvez esse blog não… Retorno de saturno veio com tudo, caros sete leitores.

Aviso rápido aos navegantes que inauguro hoje, com pompa, um blog novo na Trip. Clica aqui. Deporter é o nome. Novidades realmente nobres por lá, onde pretendo tratar de viagens de todos os tipos. Blasfêmias e remorsos estão em pause. Mas aqui mesmo em Fudeus, nos próximos dias posto um desabafo final. Meu mais do que querido avô morreu há pouco tempo. Foi a pior semana da minha vida. Assim que passou a tormenta, uma onda de sorte me pegou de jeito. Explico: estou na Suíça, em Basel, para cobrir um evento fabuloso e conhecer um dos meus heróis. Dr. Albert Hoffman. Não apenas isso… a coisa vai longe.
Tudo eu explico no blog novo. Agora com esse picareta que vos tecla em vídeo também, reportando in loco.

até breve
BTN

http://www.trip.com.br/blogs/deporter

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Subi, e daí?

dezembro 28, 2007

Fui a Londres pela primeira vez, na conta da revista Trip, para encontrar um sujeito que há muito estava em minhas pautas. Mark Shuttleworth. Criador e financiador do Ubuntu, melhor e mais promissor sotware livre, a maior ameaça ao Windows. E, detalhe besta, o primeiro astronauta africano…

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Depois que voltou do espaço, Mark Shuttleworth fez vasectomia. “Tchufff”, ele diz, erguendo os dedos e imitando uma tesourinha. É que, lá dentro da nave russa, Mark contemplou o óbvio: a Terra é azul, mas a coisa tá preta. Tem gente demais no mundo, sete bilhões. São mais humanos do que dólares em sua conta. Ele tem tantos dólares quanto, digamos, chineses na China. E o rapaz não quer transformar sua fabulosa fortuna em herança. Não teve nem terá filhos. Pé no chão que é, prefere gastar seu cofre em um legado. Vai ver que é por isso que, apesar de bilionário, 34 anos, boa aparência, muito inteligente e promissor, more sozinho em um apê de um quarto.
Sala, copa e cozinha conjugadas, no primeiro andar de um prédio antigo, sobre uma loja da Ralph Lauren. Apartamento lindo, diga-se, amplo, em um dos melhores bairros de Londres. Onde, ao abrir a porta da frente, contempla-se sobre a mesa um monitor da Apple de 24 polegadas. Seu computador não usa Windows, nem o OS do Mac. Roda com Ubuntu. E Mark trabalha nesse software todos os dias para que você, leitor, logo trabalhe nele também. “Quanto custa o programa?”, você pergunta. Nada. Sua empresa dá softwares.
Como em toda vida que dá biografia, o destino tem surtos de ficção barata: Mark nasceu do lado de uma mina de ouro. Isso em 1973, na jovem cidade de Wekton. Lugar criado só para explorar as formidáveis reservas auríferas do centro sulafricano. Mas seus pais, em vez de tirarem ouro, davam aulas. Mark agradece a educação de primeira, pois o gosto pelo estudo deu na idéia que tilintou meio bilhão de dólares aos seus 26 anos de idade. Como todo bom dono de biografia, era “o cara certo na hora certa”, aspas dele:
“Estudei finanças e tecnologia na Universidade da Cidade do Cabo. Mas o que me interessou mesmo foi a internet, isso em 1992. E, na época de estudante, eu era pobre, precisava fazer dinheiro, comecei a ensinar empresas da região a se conectarem na rede. Logo vi que certificados digitais, protocolos de segurança, criptologia eram uma oportunidade boa.Montei uma empresa disso, sozinho. E por muito tempo não tive como contratar mais ninguém.” Eis o homem certo.
Eis a hora certa: 1999. Mark já tinha poucos funcionários e tratava de trabalhar muito vendendo algoritmos para redes cada vez maiores e complexas. Antes de a bolha estourar, a VeriSign, responsável inclusive pela segurança do Hotmail (então o maior serviço de e-mail do mundo), começou a fazer a rapa nos protocolos de segurança, digamos, “independentes”. O de Mark era bem popular, o mais usado no mundo “fora dos EUA”. Chamaram-no de lado e vieram com a oferta: US$ 500 milhões, topa? Ah, topou.
Veja, ele consulta o saldo e está lá: qui-nhen-tos mi-lhões de dó-la-res. No fervor de seus 26 anos, Mark não teve tempo nem de descobrir o vazio dos excessos. Quinhentos milhões mais rico, ele se viu… frustrado. Vai, desabafa: “Vendi a infra-estrutura que tinha para executar novas idéias. Me vi, de repente, muito rico e sozinho. Então tive que passar por um processo difícil de pensar com muito cuidado no que eu queria fazer em seguida. Claro que eu tinha dinheiro para construir coisas do zero. Mas dinheiro não resolve o maior problema, que é responder à pergunta: o que eu quero criar?”.
Foi quando teve ele próprio seus arroubos de ficção barata. Lembrou-se da infância, de que queria ser um astronauta. Manteve 480 milhões na conta e foi pro espaço pensar no que fazer com o saldo. Foi o segundo “homem comum” a comprar seu ticket para o vácuo. Além da grana, a façanha lhe custou um ano inteiro. Tempo em que seus infinitos níqueis ficaram bem investidos, rendendo juros. Ele explica: “Fui morar na Rússia, tive que aprender a língua e treinar muito para agüentar. Ir para o espaço não é exatamente subir na nave, entende? E, tanto quanto a jornada em si, morar na Rússia mudou minha vida”.

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Turista espacial também trampa. Shuttleworth tabula dados sobre bactérias em gravidade zero

Russos, fuselagens, gente com sorrisos largos e uniformes de astronauta. Fotos assim alinham-se nas paredes do apartamento. Quase todas ele mesmo fez. Menos as dele flutuando com a bandeira da África do Sul, flutuando mexendo em laptop, flutuando simplesmente. Dez dias no espaço depois do ano de treino. Regressou uma celebridade continental, como “o primeiro africano no espaço”. Desfilou em carro aberto, conheceu o presidente, inspirou uma canção, virou exemplo para crianças, que, certamente, sonharam em ser astronautas. Ele tem pressa para acabar a entrevista. Sua esteira rolante do quarto aguarda. Em uma hora Mark vai correr em falso, vestindo uma roupa justa esportiva, ao som de um soft jazz. Vai correr mais tempo do que se fosse na carreira ao seu escritório, a 5 km de onde mora. Se fosse correndo, Mark veria muitos legados. Estátuas de Churchill, Ricardo Coração de Leão, duques e lordes. Construtores de impérios. Mas esse tipo de nobreza não é pra ele. Mark está acima disso, exatos 27 andares, na Millbank Tower. Não é o espaço, mas é o prédio mais alto que beira o Tâmisa. 360o de vista. Do alto de sua torre no centro de Londres, ele tem uma mesa sem sala ou divisórias. Trabalha no meio de seus funcionários. E sempre pode espiar a hora no Big Ben pela janela, e manter a pontualidade de seus exercícios. É lá que Mark comanda a pequena equipe de 30 pessoas, todas de olho em um objetivo nada modesto.
Tornar o Ubuntu o padrão dos sistemas operacionais. Na Trip 134 destrinchamos as diferenças entre software livre e software proprietário. E explicamos por que, apesar de polêmicas legais e técnicas, não há muita discussão sobre qual deles é mais democrático. O software livre tem seus códigos, as lógicas que definem suas capacidades e processos, disponíveis para que o usuário as entenda e manipule. Joga na mão de qualquer interessado com talento a chance de melhorar um programa — e fazer disso um meio de vida. Ele explica: “Digo que era o homem certo na hora certa, ok, tive sorte. Mas foi o código aberto do Linux que me permitiu deixar de ser um interessado em tecnologia para realmente participar dela”.
Enquanto Bill Gates e Steve Jobs trancam seus códigos como o maior patrimônio de suas multibilionárias empresas, o Linux oferece o seu aos garotos. Foi esse desprendimento digital que deu a chance de Mark Shuttleworth fazer a fortuna. O mesmo desprendimento que o impele a gastá-la oferecendo, gratuitamente, novos códigos de um programa baseado no Linux, o tal Ubuntu. Traduzindo do dialeto sul-africano: humanidade para todos.

