Mea culpa

Let’s Talk About Sex - Angeli
Cartum de Angeli, promíscuo, asqueroso e lindo como memórias velhas

Certa vez, ficcionando a própria infância, disse para uma garota que fui uma criança tarada. O frase chegou ao fim com tamanho ar de verdade que senti estar diante de uma descoberta – de uma confissão incontinente.
A moça riu, ou fez que achou graça, e se limitou a dizer: “que bonitinho”. Eu mudaria de assunto, ou derivaria uma piada para puxar a dama pela cintura e fazer jus à tara assumida da vida adulta. Mas me enxergar com 5, 6, 7 anos afogado em pensamentos lúbricos foi irresistível.

198…4? Por aí. Tomando banho sozinho no amplo box da casa da minha avó em Santos. O piso de azulejo ensaboado e um espaço de três ou quatro metros de uma parede à outra. Eu deslizava de bruços perdido em fantasias voláteis. E arranjei ali uma daquelas irrecuperáveis cicatrizes na memória – pela primeira vez liguei a palavra tesão a algo que estava de fato sentindo.

Tinha uns 6 anos e um elaborado vocabulário sexual. Termos deduzidos das conversas dos meus pais, de seus amigos e da irresistível imprensa libertária dos anos 80: Chiclete com Banana, Planeta Diário, Casseta Popular. Sabia o significado de suruba, buceta, porra, AIDS, camisinha, brochada… tinha plena noção dos processos, acessos e líquidos. Reconhecia alguma sujeira e a conveniencia de manter esses vocábulos e revistas longe de professores e avós.

Culpa, jamais. Contudo, naquela profusão de cartuns sexuais e conceitos precoces, eu jamais me reconheci. A distância entre o requisitado pau fumengante do Leòn de Tchacara do Angeli, entre as enxarcadas xoxotas da Circo e meu pequenino pinto de 6 anos de idade era intransponível. Eu conhecia a palavra tesão, mas só naquele banho eu a encontrei para ancorar uma mini ereção e o impulso de roçá-la no azulejo ensaboado.

Sei que não existe uma unidade para medir memória, mas que falta faz. Ajudaria muito a entender o que acontece quando uma lembrança evapora. Uma palavra decantou minha cultura sexual em algo sólido, um piso para que eu pudesse andar sobre culpa, timidez e taras – até que eu soubesse descansar sobre o corpo de uma mulher. Hoje espero uma idéia que sirva de chão para alucinações e memórias. Um sentimento com nome para que o passado e o futuro não sejam como as surubas de nanquim do Angeli: impossíveis. Ou um milagre que me faça desistir de domar lembranças de vida própria; parar de roçar no presente como um cio da existência.

Explicava à dama, com chistes e frases instáveis, minha súbita angústia. A moça achou um graça louca e ficou mais linda. E acreditei que, nessas horas, qualquer confissão é louvável, mesmo as falsas. Desatei a falar, detalhei enredos de punhetas e primeiras fodas… me perdi em predicados e histórias que não sabia se eram reais. Simplesmente não importava… era tudo memória – e memória não tem lastro.
Enlacei os braços nela enquanto ríamos de uma piada fácil e nos calamos. Já estávamos nus e deitados. Foi a última trepada de uma noite que acabou mansa. Em um sono real, vazio e imenso.

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Texto meio velho, pré-matrimonial, catado num canto de HD para desejar bom carnaval aos leitores de Fudeus Existe.
Esbaldem-se e memorizem: pouco da vida vale a lembrança.

4 Respostas to “Mea culpa”

  1. Ollie Says:

    Voce tem algumas estorias sobre as moças do Vila Flora?

  2. tina oiticica Says:

    Já visitei teu blog, acho. É o blog com as fotos fodásticas da Caroline Bittencourt do show dos Mutantes, post “É Paulo” acho.

    Foi como voltar à minha pré-adolescência em um tom mais garoto. Meu lance era buscar palavras vulgares no dicionário e me regalar com as definições. Por exemplo: caixa redonda, oval, oblonga. Gostava muito de uns livrinhos mínimos de “Giselle, a espiã nuna que abalou Paris.” Era uma série e os desenhos eram sensacionais, feitos pelo Carlos Zéfiro.

    Você teve bem mais chances de iniciação mas eu descontei depois, podes crer. Rá!

  3. KAUANE Says:

    voces so nogentos e aporcados no sabem o que esto fazendo

    VAGABUNDOS

  4. BRUH Says:

    BURROS
    APORCADOS
    VAGABUNDOS
    NOGENTOS

    odiei esse site

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