Archive for março \23\UTC 2007

Instant Karma

março 23, 2007

god.jpg

“A direção da Divisão de Capturas da Polícia Interestadual (Polinter) abriu inquérito para investigar a morte de Calisto Fernandes dos Santos Filho, de 67 anos, tio do milionário da Mega Sena Renné Sena, assassinado em janeiro. Preso sob acusação de estupro, ele estava na Polinter do Grajaú (zona norte) e morreu depois de sentir-se mal na manhã de ontem.”

A história é a seguinte. Sabe o Renné Sena, que ganhou na Mega Sena, que a viúva “supostamente” mandou matar? Então, Calisto, o tio de Renné, vivia uma vida normal.
Quando seu sobrinho foi assassinado, depôs na polícia e tudo certo – álibi quente. Quando seu sigilo telefônico partiu, o delegado viu uma ligação entre a viúva de Renné Sena e a esposa de Calisto no dia do crime. O delegado chamou de novo o tal tio para umas perguntas de praxe. Só que dessa vez puxou a ficha do homem. Calisto estava foragido desde 1994. Ele havia estuprado sua filha.
O delegado prendeu Calisto, que morreu hoje, aos 67 anos, depois de 20 dias preso.

Renné Sena ganhou na Mega Sena. Renné, na origem, significa “renascido”.

Calisto fugiu depois de estuprar a filha. Calisto, na origem, significa “muito bonito”.

Depois dizem que eu tiro onda de Deus… então tá.

Garoto de 8 anos tem suas preces respondidas. “Não”, disse Deus

março 19, 2007

Deus
Deus

Há 4 anos, Carlinhos Hideki tinha um sonho encantado. Do fundo de seu coração, ele esperava que Deus, um dia, respondesse suas preces para andar de novo. Muitos duvidavam de que seu celestial desejo fosse atendido, mas o sonho se realizou no sábado passado, quando o Senhor “pessoalmente” respondeu para o garoto na cadeira de rodas com um retumbante não.

“Eu sabia que se eu rezasse o bastante, Deus me escutaria”, disse o deslumbrado Carlinhos, sentado na cadeira de rodas onde, agora, certamente vai passar o resto de seus dias. “Agora Deus me respondeu. Eu nunca estive tão feliz em minha vida, exceto antes do acidente, quando eu podia andar e correr como uma criança normal.”.

A resposta de Deus veio aproximadamente às 10 da manhã, depois de uma série de orações particularmente fervorosa do pequeno Carlinhos. Testemunhas disseram que Deus prenunciou sua resposta com uma monumental coluna de nuvens, de onde quatro gloriosos feixes de luz divina romperam juntamente com acordes das trombetas dos anjos celestes. O milagroso evento ocorreu em frente ao prédio de Fisioterapia Pediátrica do Hospital de São Patrick, na cidade de São Roque, onde Carlinhos, três vezes por semana, se submete a sessões excruciantes para a retirada de excesso de fluído de sua espinha quebrada.

Angela Romano, a enfermeira responsável do turno, disse: “Uma incrível e ressonante voz disse: ` Carlinhos, Eu sou Deus, o Senhor, que criou os rios e as montanhas, o céu e a terra, o sol, a lua e as estrelas. Meu filho, Carlinhos, Eu lhe digo isso: Ouvi suas preces, e agora responderei. Não, você não poderá sair da cadeira de rodas. Nunca.”

Carlinhos recebeu sua resposta
Carlinhos mais tranquilo depois da tão esperada resposta

Paralizado em 2003, depois de um acidente que matou seus pais, Carlinhos, hoje com 8 anos de idade, vem servindo de exemplo para os fiéis da Igreja Evangélica Deus é Amor, instituição que mantém o orfanato onde vive com sua simples e abnegada devoção. Agora que Carlinhos teve sua resposta, cristãos de todo o mundo estão celebrando a história como uma inegável prova do poder da fé.
“O Senhor respondeu as preces de um pequeno garoto que se questionava se andaria de novo. E a resposta foi não”, diz o pastor Breno Figueiras, um dos mais respeitados guias da igreja de Carlinhos. “Por muitos anos esse garotinho sofreu com a dúvida de que voltasse a andar. E agora, Deus, em sua sabedoria e misericórdia, acabou com a tormentosa questão que afligia Carlinhos. Ele pode descansar aliviado sabendo que não sairá da prisão de sua cadeira de rodas, pois esse é o desejo do Senhor. Deus seja louvado.”
Questionado sobre suas razões, Deus respondeu: “Seu coração puro e a simplicidade de suas orações Me comoveram. Nunca vi tamanha fé. Sua alma confiante, tão cheia de inocente devoção a Mim, normalmente manifesta em horas a fio de preces perguntando, ‘Deus, posso, por favor, andar de novo?’. Sua justificada indagação foi tamanha que Eu, em Minha infinita justiça, decidi dividir com ele a Verdadeira Resposta para sua repetida querela colocada diante de Mim”.

“Será feita Minha vontade”, Deus encerrou.