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Foto de Mark Shuttleworth, uma das que ocupam suas caríssimas paredes londrinas

EDUCA QUE EU GAMO
Assim como no nome de seu programa e nas paredes de seu apartamento, a África impregna seu orçamento. É no continente mais pé-rapado do mundo que ele despeja dinheiro de sua fundação totalmente dedicada à educação. Vai, Mark: “Financio projetos que, de alguma forma, estão dando certo ou pelos quais eu me interesso particularmente. Era para ser uma coisa global, mas acabei me concentrando mais na África. Minha idéia é reduzir ao máximo o tempo de implantação e aumentar o alcance de boas idéias educacionais. E tentar transformar essas idéias em negócios para as pessoas”. Mais do que filantropia, ou a redenção pré-paga que milionários buscam soltando cheques em ONGs, a generosidade de Mark Shuttleworth parece ser parte de um plano muito ambicioso. Um plano de vôo bem alto, em que o dinheiro não passa de combustível.
Algo difícil de ser traduzido com uma meta, mas que se revela em respostas sábias para perguntas bestas.
Você acha possível ganhar esse tipo de dinheiro hoje em dia, depois de a bolha da internet ter estourado?
“Eu não fazia a menor idéia que tinha dinheiro esperando por mim. O que é importante entender é que o mundo não pára de mudar. A história é feita disso. Se você entender como ele está mudando, e entender que cada mudança cria oportunidades, e saber onde colocar seus esforços, você pode fazer fortuna. Hoje seria muito difícil ganhar dinheiro rápido na internet ou fazendo estradas. São negócios entendidos, consolidados. Mas, se um mercado está em rápida transformação, é possível fazer fortuna rápido. Se você tiver um insight melhor, se conseguir ver adiante um pouco melhor, então você tem a chance de criar muito dinheiro. Mas buscar fortuna é uma maneira muito errada de pensar na vida. Se o objetivo for apenas ganhar dinheiro você vai se ver muito infeliz e entediado. Para mim um jeito melhor de definir a vida é perseguir as coisas que te interessam. Para mim sempre foi tecnologia e mudanças. O que também, por sorte, me fez muito rico. Então o que me interessa é entender o mundo através das mudanças. E, agora que eu tenho dinheiro, em provocar mudanças também.”
Mark entra no dialeto da tecnologia e no discurso que repetirá por toda a conversa, o de criar oportunidades para mais e mais pessoas erguerem idéias para uma vida digital mais rica, e criar caminhos mais largos para o futuro. Um futuro, acredita ele piamente, melhor do que o presente. Com uma séria ressalva que tem a ver, justamente, com sua esterilização voluntária. Mark profetiza:
“Estamos indo para um lugar melhor, mas haverá tempos muito dolorosos. Se tenho alguma visão sombria sobre o futuro é a de que tem gente demais no mundo. É uma coisa muito difícil e muito horrível de dizer. Mas quando se olha a Terra de cima [Mark aponta para a foto na parede, uma das que fez do planeta Terra] é claro. Nós falamos em reduzir nosso impacto na Terra com pequenas ações, reduzir emissões etc. Acontece que a população deve e vai ser reduzida, necessariamente… É terrível dizer isso, eu sei, mas é verdade”. Isso, dito da boca de um homem cuja verve parece toda depositada em pensar o futuro próximo, deve ser levado a sério.
Ele pede para encerrar, a esteira o espera. Mais uma pergunta, é tudo que oferece. Bem… a pauta é longa. Mas, noves fora:
Você é feliz?
“Não. Sou infeliz. Não sou um coitado nem tenho uma vida horrível. Agora, só porque tenho dinheiro devo ser feliz? Se eu fosse feliz não trabalharia, ficaria sentado sendo feliz o tempo todo. Claro que gosto de prazer, gosto de lugares remotos, gosto de snowboard… Mas muita coisa no mundo me faz infeliz. Softwares pagos. Miséria. Gente sofrendo… Isso me deixa bem infeliz.”

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Bem… infeliz ou não ele foi pra esteira e o soft jazz ecoa pelo apê. Agora é só uma questão de tempo… tempo para saber se seu Ubuntu vai dominar os desktops. Tempo para seus infinitos níqueis educarem africanos carentes, para o turismo espacial servir a muito mais — e menos ricos — seres humanos. Tempo para que muita gente padeça e o mundo desafogue. E bastante tempo para que o dinheiro de Mark pare de reverberar.
Vai deixar tudo em mãos bem-intencionadas. Sem herdeiros, ou herança, ele sabe o que espera da morte: “Meu ideal é morrer com dinheiro apenas para o funeral”. Curioso, vejam só. O jovem bilionário, generoso e idealista, inegavelmente um vencedor, quer que sua partida acabe em um estratosférico e afortunado… 0 a 0.

Infanto Genial

novembro 30, 2007

Arejando tão mofado blog, recomendo aqui, entusiasmado, uma descoberta de hoje. O programa infantil Yo Gabba Gabba. Sério, genial.
Baseado na premissa simples de fazer crianças dançarem descontroladas, criam canções bobas de tudo, educativas na medida, com uma produção maravilhosa. Melhores singles do que 97% das paradas globais.
Aqui ofereço 3 párolas:
“Party in my Tummy”, onde o mostro verde e feioso Brobee canta e desliza em um batidão sobre uma festa digestiva em seu estômago. Atenção para o choro das cenouras.

 Outro é um dos quadros recorrentes, “Biz Beat of the Day”. O mareado gangsta rapper bufão ensina a cada episódio um Beat Box novo para os petizes.

Por último, um clipe de animação singelo e brilhante explicando o que é uma família. Composição e gravação do grupo Low. Ao contrário do que pensa a Globo, é perfeitamente possível ser infantil sem ser retardado.

Sem vergonha no Tennessee

novembro 9, 2007

Senhoras e senhores,
devo desculpas pela demora, mas há um bom motivo: estou enfiado em trabalho e tentando gastar meus dedos em textos para o papel.
E hoje, em vez de um post novo ou de uma requentada matéria, vou anunciar que Fudeus agora tem um podcast. Uma parceria na verdade, com o chapa Filipe Luna e a Radiola Urbana.
Apenas canções de amor, descaradas e de metáforas baratas. Uns chamariam de cafonas, mas esses não tem coração. Eu as chamo de sem vergonha. Sem vergonha no sentido mais amplo… sem vergonha de admitir um coração partido, um corno, uma paixão proibida ou simplesmente de sair a plenos pulmões contando que topou com a alma gemea.

Eis o link do primeiro “Amor Sem Vergonha”: http://www.radiolaurbana.com.br/index.asp?Fuseaction=Conteudo&ParentID=9&Menu=16&Materia=1631

E para quem acha que estou fazendo corpo mole e cansei de escrever, comunico que estou teclando apressadíssimo em um hotel de beira de estrada no interior do Tennessee, sul dos EUA. A minha vista é uma caixa d’agua com uma cruz em cima. Por todo lado há uma igrejinha para praise the lord. E campos de algodão, os mesmos de que tanto ouvi falar nos meus blues favoritos.
Há dias estou acompanhando Gui Pádua em sua tentativa de quebrar o recorde mundial de tempo em queda livre. Ele quer ser o homem que passou mais tempo voando na história. E eu, amanhã, subirei com ele a 30.000 pés. Quase vácuo, -45 graus celsius. Ele vai cair por quase 5 minutos. Depois será minha vez. Vou saltar, pela primeira vez na minha vida, de 15.000 pés. Na próxima Trip eu vou contar tudo em detalhes.
Então, senhoras e senhores, torçam por Gui, por mim e, amanhã ao menos, espero que Fudeus não exista. Deus sim, Deus sim…

Pé de Guerra

setembro 26, 2007

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A entrevista que republico aqui é do começo de 2005. Importante manter isso em mente para quem tiver fôlego. De lá pra cá muito sangue passou debaixo da ponte. Mas as recentes crises no Iraque envolvendo as empresas de segurança terceirizadas (eufemismo para mercenários) me fizeram lembrar da conversa que tive com o gentil Luiz Augusto Branco.
Naquele ano eu estava especialmente perturbado com a invasão ao Iraque. Fora as mentiras e a atrocidade toda, para mim estava claro que um novo mundo se desenharia a partir de Bagdá. A Veja bradava que “não era nenhum vietnã”. Para mim era pior. O terrorismo islâmico e o terrorismo de Estado ganhariam força, a democracia virou a bandeira do facismo. Era 2005, mas parecia 1984.
Eu estava atrás justamente de brasileiros que ganhavam dinheiro dando tiros para americanos. Eu estava pronto para denunciar, apontá-los como gente sem coração. Quando notas isoladas em jornais sobre Luiz, um “mercenário” que sofreu um ataque de um carro bomba. Deu trabalho achar o cara. Falei com sua mãe, mandei carta, consegui o telefone e o ok para uma conversa sem compromisso. Quando me passou o endereço… estava a três quarteirões da minha mesa. O encontrei de cama na sala de casa, ainda incapaz de caminhar, cheio de cicatrizes de estilhaços no rosto. E um olhar tranquilo.
Eu deitei minhas armas. Luiz é um homem de paz autêntico, com um currículo aparentemente violento. Uma mente culta e inteligente, piedosa e espiritual, ciente das mentiras em que se envolveu e de seu papel de protetor.
Prefiro não continuar a descrevê-lo,  já que a entrevista que fiz para a Trip vão cuidar de desenhar melhor o sujeito. O texto de abertura não me orgulha especialmente. Faria outro hoje, certamente. Ainda assim é honesto com a época em que foi escrito.

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Luiz Augusto Branco estava no banco de trás de um carro blindado, voltando do aeroporto de Bagdá, olhando um automóvel que passava ao lado, quando um clarão pardo tomou toda a sua vista. Um estrondo tão violento que nem barulho fez. O próprio som sumiu. A próxima coisa que sentiu foi a água e a lama de uma poça. Se deu conta de que o veículo que trafegava lentamente a seu lado na pista da direita era um carro bomba.

Suas pernas estavam moídas, imersas na lama, o fêmur exposto. Mas nos 20 minutos seguintes, antes do socorro do exército americano chegar, ele não pensava em seus pais em São José do Rio Preto [SP], nem nos amigos que fez quando trabalhava na Rota ou na missão de paz que integrou no Timor Leste. Não pensava em sua noiva australiana, em Deus nem na dor dos músculos rompidos e dos ossos quebrados das pernas e mãos. Luiz Augusto Branco só queria saber onde diabos estava sua pistola. Tinha que se preparar para um previsível ataque secundário dos insurgentes iraquianos que, sem dúvida, viam em homens como ele inimigos.

