Mercado Flutuante

julho 30, 2007

No começo de 2007 passei algumas madrugadas pegando cheiro enfiado em galochas no Atacado de Pescados da Ceagesp. Pauta simples, nada de furo de reportagem, nada de bombástico. Mas uma delícia de fazer. Apenas o sutil privilégio de ter o salvo conduto, e algum cachê, para entrar em um mundo fechado. Além do privilégio, bem menos sutil, de trabalhar com Cristiano Mascaro, um dos maiores e mais simpáticos fotógrafos do Brasil. E sabiamente conservador: apenas Leica e filme Tri-X 400.

Matéria publicada com edição diferente na Trip 153, especial alimentação.

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O mercado de peixes da Ceagesp é uma ruidosa procissão circular de jalecos e galochas brancas, sob um galpão onde o cheiro impregnante é a única certeza. Todo o resto… “depende”: é a resposta favorita dos maiores peixeiros da América Latina.
A coisa começa na madrugada. É o primeiro atacado a abrir no mais importante centro de abastecimento do Brasil. Meia-noite e meia, os 65 holofotes ainda estão apagados. Só lâmpadas laterais iluminam o chão de cimento, enquanto, devagar, os primeiros pares de galochas surgem para encaixar placas de plástico, como espessas telas permeáveis. Cobrem o centro e as bordas do piso, deixam livre um corredor largo o suficiente para dois carrinhos conviverem e darem a volta no galpão.

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Não se vê uma mísera tainha. Mas uns poucos homens de caderneta em punho já circulam e cumprimentam outros, também com seus caderninhos baratos. Falam baixo, anotam números e garranchos. A venda de pescados só pode começar ao soar de uma sirene às 2 horas. Antes disso, nenhum peixe deve ser negociado. Se bem que… depende.
Um oriental passa carrancudo, coloca a caderneta no bolso do jaleco para vestir uma só luva cirúrgica. Um vendedor sentado em uma caixa vazia não resiste e apalpa a bunda do outro: “Vai fazer exame de toque, santa?”.
De certa forma, sim, ele vai. Os dois prosseguem com os homochistes e abrem as portas de um dos caminhões estacionados. Afundam as galochas no gelo picado das caçambas, espiam o que há sob os flocos e o gelado vapor. Com um canivete, o da luvinha faz um pequeno talho no rabo de um atum de 20 quilos. Enfia o dedo no furinho para sentir a consistência. Ambos tomam notas, apontam para outros atuns, apertam as mãos e voltam ao seco. Um bom cliente, o proctologista de pescados.
Hideki, comprador de peixes para alguns dos 250 restaurantes japoneses de São Paulo, três ou quatro vezes por semana pega cheiro no galpão, onde reconhece os negociantes pelo apelido. Gente como ele, bem relacionada e compadre de bons peixeiros, tem acesso à área VIP do galpão: os baús dos caminhões. Alguns dos melhores peixes daquele começo de dia já têm dono – nem serão despejados sobre as telas de plástico. São quinze para as duas.

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Proprietário de uma das mais recheadas cadernetas é Aislan, chefe da equipe do Akira Pescados. Seu pai é Akira, lendário peixeiro da Ceagesp que, após virar credor de seu patrão, cansou de ser funcionário e abriu seu próprio atacado de pescados. Mais de três décadas de galochas cansaram os pés de seu Akira, que hoje só despacha do escritório onde controla seus dez módulos (unidades de espaço no galpão) e seis barcos pesqueiros. Akira fez a vida e uma fortuna que a família prefere não revelar. Contudo, antigos clientes do velho peixeiro lembram da pitoresca cena: seu Akira descendo de um Jaguar calçando as experientes – e aromáticas – galochas brancas.
Aislan não tem 30 anos e já sabe tudo do ramo. É uma das vozes mais assertivas quando sugere o onipresente “depende”. “É igual a uma bolsa de valores. Vai de que peixe tem, quanto chegou, quanta gente quer…” Quem estabelece o preço? “Depende… Chego mais cedo, olha os caminhões, vê o que está bom…” Quem traz os peixes? “Bom, aí… depende. Os caminhões vêm do Brasil todo, são os fornecedores. Estacionam no nosso espaço e a gente vende consignado. Nossa comissão é de uns 12%, varia de acordo com o peixe, a época do ano… tudo depende.”

