Subi, e daí?

Fui a Londres pela primeira vez, na conta da revista Trip, para encontrar um sujeito que há muito estava em minhas pautas. Mark Shuttleworth. Criador e financiador do Ubuntu, melhor e mais promissor sotware livre, a maior ameaça ao Windows. E, detalhe besta, o primeiro astronauta africano…

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Depois que voltou do espaço, Mark Shuttleworth fez vasectomia. “Tchufff”, ele diz, erguendo os dedos e imitando uma tesourinha. É que, lá dentro da nave russa, Mark contemplou o óbvio: a Terra é azul, mas a coisa tá preta. Tem gente demais no mundo, sete bilhões. São mais humanos do que dólares em sua conta. Ele tem tantos dólares quanto, digamos, chineses na China. E o rapaz não quer transformar sua fabulosa fortuna em herança. Não teve nem terá filhos. Pé no chão que é, prefere gastar seu cofre em um legado. Vai ver que é por isso que, apesar de bilionário, 34 anos, boa aparência, muito inteligente e promissor, more sozinho em um apê de um quarto.
Sala, copa e cozinha conjugadas, no primeiro andar de um prédio antigo, sobre uma loja da Ralph Lauren. Apartamento lindo, diga-se, amplo, em um dos melhores bairros de Londres. Onde, ao abrir a porta da frente, contempla-se sobre a mesa um monitor da Apple de 24 polegadas. Seu computador não usa Windows, nem o OS do Mac. Roda com Ubuntu. E Mark trabalha nesse software todos os dias para que você, leitor, logo trabalhe nele também. “Quanto custa o programa?”, você pergunta. Nada. Sua empresa dá softwares.
Como em toda vida que dá biografia, o destino tem surtos de ficção barata: Mark nasceu do lado de uma mina de ouro. Isso em 1973, na jovem cidade de Wekton. Lugar criado só para explorar as formidáveis reservas auríferas do centro sulafricano. Mas seus pais, em vez de tirarem ouro, davam aulas. Mark agradece a educação de primeira, pois o gosto pelo estudo deu na idéia que tilintou meio bilhão de dólares aos seus 26 anos de idade. Como todo bom dono de biografia, era “o cara certo na hora certa”, aspas dele:
“Estudei finanças e tecnologia na Universidade da Cidade do Cabo. Mas o que me interessou mesmo foi a internet, isso em 1992. E, na época de estudante, eu era pobre, precisava fazer dinheiro, comecei a ensinar empresas da região a se conectarem na rede. Logo vi que certificados digitais, protocolos de segurança, criptologia eram uma oportunidade boa.Montei uma empresa disso, sozinho. E por muito tempo não tive como contratar mais ninguém.” Eis o homem certo.
Eis a hora certa: 1999. Mark já tinha poucos funcionários e tratava de trabalhar muito vendendo algoritmos para redes cada vez maiores e complexas. Antes de a bolha estourar, a VeriSign, responsável inclusive pela segurança do Hotmail (então o maior serviço de e-mail do mundo), começou a fazer a rapa nos protocolos de segurança, digamos, “independentes”. O de Mark era bem popular, o mais usado no mundo “fora dos EUA”. Chamaram-no de lado e vieram com a oferta: US$ 500 milhões, topa? Ah, topou.
Veja, ele consulta o saldo e está lá: qui-nhen-tos mi-lhões de dó-la-res. No fervor de seus 26 anos, Mark não teve tempo nem de descobrir o vazio dos excessos. Quinhentos milhões mais rico, ele se viu… frustrado. Vai, desabafa: “Vendi a infra-estrutura que tinha para executar novas idéias. Me vi, de repente, muito rico e sozinho. Então tive que passar por um processo difícil de pensar com muito cuidado no que eu queria fazer em seguida. Claro que eu tinha dinheiro para construir coisas do zero. Mas dinheiro não resolve o maior problema, que é responder à pergunta: o que eu quero criar?”.
Foi quando teve ele próprio seus arroubos de ficção barata. Lembrou-se da infância, de que queria ser um astronauta. Manteve 480 milhões na conta e foi pro espaço pensar no que fazer com o saldo. Foi o segundo “homem comum” a comprar seu ticket para o vácuo. Além da grana, a façanha lhe custou um ano inteiro. Tempo em que seus infinitos níqueis ficaram bem investidos, rendendo juros. Ele explica: “Fui morar na Rússia, tive que aprender a língua e treinar muito para agüentar. Ir para o espaço não é exatamente subir na nave, entende? E, tanto quanto a jornada em si, morar na Rússia mudou minha vida”.