 

Desde que o primeiro míssil Tomahawk atingiu Bagdá em 20 de março de 2003, matando Ahmad Al-Bath, um taxista jordaniano, a Guerra do Iraque já custou a vida de mais de 100 mil pessoas. A maioria esmagadora são civis iraquianos. E a cifra ainda vai longe. Em recentes declarações, até a Casa Branca admite que a violência no Iraque não tem data para estancar. E não apenas lá. Dos quatro maiores parceiros dos EUA na coalizão para ocupar o país [Inglaterra, Espanha, Austrália e Itália], apenas o último não foi vítima de atentado, mas está sob ameaça.

 

Se a primeira invasão militar ocidental foi devastadora e fulminante, a segunda é bem mais longa e silenciosa: a invasão corporativa. Fora as empresas babando por contratos cheios de zeros em Bagdá, 48 ONGs trabalham por lá financiadas em sua maioria pelos EUA. E estrangeiros em terras iraquianas precisam de proteção. E era aí que entrava Luiz Augusto Branco.

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O soldado Branco em Bagdá

Meu entrevistado passou um ano e meio em Bagdá, planejando e atuando na segurança de estruturas e pessoas ligadas a ONGs. Foi contratado pela Unity Resource Group, uma empresa de segurança australiana. Seu currículo ajudava. Filho de professores, o garoto pacato e bom aluno cruzou dois dos portões mais difícies do sistema educacional brasileiro – engenharia na Poli e direito no Largo do São Francisco, ambas da USP. Mas trocou o Olimpo acadêmico por outra academia menos badalada, a da Polícia Militar. E logo estava atuando na Rota, uma das mais temidas divisões da PM, patrulhando áreas violentas. Com uma carreira exemplar, se tornou policial da ONU por um ano, no período crítico da transição de poder no Timor Leste. De volta à Rota, insatisfeito com o trabalho na polícia, não pensou duas vezes quando soube de uma vaga para segurança em Bagdá. Em toda sua carreira, Branco diz que nunca disparou um tiro na rua. Ele jura que é avesso ao risco. Gosta da profissão pois está certo de que tem a vocação de “estar perto das pessoas quando elas mais precisam”.

 

Luiz viu de perto a Bagdá invadida, e está certo de que o Ocidente não entende o que acontece por lá. Apesar de ser parte assumida da tal “segunda invasão”, ele não reconhece nenhuma legitimidade na política americana e sentiu na epiderme como o terrorismo está mais forte do que nunca. Dia 16 de abril passado ele foi vítima de um carro-bomba. Sofreu graves queimaduras e sérias fraturas nas pernas e hoje passa o dia fazendo fisioterapia para tentar voltar a andar.

Branco não trouxe só dores e desgraçadas do Iraque. Foi lá que conheceu sua noiva, uma australiana que também trabalhava como segurança e que veio com ele para São Paulo. No bairro de Pinheiros, na sala de seu apartamento, cheia de livros de história e dicionários, deitado em uma cama hospitalar, abaixo de um pôster da declaração da Independência Americana que comprou na Disneyworld, Luiz Augusto Branco, 37, concedeu à Trip a seguinte entrevista, a primeira e única entrevista que deu até aqui.

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Como foi o dia em que você sofreu o atentado?
Foi em 16 de abril deste ano. A minha equipe tinha a missão de buscar passageiros que estavam chegando ao aeroporto de Bagdá. Saímos de manhã, aguardamos todos chegarem e, no intervalo entre duas e três horas da tarde, saímos do aeroporto. Eram três carros. Não tenho como me lembrar da formação deles e do tipo de carro, mas eu estava no banco de trás do segundo deles, no que foi alvo do carro bomba.O carro bomba trafegava do seu lado?
É. Não havia outros carros próximos. A gente estava passando por ele e notei que o carro se locomovia lentamente na pista da direita.

Você estava olhando pro motorista? Viu ele detonar a bomba?
Acredito que tenha sido um segundo observador, talvez alguém em um outro carro, que detonou. Porque o motorista não teve nenhuma reação, não fez nada suspeito. Quando chegamos a uns 10 metros tudo explodiu.

E como foi o instante? O que você sentiu?
Eu não ouvi a explosão. O estrondo é tão grande que houve um bloqueio do som. Simplesmente ausência total de barulho. Eu estava de óculos escuros e vi um clarão pardo, meio bege escuro. Essa cor ficou gravada na minha cabeça. Eu estava olhando para o carro e de repente me senti dentro da água. Minhas mãos estavam na lama. Levantei a cabeça e percebi que estava numa poça no meio do canteiro entre as duas pistas. Quando eu me virei para sentar percebi que as minhas pernas estavam todas bastante fraturadas. Senti a perna fora da posição, o meu fêmur tinha fratura exposta, o osso saía pra fora da calça.

Você se lembra do momento em que foi jogado para fora do carro?
O carro era blindado e ficou bastante danificado. Foi atirado uns 20 metros adiante na pista. Mas não sei de que forma eu fui jogado do carro. Não tenho idéia se ele rodou, se capotou ou o quê.

E o que você fez na hora em que se deu conta?
A primeira coisa que pensei foi que estava consciente e respirava bem. A poça era meio curta e vi minha perna saindo do outro lado. Os pés meio boiando, a perna meio solta. Aí vi que ainda conseguia mexer os pés. Percebi que as pernas estavam totalmente desalinhadas, mas ainda ligadas. Minha mão esquerda não estava respondendo muito bem. A força da explosão provocou as fraturas e também a onda de calor que me fez queimaduras no rosto e nos braços. Lembro ter ficado preocupado com a perda de sangue e com medo de perder a consciência dentro da água. Então procurei me arrastar com o cotovelo pra fora da poça. E me recostei.

E o que fez depois?
Olhei em volta e procurei minha arma. Nessas horas há o risco de ataques secundários dos insurgentes. Não achei meu fuzil, só a pistola. Então percebi que o meu pessoal, dos outros carros não atingidos, já tinha estabelecido um perímetro de segurança. Só relaxei mesmo quando chegou o exercito americano uns 20 minutos depois.

O que você pensava nesse tempo?
Eu só pensava no que estava acontecendo lá. Nesta hora a gente acaba fazendo o que estamos treinados, o “ABC”. Isto primeiro, isto depois, qual o próximo passo.

Não pensava que poderia morrer ou ficar paralítico?
É como um assalto. Tem gente que fica fria, se controla, faz pergunta para o assaltante. Tem outros que entram em pânico e tentam lutar. Na nossa atividade temos muito preparo mental, estudamos e treinamos procedimentos justamente para tirar o lado emocional na hora que acontece um acidente. São coisas que estão no subconsciente e o medo acaba ficando em segundo plano.

Como foi seu tratamento?
Passei alguns dias em Bagdá, fazendo os primeiros atendimentos no hospital militar. Fizeram um trabalho excelente. Eu estava com medo de perder as pernas, porque os cortes estavam muito profundos. Depois eu fui mandado para o Kuwait. Não senti confiança para ficar naquele hospital e logo voltei para fazer o tratamento no Brasil.

E seus pais, como ficaram sabendo?
Foi um pânico, não tem um jeito bom de dar uma noticia dessa. Minha noiva me acompanhou o tempo todo lá, ligou para meu irmão e ele disse a meus pais. Na hora eles viajaram para o Kuwait. Não consegui evitar.

Falando nos seus pais, você deu trabalho quando criança?
Não. Nunca arranjei briga. Sempre fui bom aluno… pelo menos até entrar na faculdade. Eu terminei o colegial em Rio Preto e vim pra São Paulo fazer um ano de cursinho. Quando entrei na Faculdade de Engenharia [Poli-USP] deixei de ser bom aluno e fiquei dando cabeçada. Realmente não me encontrei no que fazia.

Você estava em crise?
É, não estava contente. Até o colegial tudo foi muito tranqüilo. E de repente eu não estava feliz. E quando eu comecei a estudar essa possibilidade da polícia eu senti um entusiasmo que eu já tinha perdido na Poli. Então eu acabei me direcionando pra isso e posso falar que deu certo, porque apesar de nunca ter sido uma carreira gostosa é uma coisa que eu faço com satisfação.

Você fez quantos anos de Poli?
Eu fiquei uns quatro anos até que saí pra entrar em Direito no Largo de São Francisco [USP]. No mesmo ano, prestei Academia do Barro Branco, para virar policial, mas só entrei no ano seguinte. Foi quando larguei a São Francisco também. Eu queria ser PM mesmo, trabalhar na rua.

Por que acha que teve essa vontade?
Eu sentia vontade de estar mais próximo das pessoas quando elas precisam, aquele momento mais extremo. Eu queria poder atender a suas emergências. O risco da profissão nunca me atraiu.

Você não tinha preconceito da polícia?
Não, apesar de ter sido criado numa família em que varias pessoas fizeram USP e eram mais voltados pra esquerda. É a velha história, você ouve muito sobre um lado só que acaba tentado a descobrir o que tem do outro, né?

Por que você optou pela Rota? Tem certeza de que o risco não te atrai mesmo?[risos] Eu acho que é um pouco da mística, de uma unidade que tinha uma moral elevadíssima. Era o policiamento que eu gostaria de fazer e era uma unidade com mais tempo para treinar e fazer uma coisa mais especializada.