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Nas caixas plásticas empilhadas no miolo do mercado estão os peixes mais baratos: pescadas, tainhas, corvinas, mais comprados por feirantes e restaurantes “ocidentais”. Nas bordas, o filé: atum, espadões, garoupas, cação – favoritos de restaurantes japoneses. Um dos poucos pescados cujo preço não varia demais é o cada vez mais popular salmão. Chegam embalados em isopor, já inspecionados pela Saúde Pública. Todos vêm do Chile, indexados pelo dólar: de 19 a 21 reais o quilo.
Hoje é o atum que está fresco, farto e de preço baixo – 10 reais o quilo. Pode custar 9; em tempos de seca, vai a 25. Atuneiros, os barcos de atum, voltaram depois de dez dias no mar, congelando em gelo salgado peixes que caem vivos nos porões. Uma rede boa de arrasto custa uns 150 mil reais. Cada saída de um barco desse tipo, para mais de uma semana no mar, não sai por menos de 60 reais. Fora salários. O saldo? Adivinha…

“Depende”, elabora Gugu, vendedor da Naturo Pescados, apelidado graças à distante, porém real, semelhança com o apresentador domingueiro. Cinco toneladas é prejuízo. Vinte já é lucro bom, dependendo do peixe, da época, do mercado… A pescada custa de 3 a 9 reais e, no mar, não dá pra saber a cotação na Ceagesp. “Pesca não é criar boi, galinha, que você sabe o que esperar. Peixe é sorte e instinto”, apresenta Gugu.
E você, Gugu, tem sorte? “Rapaz… pior que não. Vê só, compro carnê do Baú há muito tempo. Outro dia fui chamado pra ir no Roda-Roda, sabe?, é o novo Roletrando. Tava com 5 mil no bolso e perdi tudo. Sabe como? Errei um nome de peixe!” Ah, vá! “Sério. Tava lá, ‘nome de peixe começando com p’. Era pirarucu e eu errei… Mas, porra, pirarucu não tem na Ceagesp!”, jura. Dia seguinte, crente que ninguém teria visto o vexame, amargou um enorme coro de “Aêêê, Gugu Pirarucu!”, alargando seu bizarro carma de ser atazanado por conta do SBT.

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Sobre as placas de plástico, começa a cair 7,5% do mercado diário de pescados no Brasil: umas 120 toneladas de peixes, crustáceos e moluscos. Outras tantas de gelo cuidarão de encharcar o piso pelas próximas seis horas. A sirene toca às 2 da manhã. Aos poucos, os holofotes esquentam. E um rotineiro e previsível caos se instala.
Cerca de 1000 pessoas: 200 comprando, 800 trabalhando. E, mesmo de jaleco e galocha branca, nem todo mundo é igual. A indumentária varia conforme a exposição ao inevitável cheiro que todos levarão aos lares. Carregadores usam toucas, avental, luvas e não pedem licença. Pregoeiros, os homens que dão preços e negociam com clientes e concorrentes, usam jalecos limpos, poucos usam bonés e não largam as cadernetas. Vendedores ficam próximos aos peixes, preferem bonés e levam na cintura um furador – um seringão para puxar de peixes graúdos um tripinha de sua carne, amostras para a avaliação dos compradores exigentes. O que, para gente como Minoru, pode ser pouco.

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Boa-praça quando explica à Trip seu trabalho, mas de cara fechada e poucas palavras na hora de apontar os peixes que quer avaliar, Minoru diz que já teve restaurante japonês, quebrou e, graças ao olhar e tato sutis, hoje vive de fornecer peixes para muitos restaurantes. “Do top ao mais rasgadeira”, explica sua clientela, que… depende, pode comprar desde peixes inteiros a postas embaladas em sua peixaria. Ele não pára a caneta na caderneta, e antes das 3 da manhã já tem mais de 300 quilos de atum reservados.
Não se vêem cédulas por ali. Como na bolsa de valores, a quitação se dá depois do pregão, na base da confiança, confirmada por garranchos, em uma saleta onde trabalham os cobradores.

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Os bloquinhos (R$ 1) e as cadernetas (R$ 2) por onde passa toda a contabilidade do mercado de peixe são vendidos na Cantina do Pescado, balcão que despeja muito café, torresmo, coxinha e calabresa para os jalecos madrugada afora. É nesse balcão que Jiro Yamada constata: “O mundo mudou e aqui nada muda”. Seu Jiro é presidente da Associação Comerciante de Atacadistas de Pescados do Estado de São Paulo e está no mercado desde o início dos anos 70. Come peixe todo dia, mas nunca, nunca pesca. “Tenho pena de matar peixe, coitado.” Ainda assim, é dos poucos que sabem números precisos de tantos cadáveres do mar.
Caderneta, fiado, gritaria, acordos verbais… “É assim há mais de 50 anos”, diz. Compara seu mercado ao de Tóquio, que visitou uma vez, quando foi ver seus filhos, que emigraram para lá. “Tudo computadorizado, limpinho, você não sente cheiro de peixe. Tá cheio de gente comprando lá de paletó e gravata.” Ele mesmo, seu Jiro, não sabe nada de computador; este ano, promete, vai fazer um curso. Duro vai ser arrumar horário: para quem pega no batente à meia-noite, tempo livre é algo deveras relativo.