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Turista espacial também trampa. Shuttleworth tabula dados sobre bactérias em gravidade zero

Russos, fuselagens, gente com sorrisos largos e uniformes de astronauta. Fotos assim alinham-se nas paredes do apartamento. Quase todas ele mesmo fez. Menos as dele flutuando com a bandeira da África do Sul, flutuando mexendo em laptop, flutuando simplesmente. Dez dias no espaço depois do ano de treino. Regressou uma celebridade continental, como “o primeiro africano no espaço”. Desfilou em carro aberto, conheceu o presidente, inspirou uma canção, virou exemplo para crianças, que, certamente, sonharam em ser astronautas. Ele tem pressa para acabar a entrevista. Sua esteira rolante do quarto aguarda. Em uma hora Mark vai correr em falso, vestindo uma roupa justa esportiva, ao som de um soft jazz. Vai correr mais tempo do que se fosse na carreira ao seu escritório, a 5 km de onde mora. Se fosse correndo, Mark veria muitos legados. Estátuas de Churchill, Ricardo Coração de Leão, duques e lordes. Construtores de impérios. Mas esse tipo de nobreza não é pra ele. Mark está acima disso, exatos 27 andares, na Millbank Tower. Não é o espaço, mas é o prédio mais alto que beira o Tâmisa. 360o de vista. Do alto de sua torre no centro de Londres, ele tem uma mesa sem sala ou divisórias. Trabalha no meio de seus funcionários. E sempre pode espiar a hora no Big Ben pela janela, e manter a pontualidade de seus exercícios. É lá que Mark comanda a pequena equipe de 30 pessoas, todas de olho em um objetivo nada modesto.
Tornar o Ubuntu o padrão dos sistemas operacionais. Na Trip 134 destrinchamos as diferenças entre software livre e software proprietário. E explicamos por que, apesar de polêmicas legais e técnicas, não há muita discussão sobre qual deles é mais democrático. O software livre tem seus códigos, as lógicas que definem suas capacidades e processos, disponíveis para que o usuário as entenda e manipule. Joga na mão de qualquer interessado com talento a chance de melhorar um programa — e fazer disso um meio de vida. Ele explica: “Digo que era o homem certo na hora certa, ok, tive sorte. Mas foi o código aberto do Linux que me permitiu deixar de ser um interessado em tecnologia para realmente participar dela”.
Enquanto Bill Gates e Steve Jobs trancam seus códigos como o maior patrimônio de suas multibilionárias empresas, o Linux oferece o seu aos garotos. Foi esse desprendimento digital que deu a chance de Mark Shuttleworth fazer a fortuna. O mesmo desprendimento que o impele a gastá-la oferecendo, gratuitamente, novos códigos de um programa baseado no Linux, o tal Ubuntu. Traduzindo do dialeto sul-africano: humanidade para todos.

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Foto de Mark Shuttleworth, uma das que ocupam suas caríssimas paredes londrinas

EDUCA QUE EU GAMO
Assim como no nome de seu programa e nas paredes de seu apartamento, a África impregna seu orçamento. É no continente mais pé-rapado do mundo que ele despeja dinheiro de sua fundação totalmente dedicada à educação. Vai, Mark: “Financio projetos que, de alguma forma, estão dando certo ou pelos quais eu me interesso particularmente. Era para ser uma coisa global, mas acabei me concentrando mais na África. Minha idéia é reduzir ao máximo o tempo de implantação e aumentar o alcance de boas idéias educacionais. E tentar transformar essas idéias em negócios para as pessoas”. Mais do que filantropia, ou a redenção pré-paga que milionários buscam soltando cheques em ONGs, a generosidade de Mark Shuttleworth parece ser parte de um plano muito ambicioso. Um plano de vôo bem alto, em que o dinheiro não passa de combustível.
Algo difícil de ser traduzido com uma meta, mas que se revela em respostas sábias para perguntas bestas.
Você acha possível ganhar esse tipo de dinheiro hoje em dia, depois de a bolha da internet ter estourado?
“Eu não fazia a menor idéia que tinha dinheiro esperando por mim. O que é importante entender é que o mundo não pára de mudar. A história é feita disso. Se você entender como ele está mudando, e entender que cada mudança cria oportunidades, e saber onde colocar seus esforços, você pode fazer fortuna. Hoje seria muito difícil ganhar dinheiro rápido na internet ou fazendo estradas. São negócios entendidos, consolidados. Mas, se um mercado está em rápida transformação, é possível fazer fortuna rápido. Se você tiver um insight melhor, se conseguir ver adiante um pouco melhor, então você tem a chance de criar muito dinheiro. Mas buscar fortuna é uma maneira muito errada de pensar na vida. Se o objetivo for apenas ganhar dinheiro você vai se ver muito infeliz e entediado. Para mim um jeito melhor de definir a vida é perseguir as coisas que te interessam. Para mim sempre foi tecnologia e mudanças. O que também, por sorte, me fez muito rico. Então o que me interessa é entender o mundo através das mudanças. E, agora que eu tenho dinheiro, em provocar mudanças também.”
Mark entra no dialeto da tecnologia e no discurso que repetirá por toda a conversa, o de criar oportunidades para mais e mais pessoas erguerem idéias para uma vida digital mais rica, e criar caminhos mais largos para o futuro. Um futuro, acredita ele piamente, melhor do que o presente. Com uma séria ressalva que tem a ver, justamente, com sua esterilização voluntária. Mark profetiza:
“Estamos indo para um lugar melhor, mas haverá tempos muito dolorosos. Se tenho alguma visão sombria sobre o futuro é a de que tem gente demais no mundo. É uma coisa muito difícil e muito horrível de dizer. Mas quando se olha a Terra de cima [Mark aponta para a foto na parede, uma das que fez do planeta Terra] é claro. Nós falamos em reduzir nosso impacto na Terra com pequenas ações, reduzir emissões etc. Acontece que a população deve e vai ser reduzida, necessariamente… É terrível dizer isso, eu sei, mas é verdade”. Isso, dito da boca de um homem cuja verve parece toda depositada em pensar o futuro próximo, deve ser levado a sério.
Ele pede para encerrar, a esteira o espera. Mais uma pergunta, é tudo que oferece. Bem… a pauta é longa. Mas, noves fora:
Você é feliz?
“Não. Sou infeliz. Não sou um coitado nem tenho uma vida horrível. Agora, só porque tenho dinheiro devo ser feliz? Se eu fosse feliz não trabalharia, ficaria sentado sendo feliz o tempo todo. Claro que gosto de prazer, gosto de lugares remotos, gosto de snowboard… Mas muita coisa no mundo me faz infeliz. Softwares pagos. Miséria. Gente sofrendo… Isso me deixa bem infeliz.”