E a fama de truculenta da Rota?
A gente trabalhava sempre em áreas de maior índice de criminalidade e a abordagem da Rota é um pouco mais rígida. A chegada mais agressiva acaba colaborando para a segurança porque evita qualquer tipo de reação. Eu sei que abusos acontecem, mas eu nunca vi. Agíamos dentro da lei. Porque se você dá um passo para fora da tua moldura legal, não importa o que o criminoso tenha feito, a gente acaba perdendo a razão. Tem que deixar a Justiça, por mais falha que a gente possa pensar que seja, resolver.

Você confia mais na polícia ou na Justiça?
Eu acho que há falhas no nosso sistema todo, desde como é feito o policiamento até o sistema carcerário.

Qual o maior problema da polícia brasileira?
Existir a Polícia Militar e a Civil como dois entes separados. Acaba existindo duplicidade em tudo. A gente fazia o inquérito pela PM. O delegado da Civil instala outro inquérito, faz um monte de investigações. Os dois processos vão para o Ministério Público. Então é um trabalho duplo, triplo e consome tempo e recursos. Isso é muito frustrante. Parece que a máquina não anda.

Mas você acredita na polícia? É uma instituição com credibilidade baixa.
Já ouvi muito isso dentro da polícia. É um trabalho difícil reverter essa imagem. Havia muitos comandantes dentro da polícia tentando, mas é como qualquer coisa: construir pode levar séculos; pra destruir basta uma cena gravada na TV de um policial espancando alguém num beco.

Você prendeu muita gente?
É, bastante.

O que você sentia quando prendia alguém?
Esse acabou sendo um dos fatores que me frustraram um pouco. Eu sentia muita pena de certas pessoas que eu prendia. E, no fundo, a gente não consegue evitar nem um por cento do que está acontecendo. O meu consolo é que quando a gente trabalha bem como polícia ostensiva a gente acaba evitando muito crime.

Falta polícia em São Paulo?
Não sei. Porque não é só a prevenção. É também fundamental o delinqüente saber que se ele praticar o crime a investigação vai funcionar, ele vai ser preso, o sistema carcerário vai segurá-lo e ele vai ter a justa pena para o crime que cometeu. Acho que é todo o sistema, junto com a falta de educação, oportunidade de emprego… Na polícia a gente combate muito o efeito sem combater a causa. Pode até ser o impulso de alguns policiais tentar fazer o ciclo completo de prender, julgar e punir. Isso não funciona na sociedade. Só vai criar mais uma engrenagem torta dentro da máquina.

E como que você deixou a Rota para ingressar na ONU?
Em 2000 chegou um comunicado no batalhão oferecendo vagas para policiamento da ONU na Guatemala e no Timor Leste. Era um período em que eu já estava um pouco desmotivado, começando a perder aquele gás que eu tinha antigamente, cansado de passar às vezes 18 horas na delegacia pra fazer uma apreensão de 20 gramas de maconha.

Como foi o processo de seleção?
Durante muitos meses não aconteceu nada e eu só ouvia falar: “Ah, nem pensa nisso porque já é tudo carta marcada”. Mas no começo de 2001 o negócio começou a andar. No final quatro de nós fomos selecionados.

Você chegaram lá quanto tempo antes da independência?
Mais ou menos uns dez meses antes. Era a parte mais legal da missão de paz. A época da eleição pra Assembléia Constituinte, depois a eleição pra presidente, a passagem de poder e a cerimônia de independência.

Como era sua rotina lá?
O Timor não tinha nenhuma estrutura de Estado. Todas as instituições tiveram que ser preenchidas por pessoal da ONU, depois foram sendo treinados timorenses para assumir. No começo era como o policiamento de área aqui, atendíamos qualquer tipo de ocorrência. A gente trabalhava em times de mais ou menos 15 policiais. Havia 42 países envolvidos na missão. Por causa do meu background e da minha atuação, depois de um mês e pouco fui convidado pra um grupo tático que trabalhava como a Rota.

Era arriscado?
Não, não. Sempre tem um ou outro que vai gritar que a ONU não é bem vinda, que primeiro foram invadidos por Portugal, depois pela Indonésia, agora pela ONU. Então muita gente não gostava da gente, mas não era uma coisa arriscada, comparando com o que eu estava acostumado aqui em São Paulo. Era como atuar em uma favela enorme. Brigas de grupos enormes, e eles usavam machete, lanças, quase sempre armas brancas.

Você trabalhou com o Sérgio Vieira de Mello [diplomata brasileiro morto em um atentado no Iraque em agosto de 2003] no Timor?
O tempo todo que eu trabalhei no Timor ele estava lá como enviado do escritório geral, era como um governador provisório do Timor. Mas dentro da cadeia hierárquica da missão ele estava distante de mim, os contatos que a gente teve foram breves.

Qual a função da ONU para você?
A ONU acaba atuando mais ou menos como a polícia, combatendo os efeitos. Se na África tem miséria e pobreza, a ONU vai lá para levar comida. Mas não quer dizer que você resolveu o problema da fome. Hoje a ONU está especialmente enfraquecida…Há pouco tempo ela estava aquecida moralmente. Estava no Iraque por uma década, procurando armas, fiscalizando. E, de repente, o Conselho de Segurança não autoriza uma guerra que aconteceu de qualquer forma e não há nada que se possa fazer a respeito. É claro que vai ficar essa mancha. Existe uma hegemonia tão grande dos EUA mundialmente que ninguém tem cacife pra impedir.

Você acha que alguma coisa poderia ter impedido a guerra no Iraque?
Acho que só a população americana mesmo, se eles não tivessem sido manipulados tão habilmente depois do 11 de Setembro. Era um governo que estava sendo totalmente impopular, que estava falhando de todos os lados.

Voltando… como foi seu retorno do Timor Leste e sua ida para o Iraque?
A missão na ONU como policial durou um ano. Quando venceu o prazo eu já tinha a idéia de dar baixa definitiva na PM e tentar um emprego definitivo com a ONU. Aos poucos fui me desligando da polícia. Mas eu tinha descoberto que gostava era de trabalhar como policial no exterior. Foi nesse período que um amigo meu da missão no Timor Leste mandou um e-mail avisando que estava indo para o Iraque trabalhar em uma empresa de segurança. Perguntei se tinha algum trabalho para mim por lá, mandei meu currículo e depois de duas semanas estava embarcando.

E te avisaram dos riscos?
Ah, eu sabia. Estava acompanhando as notícias, mas quando comecei a atuar a situação era bem diferente. Eram os meses depois do término das principais hostilidades da guerra, um período de calmaria. Aí começaram a surgir alguns atentados, mas ainda bem espaçados.

Como era seu cotidiano no Iraque?
Trabalhei como profissional de segurança e dava assessoria de segurança para ONGs. Nosso dia a dia era dar essa assessoria, fazer resumos para os clientes a respeito da situação de segurança e dar apoio para algumas operações.

Você trabalhava mais do que no Timor?
Ah, sim. No operacional, atuava digamos umas seis a oito horas por dia, mas você acaba o dia todo pronto para responder em caso de um ataque ao complexo onde você está morando. Então é um trabalho de 24 horas por dia e sete dias por semana.

Você se sentia estressado?
Não. Você se adapta ao nível de tensão. E com a experiência você acaba aprendendo a responder a determinados estímulos. Um tiro em Bagdá, por exemplo, é algo corriqueiro. Pessoas passando de carro e dando rajadas de fuzil não é nada especial. Às vezes são pessoas comemorando alguma coisa. Casamentos em Bagdá rendiam muito tiro. Lá todo mundo tem uma AK-47.

Dizem que o Saddam, quando viu que Bagdá seria mesmo invadida, abriu os paióis para a população se servir de armas…
Pelas informações de pessoas ligadas aos militares iraquianos não só eles abriram antes da invasão como eles tiraram simplesmente armas de bases militares e puseram em paióis subterrâneos, esparramaram munições e materiais explosivos pra serem usados posteriormente pela resistência.

Te incomoda ver que um atentado no Ocidente é uma grande notícia e atentados em Bagdá, às vezes muito mais trágicos, não são?
É que acaba caindo na normalidade. Todo dia explode um carro bomba, acaba diminuindo o interesse da imprensa. E de uns tempos pra cá, com a deterioração da segurança, muitos jornalistas simplesmente saíram de lá. A própria CNN deixou alguns representantes e eles ficavam dentro do hotel. Afetou bastante a quantidade de informação que é gerada pra imprensa mundial.

Recentemente um relatório independente divulgou que, apenas no pós-guerra, os Estados Unidos mataram dez vezes mais civis iraquianos do que nos atentados terroristas. Você acha que os EUA também são terroristas?
Na verdade são, mas depende da classificação que você vai dar pro terrorismo. Não sei se dá para chamar de Estado terrorista, mas com certeza a política externa deles acaba encorajando reações terroristas. A atuação dos EUA no Iraque com certeza causou um aumento de violência naquela região e eu não acho que eles podem acreditar que tenha diminuído a ação terrorista ao redor do mundo. Os próprios terroristas estão tentando provar isso pelo menos anualmente; um atentado em Madri, um atentado em Londres.