Testemunhas afirmam que Carlinhos implorou por alguns minutos que Deus mudasse de idéia e curasse sua vértebra partida, mas o Senhor manteve sua posição.

“Deus recomendou por fim que Carlinhos pense na possiblidade de rezar agora para outros agendes com poderes divinos, como Jesus, Maria ou algum santo top de lilnha”, afirmou o médico de Carlinhos, Dr. Romualdo Guimil. “Deus preveniu de que será um tiro no escuro, no entanto, mas que deseja sorte a Carlinhos”.

Apesar da atenção especial recebida, Carlinhos mantém sua humildade em face desse extraordinário evento, reconhecido como a primeira vez que Deus responde alguém de “corpo presente”.

“Eu sei que Deus me ama, porque está na Bíblia”, disse Carlinhos. “Então, agora, estou feliz que Ele tomou tempo para me responder. Se eu pudesse andar agora, esse seria o dia mais feliz da minha vida.”

* Artigo livremente traduzido do Jornal The Onion, a mais confiável fonte de informação dos EUA.

Trem das 11

março 12, 2007

Locomotiva

Caríssimos leitores em São Paulo,

amanhã, terça feira, dia 13 de março, tem festa boa.
De 15 em 15 dias, o onipresente Tatá Aeroplano, o insômne Gus e este prolixo que vos tecla pilotam as carrapetas da festa Locomotiva, no Studio SP, casa noturna jovial governada pelo espírito público de Alexandre Youssef.

Trata-se de uma pândega plena a preços módicos.
Emendaremos canções por horas a fio, todas perfeitamente adequadas para o bailado inconseqüente e a estimulação da lubricidade coletiva. O flyer diz: Jazz experimental, Exótica, Trilhas Pornôs, Tropicália, Samba, Ska, Afropop, Funk Latino, Minimal, Soul, Funk, Glitch.
Eu adicionaria por conta: Neo-Bolerões, Rumba´n´Bass, Gangsta Cha-Cha-Cha, Hard-Cafona e Elymar Santos.

Vá, ou arrependa-se. Senão…. só daqui duas semanas.

R$15 para quem chegar na hora. R$10 pra quem mandar email para studiosp@studiosp.org

Anota: Locomotiva. Studio SP: Rua Inácio Pereira da Rocha 170.

Mais uma partida

março 6, 2007

xeque

Uma queda de seis horas.
Seis horas acelerando livre, sem ver o solo. Só dois pontos azuis, piscando na minha frente, e meu corpo ficando mole e pesado.
É mort anunciada, nada petit.
Uma queda de seis horas, com um pé chumbado no chão, o outro inquieto no piso quadriculado. E ela ali… bebendo devagar.
Ela ria e ria e ria. E sua cara aumenta tanto quando ri. Ela ri toda, ela chacoalha quando ri. Ela tem um cabelo curto e infinito de tantas curvas lentas. E o cabelo também ri. Ela tem uma gargalhada em staccato, de todos os tons.
A gargalhada ganha volume enquanto os copos secam. Meu ego duro e calejado de amor e sexo cínico depõe as armas. Agora não sou nada – e me sinto mais vivo.
Ela fala e ouve tudo. Não falsifica nada, não inventa nada, não olha de lado. Ela olha de frente, olha reta e não procura ninguém nas outras mesas. É absolutamente linda. Linda por fora e em torno, nos cantos, nos vincos e nas dobras finíssimas dos anos e das rugas de alegria. Linda e não tem medo nem orgulho de ser a mulher mais linda que sabe rir com o corpo todo. Ela nunca tem medo quando ri.
Então, ela pára de rir. Para chorar.
Acabou.
Eu não existo – estou vivo.
O choro zuniu. Uma foice no intestino do canalha que caiu morto de mim e escorreu para fora do bar. Ela chora e não olha para o lado. Olha pra frente. Os pontos azuis minavam água para que eu afundasse depois da queda de seis horas. Fim. Estou morto. Só sirvo para vestir essa mulher… quero arrancar os ossos, minhas carnes e virar um casaco para ela.

__________________________

Há um ano e quinze dias escrevi o texto acima. Dois dias depois nos beijamos. Onze meses depois nos casamos. Durante o eclipse de sábado, acabou.
Eu já conhecia tudo naquele rosto grande, cada agudo súbito da voz linda, o cheiro de cada canto dela. Eu tive tudo…
Acabou no eclipse, senhoras, acabou. Em quinze minutos os olhos dela não eram os mesmos, miravam o lado, incrédulos no texto sem alma, nas palavras sem amor. Nossa sala estava tétrica e seus cabelos eram cachos da Medusa. Meu ego fuçava todo seu paiol enquanto os olhos minavam a água que me emergiu desse ano lindo.
Atirei uma garrafa no chão. Ela gritava enquanto água passeava lenta pelo piso. Chutei o globo terrestre que reformei para ela no natal. Partiu-se contra a parede, dividindo em dois cada oceano. Ela gritou enquanto eu descia as escadas, abandonando fria minha mulher, catando nos degraus meus ossos, minhas carnes para me dar conta de que estava morto. Viver, agora, requer um parto.