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Bem… infeliz ou não ele foi pra esteira e o soft jazz ecoa pelo apê. Agora é só uma questão de tempo… tempo para saber se seu Ubuntu vai dominar os desktops. Tempo para seus infinitos níqueis educarem africanos carentes, para o turismo espacial servir a muito mais — e menos ricos — seres humanos. Tempo para que muita gente padeça e o mundo desafogue. E bastante tempo para que o dinheiro de Mark pare de reverberar.
Vai deixar tudo em mãos bem-intencionadas. Sem herdeiros, ou herança, ele sabe o que espera da morte: “Meu ideal é morrer com dinheiro apenas para o funeral”. Curioso, vejam só. O jovem bilionário, generoso e idealista, inegavelmente um vencedor, quer que sua partida acabe em um estratosférico e afortunado… 0 a 0.

10 Respostas to “Subi, e daí?”

  1. Fátima Says:

    Prezado Mark.
    Diante do que li, considero você um homem bom, uma lama brilhante. E como disse Platão:
    “(…) quando um homem cultivou em si mesmo o amor da ciência e dos pensamentos verazes, quando, de todas as suas faculdades, exerceu principalmente a capacidade de pensar nas coisas imortais e divinas, um tal homem, se vier a tocar a verdade, é sem dúvida um homem necessário que, na medida em que a natureza humana pode participar da imortalidade, dela possa usufruir interiormente.”
    Parabéns homem necessário…
    Fátima.

  2. Fátima Says:

    Prezado Mark.
    Diante do que li, considero você um homem bom, uma alma brilhante. E como disse Platão:
    “(…) quando um homem cultivou em si mesmo o amor da ciência e dos pensamentos verazes, quando, de todas as suas faculdades, exerceu principalmente a capacidade de pensar nas coisas imortais e divinas, um tal homem, se vier a tocar a verdade, é sem dúvida um homem necessário que, na medida em que a natureza humana pode participar da imortalidade, dela possa usufruir interiormente.”
    Parabéns homem necessário…
    Fátima.

  3. Fátima Says:

    Desculpe o erro. Aproveito agora para indicar uma leitura imprescindível na vida de uma pessoa como você. Leia “O Trovejar do Silêncio” de Joel Goldsmith e depois “O Poder do AGORA” de Eckhart Tolle. Com certeza a infelicidade será substituida…
    Simplesmente “alegria” e nada mais.
    Fátima.

  4. Mandrião Says:

    E ae, vamos atualizar esta budenga?!

  5. roquesanteiro Says:

    Cade BruBru?

  6. Criador do UBUNTU, uma história de SUCESSO | A Arca Blog Says:

    […] história encontrei neste artigo, sobre Mark Shuttleworth. Criador e financiador do Ubuntu, melhor e mais promissor sotware livre, a […]

  7. Ubuntu « Projeto InfoTI Says:

    […] história encontrei neste artigo, sobre Mark Shuttleworth. Criador e financiador do Ubuntu, melhor e mais promissor sotware livre, a […]

  8. VCP.99 – Ubuntu no PC e novo MacBook em casa « Vladimir Campos Blog Says:

    […] Links Mencionados ~ Facebook is… trying to buy Twitter ~ Subi, e daí? […]

  9. Benjamim Says:

    Adorei.

  10. Criador do UBUNTU, uma história de SUCESSO | A Arca.com Says:

    […] história encontrei neste artigo, sobre Mark Shuttleworth. Criador e financiador do Ubuntu, melhor e mais promissor sotware livre, a […]

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