Os insurgentes têm bom know-how para atentados?
Ah sim, Bagdá virou hoje um centro de estudos para terroristas. É difícil que forças de segurança, sejam as forças privadas ou os exércitos dos países, detectem e combatam tudo. Os ataques são baseados em técnicas de guerrilha e de terrorismo. O pessoal ataca e some. É uma guerra muito difícil de ser ganha. Eu acho que não tem como vencer isso. O que você pode tentar é sobreviver.

Você acha que esse é o único tipo de guerra possível contra uma hegemonia tão grande?
O único jeito de você combater uma força muito desigual, e isso já foi demonstrado ao longo da história, é você não mostrar resistência frontal. Eu não digo terrorismo em si, mas a guerrilha, esse tipo de ataque de surpresa, talvez seja a única forma para combater uma situação desproporcional como essa. Mas o terrorismo em si já é uma coisa diferente, que não ataca os alvos legítimos.

Como assim?
O terrorista não ataca linhas de transmissão ou alvos estratégicos. Ele ataca todo mundo, qualquer estrago que você fizer é vantagem porque está querendo implantar a desordem e o medo. Fica fora da guerra convencional, não sei nem se dá para chamar de guerra. Mas é claro que isso fará com que toda a estrutura de combate, de informação, toda a estratégia de guerra tenha de ser repensada. Porque o inimigo não existe. É como combater o tráfico, onde não há um chefão como um poder central.

Você vê justificativa pro terrorismo?
Eu acho que eles tentam se motivar em justificativas religiosas, políticas, mas eu não posso ver como legítimo moralmente atuar contra alvos civis. Por mais que a gente não concorde com a invasão americana ao Iraque, ou com a invasão dos territórios Palestinos por Israel acho que o terrorismo não se justifica.

O terror também serve aos EUA?
Exatamente. Ele mantém o medo que conferiu toda essa popularidade pro governo Bush. Enquanto o povo americano tiver medo os EUA continuam apoiando uma ação forte.

Há quem diga que um dos grandes motivos dessa guerra era justamente jogar bombas para depois reconstruir. Uma espécie de segunda invasão. Você não fez parte desse jogo?
Com certeza a estrutura na qual atuei no Iraque fazia parte. As ONGs que eu protegia não têm fins lucrativos, mas elas consomem dinheiro dos EUA e, no final, empregam companhias que têm fins lucrativos, como as próprias companhias de segurança, comunicação e construção. No final, querendo ou não, todo mundo atua no Iraque agora e boa parte da população iraquiana está trabalhando para a estrutura dos EUA.

E você não se sente mal com isso, sendo tão contra essa política americana?
Nunca me senti mal. A ONU poderia ter dito “Bom, vocês fizeram a guerra, nós falamos pra vocês não fazerem, então o problema é de vocês”. Mas houve a guerra e aí a população precisaria de ajuda. E vieram as ONGs, e as pessoas que trabalham para as organizações de ajuda humanitária que precisam de segurança. Assim, atuei financiado pelos EUA, mas sem endossar a política externa deles. Acho que estou fazendo o serviço da mesma forma que eu fiz na ONU, no esforço pela reconstrução.

As pessoas te tratavam melhor por você ser brasileiro?
Para o insurgente, estrangeiro é estrangeiro. Não existe cristão, muçulmano ou qualquer coisa. Mas o iraquiano gosta muito de brasileiro. Aquela coisa de falar de música brasileira, de pedir discos de pagode e de samba.

Para você, que foi da Rota o que é mais perigoso: Bagdá ou Capão Redondo?
É difícil responder. Atuando no policiamento você também está em evidência, da mesma forma que um estrangeiro dentro de Bagdá. Você é um alvo em uma viatura num local que não conhece e com um inimigo que não usa uniforme. Pode sair um tiro de um beco qualquer. Eu perdi um policial no meu pelotão dessa forma. Mas atuei todos esses anos em São Paulo e não aconteceu nada grave comigo e acabei atingido em Bagdá. Apesar disso, acho que não me sentia mais inseguro lá do que eu me sentia aqui.

E você ainda me diz que você não gosta de risco?
[risos] Ainda posso dizer que não é uma sensação gostosa, a recompensa não está na adrenalina.

Onde está?
Em vencer as barreiras e evoluir profissionalmente, em concluir um trabalho, em fazer policiamento preventivo bem sucedido.

Você ganhava bem em Bagdá?
Sim. Mas não posso revelar valores por obrigações contratuais. Não é aquele valor mítico que se propaga, que eu vi na TV. Falavam em algo como 20 mil dólares por mês. Não era nada disso.

Não foi por dinheiro que você foi?
Com certeza não foi por dinheiro. O que eu pensei do começo até o fim foi naquele espírito da missão. Nunca foi tão gostoso trabalhar como no Timor. No Iraque era muito mais tenso e o tipo de serviço era mais pesado e burocrático. Ficava separado da população.

Quando a bomba estourou você se arrependeu de ter ido para o Iraque?
Não, não. Tive muitos momentos difíceis, principalmente no hospital, e muitas noites sem dormir por causa de dor. É claro que eu pensava em milhões de coisas, mas nunca “eu não devia estar lá”. No final é uma loteria. Foi Deus que quis me tirar de lá. Vai ver que era a hora de eu passar um tempo em casa.

Você é religioso?
Não freqüento igreja, mas eu acredito sim em Deus. Costumo dizer que não duvido de nada mais.

Você reza?
Rezo.

Sozinho?
Sim. Gosto de ler sobre religiões, mas eu sigo o que eu aprendi como cristão. No fim das contas, o que importa é aquilo que você sente, como você se conecta a uma coisa maior.

E você lê bastante?
Sim, gosto muito de história e política externa.

E você tem algum livro que te marcou especialmente?
Eu gosto muito de O Poder do Mito, do Joseph Campbell. Tem também o dicionário de mitologia dele. Heródoto eu achei fascinante. É o pai da história. Sempre volto aos relatos dele sobre as guerras contra os persas.O que você gosta de ouvir?
Gosto de MPB, gosto muito de ópera e de alguns compositores franceses, como Francis Cabrel e Gilbert Becaud. Música andina também acho legal.

Politicamente como se define?
Eu costumava votar mais pra esquerda. Atualmente eu me considero um cético. Eu não vejo direita, esquerda. Só queria honestidade.

Você se considera um cara feliz?
Felicidade é um estado de espírito e isso oscila. Minha vida não terminou para eu fazer um balanço, mas eu sinto que está indo bem. Eu me considero realizado e satisfeito da forma que ela está se desenvolvendo.

Você se sente em paz, então?
Sim. Eu me sinto em paz.

Inglês é Fisk 2…

setembro 4, 2007

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Continuando a série “Recicla Fudeus”, vai aqui o link para a entrevista completa que fiz com Robert Fisk na Flip. Está no site da Trip, um pouco maior do que na própria revista. 3 desvantagens: na versão impressa as fotos são mais bacanas, no site você precisa fazer um cadastro para ler até o fim (vale, é grátis) e uma publicidade mala estoura na tela a cada click (é só fechar).
Mas a razão de postar isso aqui hoje não é apenas para manter meus 6 leitores felizes. É que acabo de ler um novo artigo de Mr. Fisk no Independent (chic, escrevo de Londres) em que ele quase muda uma de suas mais fortes posições, expressa inclusive em minha entrevista. A de que o governo dos EUA não se envolveu no 11 de setembro.
Fisk é tido como um polemista, mas discordo. Seu tom inflamado e radical é apenas reflexo da realidade inflamada (literalmente) e radical da qual ele faz parte. E, pessoalmente, nunca conheci uma pessoa menos dada a polêmica. Fisk é um obcecado por fatos, dados e confirmações do que diz. Por isso é fácil para seus críticos, muito menos criteriosos, tomar certos fatos como opiniões. Polêmica, infelizmente, é a verdade. Dito isso, ao artigo…

Quando o entrevistei, Fisk foi categórico: “não acredito no envolvimento do governo dos EUA. Certamente eles sabiam que algo aconteceria, mas não em NY, não naquele dia, não nas Torres Gêmeas. Sei que muita gente quer acreditar que o Bush fez aquilo, que foi conveniente demais. Mas, desculpe, foi o Osama Bin Laden”.

Agora ele escreve: “Até eu questiono a verdade sobre o 11 de setembro”. E emenda argumentos, alguns de ordem física, para estranhar a versão americana do fato. Nada de novo, você pode dizer. Não seria se não viesse das teclas de Fisk, um sujeito que não fala nada por falar e tem fobia de especulações.

Então leia antes na Trip:
http://revistatrip.uol.com.br//158/fisk/home.htm

Depois no independent (em inglês) :
http://news.independent.co.uk/fisk/article2893860.ece

Homem é tudo igual

agosto 16, 2007

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foto de Jorge Bispo

Nas bancas esse mês, entrevista que fiz com Reynaldo Gianecchini.