Sim, senhoras, vou sumir daqui uns tempos. Vou à Recife ver o mundo começar.
Aposto que volto. Aposto que vivo.

FZ FM

março 2, 2007

Fábio Massari e Frank Zappa
Fábio Massari em sua primeira entrevista com Frank Zappa

Há uns três anos, pouco menos que isso, recebi um convite do Fábio Massari. Se eu escreveria um texto para um livro que ele estava preparando, bem aos poucos. Um tipo indefinido de tributo a Frank Zappa. Na hora topei, mas fui adiando o texto infinitamente, resignado com meu patológico protelamento, lassidão profissional e, digo sem medo de ofendê-lo, com a marcha bem lenta do senhor Massari.

Há sete meses, ou nem tanto, ele me escreve um dos raros emails (Massari não é dos melhores para respondê-los), apertando. A coisa era séria. Ou o texto sairia, ou eu ficaria de fora. Novo prazo: 1 mês.

Nesse meio tempo viajei, escrevi coisas maiores e mais complexas do que a encomenda do reverendo. E nenhuma letra digitada em honra de Frank Zappa. 1 mês depois, novo email de FM (o cara tem rádio até nas iniciais…). Até sexta, senão… valeu a tentativa. Em uma quinta de setembro passado sentei-me no sofá com meu finado laptop no colo. Zappa, então.

Zappa_1993
Duas fotos do fim da vida de Zappa, 1993, pouco antes do câncer o levar. A segunda foto, muito rara, talvez sua última foto ainda vivo, feita em seu estúdio no subsolo de sua casa, é a única em que o vi com um olhar triste

Não discorri sobre o que penso do gênio ou sobre minha coleção de mais de 30 discos do cara (nem metade de sua obra). Só tentei achar um jeito de dizer o seguinte: Zappa me salvou a vida.

Escutei o homem até que tarde, aos 19 anos, e só aceitei o som quando meu chapa Paulo Chapolim (hoje do Ludov e Seychelles) me entregou Joe´s Garage. A ópera cínica, emocional, tarada e oprimida foi o discurso perfeito, tudo o que diria da vida que eu levava – se eu fosse um gênio como Frank.

Era um publicitário em formação, decepcionado com o futuro bem remunerado que meus sucessivos estágios prometiam em poucos anos. Eu era um bom aluno, meia dúzia de slogans já veiculados. E uma aflição presente em qualquer segundo sóbrio: enfiado em fumaça, selinhos e insônias, eu pressentia que estava na bem pavimentada estrada que leva à babaquice. Joe´s Garage, a faixa em si, era um ridículo e infantil resumo da minha vida até então. Em dois acordes.

Moleque monta banda, toca só aquelas notas que sabe, ensaia na garagem horas e horas a mesma canção, as meninas do bairro olham para ele, ele dá um nome para o grupo, toca no colégio, grava aqueles acordes. E, como se o tempo fosse surdo, anos depois está estuprado por cretinos de gravata,infectado por doenças venéreas, fazendo sexo mecânico, e finalmente preso em um lugar cuja a única saída é imaginar solos.

Em um mês eu sabia os três atos (dois cds) de cor. Um ano depois as lições de Zappa avacalhavam tudo o que eu ouvia na aula. Madrugadas com amigos, destilando o cinismo, a piada impiedosa, a arrogância – e abrindo mais o coração para a loucura. Uma longa lista de festas, livros, empregos, drogas, falências, mentiras e revelações me arrancaram a gravata em 2001, definitivamente, e minhas chances de formatura. Mas, se aqueles 3 anos infernais, que se misturam em estranha pasta, tivesse um rosto, seria um rosto com um vasto bigode preto, cabelos longos mal lavados e um olhar cínico e companheiro.

Zappa_capa
Compre um

Tudo isso para avisar que chega às livrarias, neste março, Detritos Cósmicos, o tal livro do Massari. São muitos textos de colaboradores (o meu incluso), cartuns, fotos e, a íntegra das duas entrevistas que Massari fez com FZ. Tem muito texto bom, tem coisa que não gostei, e os papos com entre Fábio e Frank são sensacionais. Mas, depois dessa talvez desnecessária digressão, o que importa é que estou muito feliz de ver pela primeira vez meu nome em um livro que homenageia um cara que me apontou o caminho deles. E acompanhado nas páginas por Paulo Lima (chefe), Ivan Marsiglia (ex-chefe, ex-fiador e grande sujeito), Arthur Veríssimo (compadre e colega da Trip) e muito gente boa. 

Então… peço aos leitores de Fudeus que adquiram seu exemplar. Mesmo quem não ouviu ou não gosta do som, vai gostar de saber porque Frank Zappa virou gênero de música e porque sua inteligência faz tanta, tanta falta nessa dinastia Bush.

Grato, Massari.

Ave, Zappa.

Zappa Mothers
É dessa cara que eu estava falando…