Reynaldo Gianecchini tem algo de, sei lá… Vale do Rio Doce. Você lê, ou escuta o nome, e não pensa que existe um vale; e que nesse vale corre um rio; um rio que inspirou o nome doce em quem o batizou. Assim como você não pensa em um sujeito chamado Reynaldo, com ípsilon, e que o sobrenome final de seu pai era Gianecchini. Pensa em alguns predicados difundidos em larga escala pelo povo desta nação.
O Brasil não cansa de adjetivar esse nome: lindo, solteiro, ex da Marília Gabriela, pegador, vida mansa, talentoso, mau ator, sem talento, marido, sensível, alto, gay, bicurious, ator, modelo, celebridade, hétero, caso da Preta Gil, caso do filho da Marília Gabriela, caipira, fim da picada, tudo de bom, sem-sal, perfeito demais, ô, lá em casa, sou mais não sei quem. É polêmico, fato. Mas há um dado infalível, documentado em cartórios e nas estrelas: sob o signo de Escorpião, seis planetas em Libra (grifo do próprio), em 1973 nasceu na cidade de Birigüi um nenê de nome Reynaldo. E quando esse nenê fez 27 anos se tornou um famosíssimo símbolo sexual brasileiro.
Fazer o quê? Culpe o destino. Então dá uma certa pena quando o vejo posando sem vontade, todo vestido com roupas do patrocínio, cueca vermelha sobrando na calça, Emporio Armani bordado. Dá pena ao lembrar que revistas adolescentes o chamam de Rey, assim com ípsilon. Revistas femininas obcecadas por orgasmos o chamam de Giane. Dá pena de ver o povo de passagem pelo Arpoador de Ipanema acenando e berrando vez ou outra “Falou, Giane!”.
Ele reclama. Mas não se importa com o saldo. “Cada um tem o que a vida lhe reserva”, explica. Sabedoria conveniente: não dá para se culpar pelo destino. Assim, Reynaldo não pede desculpas por ser quem é. E assume o carma enquanto se prepara para a foto de capa desta edição, rubricando um contrato com cachê de seis dígitos. Seis dígitos por oito horas de trabalho, outra sessão de fotos, campanha de perfume. Sim, Reynaldo Gianecchini tem algo de Vale do Rio Doce. Uma empresa, um plano, um balanço.
Escuta: Reynaldo Gianecchini não é exatamente o Reynaldo Gianecchini. É uma vítima da sorte que reconhece ter, da fama que tritura a identidade, das mentiras que aderem ao seu nome. E da misteriosa proteção que sente desde sempre e que “fez por merecer” com muito trabalho.
Verdade. É que ele está na linha de frente da novela das sete, grava todo dia. Precisa ir à academia manter seus 34 anos na tão cobiçada forma. Estuda dança e canto para um musical que fará depois do último capítulo de Sete Pecados. Tem que cumprir tabela para divulgar a estréia de Primo Basílio, longa-metragem de que participou sob o volante de Daniel Filho. Vez ou outra agenda o tilintar de seis dígitos para uma campanha publicitária. Perde segundos, que viram minutos e horas, dando autógrafos, tirando fotos com o povo que pensa que viu uma notícia ambulante. E tem que fugir do olho público para manter alguma vida privada e sentir-se normal, um rapaz de Birigüi.
Isso em vista, parece justo que, para conseguir uma hora e 45 minutos de conversa com Reynaldo Gianecchini, tenha me custado umas 40 delas e duas idas ao Rio de Janeiro. Mas achou o tempo em uma tarde de terça-feira, em uma mesa do jardim do Instituto Moreira Salles, pertinho da sua casa. Ele fala rápido e olha pra cima, como se estivesse imaginando. É honesto para responder coisas delicadas, ainda assim pisa em ovos. É um profissional da entrevista, calejado de tanta imprensa maldosa e do interesse voraz que o Brasil tem sobre sua vida sexual.
Pode ser categórico, ou capaz de desperdiçar minutos em comentários vagos sobre dinheiro, sexo e beleza. Sabe que tudo o que diz impregna sua imagem, por isso mede palavras como quem ajusta um paletó caro, um Armani.
Ainda assim, concede à Tpm uma entrevista aberta e surpreendente o bastante para provar que Reynaldo Gianecchini, no fundo, no fundo, tem muito do Reynaldo Gianecchini.

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Esse é o texto de abertura. A entrevista você pode ler na revista Tpm que está nas bancas – ou no link abaixo, no generoso site das moças. São 10 páginas, as primeiras páginas Vermelhas que fiz para a revista. Tinha tudo para dar errado, bati e voltei no Rio, atrasei o texto em quase uma semana… mas até que deu bem certo.

http://revistatpm.uol.com.br/68/vermelhas/home.htm

Fudeus capricha

agosto 7, 2007

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Icha, icha, icha… Juiz não gosta de bicha

agosto 7, 2007

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Para quem tem algum prazer em admirar a exuberância da estupidez humana, o arquivo que ofereço aqui é uma jóia. A sentença reproduzida do Juiz Manoel Maximiliano Junqueira Filho sobre o processo movido pelo jogador Richarlysson do São Paulo.

A maioria sabe… levantou-se há mais de mês a lebre de que ele, Richarlysson, sairia do armário em rede nacional, no Fantástico. Um dirigente do Palmeiras citou o nome dele na TV, o chamando de gay. Richarlysson processou e o juiz deu seu veredito.

Diz, basicamente, que o Palmeirense não fez nada e que se o jogador for realmente gay deveria deixar o futebol. 

Destaco trechos como:”Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme seu time e inicie uma federação.”
Ou ainda: “E não se diga que essa abertura será de idêntica proporção ao que se deu quando os negros passaram a compor as equipes. Nada menos exato. Também o negro, se homossexual, deve evitar fazer parte de equipes futebolísticas de héteros. Mas o negro se desvelou-se (e em várias atividades) importantíssimo para a história do Brasil: o mais completo atacante, jamais visto, chame-se Edson Arantes do Nascimento,  e é negro.”

Bem… racista e homofóbico tem de sobra no mundo. E no judiciário não seria diferente. Agora, assinar embaixo da sentença, como representante do que a sociedade (eca) considera justo, é, pra dizer o mínimo, uma estupidez descomunal.
Sério… espia aqui o arquivo da sentença . Vale muito a pena ver até que ponto a justiça é cega. E surda, muda, entrevada, débil mental, racista, espírito de porco…

Mercado Flutuante

julho 30, 2007

No começo de 2007 passei algumas madrugadas pegando cheiro enfiado em galochas no Atacado de Pescados da Ceagesp. Pauta simples, nada de furo de reportagem, nada de bombástico. Mas uma delícia de fazer. Apenas o sutil privilégio de ter o salvo conduto, e algum cachê, para entrar em um mundo fechado. Além do privilégio, bem menos sutil, de trabalhar com Cristiano Mascaro, um dos maiores e mais simpáticos fotógrafos do Brasil. E sabiamente conservador: apenas Leica e filme Tri-X 400.

Matéria publicada com edição diferente na Trip 153, especial alimentação.

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O mercado de peixes da Ceagesp é uma ruidosa procissão circular de jalecos e galochas brancas, sob um galpão onde o cheiro impregnante é a única certeza. Todo o resto… “depende”: é a resposta favorita dos maiores peixeiros da América Latina.
A coisa começa na madrugada. É o primeiro atacado a abrir no mais importante centro de abastecimento do Brasil. Meia-noite e meia, os 65 holofotes ainda estão apagados. Só lâmpadas laterais iluminam o chão de cimento, enquanto, devagar, os primeiros pares de galochas surgem para encaixar placas de plástico, como espessas telas permeáveis. Cobrem o centro e as bordas do piso, deixam livre um corredor largo o suficiente para dois carrinhos conviverem e darem a volta no galpão.

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Não se vê uma mísera tainha. Mas uns poucos homens de caderneta em punho já circulam e cumprimentam outros, também com seus caderninhos baratos. Falam baixo, anotam números e garranchos. A venda de pescados só pode começar ao soar de uma sirene às 2 horas. Antes disso, nenhum peixe deve ser negociado. Se bem que… depende.
Um oriental passa carrancudo, coloca a caderneta no bolso do jaleco para vestir uma só luva cirúrgica. Um vendedor sentado em uma caixa vazia não resiste e apalpa a bunda do outro: “Vai fazer exame de toque, santa?”.
De certa forma, sim, ele vai. Os dois prosseguem com os homochistes e abrem as portas de um dos caminhões estacionados. Afundam as galochas no gelo picado das caçambas, espiam o que há sob os flocos e o gelado vapor. Com um canivete, o da luvinha faz um pequeno talho no rabo de um atum de 20 quilos. Enfia o dedo no furinho para sentir a consistência. Ambos tomam notas, apontam para outros atuns, apertam as mãos e voltam ao seco. Um bom cliente, o proctologista de pescados.
Hideki, comprador de peixes para alguns dos 250 restaurantes japoneses de São Paulo, três ou quatro vezes por semana pega cheiro no galpão, onde reconhece os negociantes pelo apelido. Gente como ele, bem relacionada e compadre de bons peixeiros, tem acesso à área VIP do galpão: os baús dos caminhões. Alguns dos melhores peixes daquele começo de dia já têm dono – nem serão despejados sobre as telas de plástico. São quinze para as duas.

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Proprietário de uma das mais recheadas cadernetas é Aislan, chefe da equipe do Akira Pescados. Seu pai é Akira, lendário peixeiro da Ceagesp que, após virar credor de seu patrão, cansou de ser funcionário e abriu seu próprio atacado de pescados. Mais de três décadas de galochas cansaram os pés de seu Akira, que hoje só despacha do escritório onde controla seus dez módulos (unidades de espaço no galpão) e seis barcos pesqueiros. Akira fez a vida e uma fortuna que a família prefere não revelar. Contudo, antigos clientes do velho peixeiro lembram da pitoresca cena: seu Akira descendo de um Jaguar calçando as experientes – e aromáticas – galochas brancas.
Aislan não tem 30 anos e já sabe tudo do ramo. É uma das vozes mais assertivas quando sugere o onipresente “depende”. “É igual a uma bolsa de valores. Vai de que peixe tem, quanto chegou, quanta gente quer…” Quem estabelece o preço? “Depende… Chego mais cedo, olha os caminhões, vê o que está bom…” Quem traz os peixes? “Bom, aí… depende. Os caminhões vêm do Brasil todo, são os fornecedores. Estacionam no nosso espaço e a gente vende consignado. Nossa comissão é de uns 12%, varia de acordo com o peixe, a época do ano… tudo depende.”

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Nas caixas plásticas empilhadas no miolo do mercado estão os peixes mais baratos: pescadas, tainhas, corvinas, mais comprados por feirantes e restaurantes “ocidentais”. Nas bordas, o filé: atum, espadões, garoupas, cação – favoritos de restaurantes japoneses. Um dos poucos pescados cujo preço não varia demais é o cada vez mais popular salmão. Chegam embalados em isopor, já inspecionados pela Saúde Pública. Todos vêm do Chile, indexados pelo dólar: de 19 a 21 reais o quilo.
Hoje é o atum que está fresco, farto e de preço baixo – 10 reais o quilo. Pode custar 9; em tempos de seca, vai a 25. Atuneiros, os barcos de atum, voltaram depois de dez dias no mar, congelando em gelo salgado peixes que caem vivos nos porões. Uma rede boa de arrasto custa uns 150 mil reais. Cada saída de um barco desse tipo, para mais de uma semana no mar, não sai por menos de 60 reais. Fora salários. O saldo? Adivinha…

“Depende”, elabora Gugu, vendedor da Naturo Pescados, apelidado graças à distante, porém real, semelhança com o apresentador domingueiro. Cinco toneladas é prejuízo. Vinte já é lucro bom, dependendo do peixe, da época, do mercado… A pescada custa de 3 a 9 reais e, no mar, não dá pra saber a cotação na Ceagesp. “Pesca não é criar boi, galinha, que você sabe o que esperar. Peixe é sorte e instinto”, apresenta Gugu.
E você, Gugu, tem sorte? “Rapaz… pior que não. Vê só, compro carnê do Baú há muito tempo. Outro dia fui chamado pra ir no Roda-Roda, sabe?, é o novo Roletrando. Tava com 5 mil no bolso e perdi tudo. Sabe como? Errei um nome de peixe!” Ah, vá! “Sério. Tava lá, ‘nome de peixe começando com p’. Era pirarucu e eu errei… Mas, porra, pirarucu não tem na Ceagesp!”, jura. Dia seguinte, crente que ninguém teria visto o vexame, amargou um enorme coro de “Aêêê, Gugu Pirarucu!”, alargando seu bizarro carma de ser atazanado por conta do SBT.

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Sobre as placas de plástico, começa a cair 7,5% do mercado diário de pescados no Brasil: umas 120 toneladas de peixes, crustáceos e moluscos. Outras tantas de gelo cuidarão de encharcar o piso pelas próximas seis horas. A sirene toca às 2 da manhã. Aos poucos, os holofotes esquentam. E um rotineiro e previsível caos se instala.
Cerca de 1000 pessoas: 200 comprando, 800 trabalhando. E, mesmo de jaleco e galocha branca, nem todo mundo é igual. A indumentária varia conforme a exposição ao inevitável cheiro que todos levarão aos lares. Carregadores usam toucas, avental, luvas e não pedem licença. Pregoeiros, os homens que dão preços e negociam com clientes e concorrentes, usam jalecos limpos, poucos usam bonés e não largam as cadernetas. Vendedores ficam próximos aos peixes, preferem bonés e levam na cintura um furador – um seringão para puxar de peixes graúdos um tripinha de sua carne, amostras para a avaliação dos compradores exigentes. O que, para gente como Minoru, pode ser pouco.

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Boa-praça quando explica à Trip seu trabalho, mas de cara fechada e poucas palavras na hora de apontar os peixes que quer avaliar, Minoru diz que já teve restaurante japonês, quebrou e, graças ao olhar e tato sutis, hoje vive de fornecer peixes para muitos restaurantes. “Do top ao mais rasgadeira”, explica sua clientela, que… depende, pode comprar desde peixes inteiros a postas embaladas em sua peixaria. Ele não pára a caneta na caderneta, e antes das 3 da manhã já tem mais de 300 quilos de atum reservados.
Não se vêem cédulas por ali. Como na bolsa de valores, a quitação se dá depois do pregão, na base da confiança, confirmada por garranchos, em uma saleta onde trabalham os cobradores.

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Os bloquinhos (R$ 1) e as cadernetas (R$ 2) por onde passa toda a contabilidade do mercado de peixe são vendidos na Cantina do Pescado, balcão que despeja muito café, torresmo, coxinha e calabresa para os jalecos madrugada afora. É nesse balcão que Jiro Yamada constata: “O mundo mudou e aqui nada muda”. Seu Jiro é presidente da Associação Comerciante de Atacadistas de Pescados do Estado de São Paulo e está no mercado desde o início dos anos 70. Come peixe todo dia, mas nunca, nunca pesca. “Tenho pena de matar peixe, coitado.” Ainda assim, é dos poucos que sabem números precisos de tantos cadáveres do mar.
Caderneta, fiado, gritaria, acordos verbais… “É assim há mais de 50 anos”, diz. Compara seu mercado ao de Tóquio, que visitou uma vez, quando foi ver seus filhos, que emigraram para lá. “Tudo computadorizado, limpinho, você não sente cheiro de peixe. Tá cheio de gente comprando lá de paletó e gravata.” Ele mesmo, seu Jiro, não sabe nada de computador; este ano, promete, vai fazer um curso. Duro vai ser arrumar horário: para quem pega no batente à meia-noite, tempo livre é algo deveras relativo.

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A maioria dorme pouco. Chega em casa quando a família está de saída e precisa de um longo banho antes de deitar. Com sorte, à uma da tarde estão sonhando. “A mulher acostuma com o cheiro. Só não acostuma é com as roupas”, conta Luís, carregador, 17 anos de peixe. “Tem que lavar separado, senão pega o cheiro na roupa da família toda.” Luís é conformado com o aroma crônico, prefere carregar o futum a voltar à sisuda vida de segurança particular. “Aqui a gente se diverte… é uma turma boa.”
Verdade. Se peixeiro de feira tem fama de baderneiro, imagine 800 deles juntos. Recomendação número 1: Se for mulher, evite. Se precisar, vá discreta. Ser muito bonita atrapalha. Vai escutar elogios, alguns pouco cristãos. Recomendação número 2: Se for gay, evite. Se der bandeira, nem vá. Um cobrador que prefere se manter anônimo relata: “Outro dia veio uma bicha. Começou a rebolar, falar daquele jeito… Quando viu voou uma pescada na cabeça. Logo era pedaço de gelo…”. Seu Jiro tem razão: o mundo muda, o mercado não.

Em cima de uma caixa de 10 quilos de tainha repousa um cartão bege: “Lindas garotas. Serviço de acompanhantes. Tratar com Mônica”, e um número de celular. Um senhor de vastos bigodes brancos sorri e desvira o cartão. No verso, só o nome de um comprador, uma reserva daquele lote de pescados. Todas as outras reservas estavam escritas em cartões da Mônica. É que vez ou outra aparecem no galpão algumas cortesãs, provocando aquele cardume fedorento, distribuindo cartões como aquele. Daí o risco de damas desavisadas, de saias mais justas, serem mal interpretadas nessa turba. Daí a razão de uma mulher oriental, única que deu as caras nessa madrugada, toda coberta e vestindo galocha preta, recusar-se a falar à reportagem.

Quase 4 da manhã, algo chama a atenção. Nenhuma reles mosca deu o ar da desgraça. “Mosca só aparece quando o peixe não está fresco. E em peixe congelado nem pensar”, ensina seu Jiro, que prossegue, “aliás, peixe fresco também não cheira.” Opa, e esse cheiro que a gente sente de longe? Rodrigo, dono e pregoeiro da Millenium Pescados, explica: “Não é o peixe, é a água que sobra”. Um caldo mal escoado que, apesar dos faxineiros e dos jatos ao final do batente, insiste em repousar dia após dia nos cantos e arredores do mercado.
Desde que meteu as galochas na fétida água, Rodrigo resolveu investir as economias e as madrugadas em revender peixes que os outros pescaram. Abriu sua empresa depois de ganhar uma licitação de apenas um módulo. Fundou a firma. Oito anos depois, dono de nove módulos, ainda um novato, entende bem da sujeira do lugar. “Aqui todo mundo quer te comer. Olhando, é todo mundo amigo; mas, se o concorrente puder te fuder, vai te fuder.” Como? “Depende… O cara pode comprar peixe de um caminhão acima do preço do mercado só pro fornecedor achar que você tá passando a perna nele. O concorrente toma um prejuízo em um dia, mas te tira o fornecedor bom. E quem perde peixe bom não sobrevive aqui.”

Ele ainda apanha muito – “tenho muito pra aprender aqui”, diz – mas confia na lealdade aos pescadores para se manter de pé no mercado. “Tomo preju, sabendo que vou tomar. É que se o cara que me vendeu peixe o ano todo chega aqui com um caminhão cheio, contando com um preço alto, pago e vendo mais barato, só pra não deixar ele na mão”, justifica um dos muito “dependes” de seus negócios. Pára a conversa para recepcionar um feirante interessado em um de seus cações de mais de 100 quilos. Sem cabeça, rabo e vísceras, aqueles tubarões são fatiados parecendo pedaços de borracha mole.

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A sujeira no chão cresce e já é possível derrapar em alguma corvina pisada. Um gato dá voltas, arisco, e logo toma um chega-pra-lá de um velho. Negro, de jaleco, boné e galochas brancas, instiga a atenção pelos inúmeros insultos carinhosos que inspira e pelas cartelas de bilhetes de loteria que vende. Todo dia, dos seis por semana em que o mercado funciona, ele está lá, há 25 anos. “Me chamo Antônio. Tenho 75 anos e sou casado com uma menina de 22!” – assim ele se apresenta. “Corno!”, alguém grita, passando a mão da bunda do septuagenário. “Corno nada!”, e cochicha à reportagem: “Três vezes por semana eu caio na botija!”.

Seu Antônio prossegue de pé, dando voltas na procissão que, agora às 5 e meia, vai escasseando como os peixes no mar. Todos os peixeiros confirmam que o oceano não é mais o mesmo, que há 15 anos o volume era mais que o dobro por ali, que os barcos voltavam mais cedo e não iam tão longe atrás de atuns e garoupas. Até 1990, 350 toneladas passavam pelo galpão, todo dia. Hoje são as citadas 120, arrastadas pelos carregadores dando duro, enchendo outros caminhõezinhos com as compras do dia, depois que os acertos todos foram feitos na saleta em cima da Cantina do Pescado – nem todos devidamente taxados em notas fiscais.
Os peixes da Ceagesp podem passar até uma semana no vaivém do frigorífico, e os que vão passando do prazo ganham novos contornos. Um atum que encalhou por uma semana é cortado em postas e mandado para o Nordeste do Brasil – em tese, mercado “menos exigente”, justifica Aislan, o chefe do Akira Pescados. Um peixe mais simples, uma tainha, perde a cabeça e o rabo antes de começar a feder. No dia seguinte vira o filé pronto da feira livre. Atenção, leitor fã de carne branca: peixe bom tem a cabeça no lugar.
Apesar do aviso de “Expressamente proibido fumar, comer e colocar os pés nas caixas”, é hora de muita gente escorar-se nas caixas vazias para acender um cigarrinho, tomar um café e degustar seu torresminho. O cheiro fica mais forte, apesar das narinas mais acostumadas, e uma única mosca pousa sobre uma caixa de sardinhas – uma das últimas a serem recolhidas. Os atuns voltaram para a cama mais cedo, depois os espadas, robalos, garoupas e cações. Os camarões já estão trancados em seus caminhões junto com as lulas. Nada é jogado fora. Amanhã, volta tudo para as placas, a preços que… bem… depende do que vai chegar de novo.

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Um sol cinza de chuva atravessa o galpão, e as lâmpadas laterais que permanecem acesas refletem-se no piso encharcado. Nada é jogado fora, lembra? Um casal de moradores de rua dá a última volta no cimento molhado. Vestem sandálias havaianas e catam os peixes pisados que ficaram no caminho. Seu Antônio está sentado – desistiu de vender sorte por ali.
O casal cata um camarão e encerra o pregão da madrugada. Na saída, não viram: mas quase pisaram em um siri ainda vivo, que, irritado, tenta beliscar as galochas da reportagem. Veio do fundo do mar, arrastado por uma rede implacável, atirado em um barco com milhares dos seus, enclausurado em uma caçamba, subiu a serra, foi empilhado em caixas de plásticos, oferecido aos gritos a preços que caíram ao longo das últimas seis horas, escapou de uma panela de água fervente e foi ignorado por olhares famintos. Está vivo, e agora só, no galpão da Ceagesp, a duas quadras do encontro do rio Pinheiros com o Tietê. Pensando bem, já que é o acaso quem manda nesta salgada vida, não teve sorte o tal siri? Depende…

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PESCADO CAPITAL
Números que provam que esse negócio de peixe está… frito

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Foto, também de Cristiano Mascaro, no mercado de Tóquio, de longe o maior do mundo

O mar não está pra peixe
Se continuar baseado no modelo de pesca industrial, o multibilionário mercado mundial de pescados está com os dias contados. Novas tecnologias, demanda crescente, desrespeito aos períodos de desova e a entrada maciça da China na caça aos grandes cardumes não só tornaram o modelo insustentável como reduziram sensivelmente o número de peixes no oceano. E a quantidade pescada só aumenta: são 90 milhões de toneladas por ano, a metade arrastada por barcos chineses (os japoneses ficam em terceiro lugar, atrás dos indianos). As estimativas mais pessimistas, publicadas na Science em dezembro de 2006, alertam que em menos de 20 anos a pesca global pode dobrar para 180 milhões de toneladas – um colapso de praticamente toda a população de peixes até 2050.

Rede nacional
Apesar dos 8 000 quilômetros de litoral, a pesca no Brasil não é das mais profissionais. Ou, pelo menos, não são os órgãos responsáveis. O governo Lula em seus primeiros meses criou o Ministério da Pesca. Em 2005 o ministério foi extinto e a pesca voltou a ser uma secretaria ligada ao Ministério da Agricultura. Estima-se que o Brasil pesque por ano 1,8 tonelada – levantamento do Ibama, não da secretaria. Supõe-se que existam 400 mil pescadores “artesanais” no Brasil, para subsistência e venda local. A secretaria não soube informar o número de pescadores ligados à indústria, mas avaliou o mercado em “mais ou menos 5 bilhões de reais”

Peixe Grande
O mercado de peixes de Tsukiji, Tóquio, é o maior do mundo. Responsável por 90% dos peixes consumidos na metrópole (a que mais come peixes no planeta) é também ponto turístico. E, se o Japão não é mais o maior pescador do mundo, ainda é o melhor comprador. Atuns, salmões, espadas, garoupas de alto nível (como os da foto ao lado), pescados em qualquer oceano, costumam ser desembarcados em Tsukiji para render mais em ienes. Em relação a Tóquio, a Ceagesp é uma sardinha frente a uma baleia. Em São Paulo são 120 ton./dia, na base da caderneta. Lá são 2.340 ton./dia, mais de 450 espécies e um sistema que acaba por multiplicar o preço de boas peças: leilão. Se em São Paulo um atum grande chega aos 50 quilos e no máximo 1000 reais, Tóquio já bateu o martelo em um de 200 quilos por 200 mil dólares.

Gangsta Fofa

julho 25, 2007

A desbocada mais meiga que eu já vi. Se fosse minha filha ensinaria mais palavrões.

Fisk, Fisk. Inglês é Fisk

julho 12, 2007

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Robert Fisk, depois da entrevista exclusiva a Fudeus em Paraty.

Prosseguindo com posts de auto-promoção, aviso aos leitores de Fudeus que o sujeito que vos tecla estará amanhã na TV. Em nobre companhia. Fiz parta da banca que sabatinou dois monumentais jornalistas:
Lawrence Wright, colunista da New Yorker e autor do impressionante “O Vulto das Torres”, o mais sério e apurado livro sobre a formação do pensamento islâmico radical no século 20 e a trilha de décadas que deu no 11 de setembro.
E o meu ídolo master, Mr. Robert Fisk, o maior correspondente de guerra do mundo, dono de um texto só comparável à sua coragem. O cara, ainda aos 61 anos, cobre guerra do lado das vítimas. Reporta o barulho das bombas, o zunido das balas e aponta suas armas contra governos e mentirosos de qualquer idioma. Entrevistou Osama Bin Laden 3 vezes, pra se ter uma idéia do calibre do inglês.

No Roda Viva, que vai ao ar amanhã, sexta, dia 13, meia noite e meia, fiz duas perguntas apenas, deveras tímido, deveras gago. No dia seguinte, mais tranquilo, fiz mais 56 perguntas ao sujeito em uma entrevista exclusiva, assim como a foto acima, para Fudeus Existe (a para a Trip…).

Então, pra quem não gosta do Bush:
– amanhã Roda Viva, onde você saberá se mr. Fisk acredita em Deus.
– em agosto, neste blog e na revista Trip um entrevistão de Robert Fisk.

Auto jabá

julho 11, 2007

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(ilustração de Felipe Gonzales)

“Antes de ser um intelectual, Hermano Vianna é um sorriso. Sempre um sorriso espreitando o rosto limpo de pêlos, que orna com a cabeça raspada, dando-lhe assim, sorriso e careca, um ar de monge chinês. Uma careca monástica que guarda um cérebro alérgico a idéias fixas e preconceitos, que preza a disciplina e o estudo. Monge que não se casa e não namora — por opção. Lê muito e medita muito sobre a beleza da dissolução coletiva do ego. Porém, enquanto seus hábitos o fazem monge, Hermano é refém da curiosidade que mantém sua alma mundana e planos nada humildes para um asceta.(…)”

Clica aqui para ler o entrevistão que Hermano Vianna concedeu a este nada monástico repórter, publicada na Trip de julho, nas populares Páginas Negras da revista.
70 perguntas, fotos supimpas, ilustrações formidáveis de Felipe Gonzales e idéias bem polidas na mente do back door man da cultura brasileira. A íntegra está no site da trip, mas para passar da metade tem que se cadastrar. Vale.

http://revistatrip.uol.com.br/157/negras/home.htm