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A maioria dorme pouco. Chega em casa quando a família está de saída e precisa de um longo banho antes de deitar. Com sorte, à uma da tarde estão sonhando. “A mulher acostuma com o cheiro. Só não acostuma é com as roupas”, conta Luís, carregador, 17 anos de peixe. “Tem que lavar separado, senão pega o cheiro na roupa da família toda.” Luís é conformado com o aroma crônico, prefere carregar o futum a voltar à sisuda vida de segurança particular. “Aqui a gente se diverte… é uma turma boa.”
Verdade. Se peixeiro de feira tem fama de baderneiro, imagine 800 deles juntos. Recomendação número 1: Se for mulher, evite. Se precisar, vá discreta. Ser muito bonita atrapalha. Vai escutar elogios, alguns pouco cristãos. Recomendação número 2: Se for gay, evite. Se der bandeira, nem vá. Um cobrador que prefere se manter anônimo relata: “Outro dia veio uma bicha. Começou a rebolar, falar daquele jeito… Quando viu voou uma pescada na cabeça. Logo era pedaço de gelo…”. Seu Jiro tem razão: o mundo muda, o mercado não.

Em cima de uma caixa de 10 quilos de tainha repousa um cartão bege: “Lindas garotas. Serviço de acompanhantes. Tratar com Mônica”, e um número de celular. Um senhor de vastos bigodes brancos sorri e desvira o cartão. No verso, só o nome de um comprador, uma reserva daquele lote de pescados. Todas as outras reservas estavam escritas em cartões da Mônica. É que vez ou outra aparecem no galpão algumas cortesãs, provocando aquele cardume fedorento, distribuindo cartões como aquele. Daí o risco de damas desavisadas, de saias mais justas, serem mal interpretadas nessa turba. Daí a razão de uma mulher oriental, única que deu as caras nessa madrugada, toda coberta e vestindo galocha preta, recusar-se a falar à reportagem.

Quase 4 da manhã, algo chama a atenção. Nenhuma reles mosca deu o ar da desgraça. “Mosca só aparece quando o peixe não está fresco. E em peixe congelado nem pensar”, ensina seu Jiro, que prossegue, “aliás, peixe fresco também não cheira.” Opa, e esse cheiro que a gente sente de longe? Rodrigo, dono e pregoeiro da Millenium Pescados, explica: “Não é o peixe, é a água que sobra”. Um caldo mal escoado que, apesar dos faxineiros e dos jatos ao final do batente, insiste em repousar dia após dia nos cantos e arredores do mercado.
Desde que meteu as galochas na fétida água, Rodrigo resolveu investir as economias e as madrugadas em revender peixes que os outros pescaram. Abriu sua empresa depois de ganhar uma licitação de apenas um módulo. Fundou a firma. Oito anos depois, dono de nove módulos, ainda um novato, entende bem da sujeira do lugar. “Aqui todo mundo quer te comer. Olhando, é todo mundo amigo; mas, se o concorrente puder te fuder, vai te fuder.” Como? “Depende… O cara pode comprar peixe de um caminhão acima do preço do mercado só pro fornecedor achar que você tá passando a perna nele. O concorrente toma um prejuízo em um dia, mas te tira o fornecedor bom. E quem perde peixe bom não sobrevive aqui.”

Ele ainda apanha muito – “tenho muito pra aprender aqui”, diz – mas confia na lealdade aos pescadores para se manter de pé no mercado. “Tomo preju, sabendo que vou tomar. É que se o cara que me vendeu peixe o ano todo chega aqui com um caminhão cheio, contando com um preço alto, pago e vendo mais barato, só pra não deixar ele na mão”, justifica um dos muito “dependes” de seus negócios. Pára a conversa para recepcionar um feirante interessado em um de seus cações de mais de 100 quilos. Sem cabeça, rabo e vísceras, aqueles tubarões são fatiados parecendo pedaços de borracha mole.

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A sujeira no chão cresce e já é possível derrapar em alguma corvina pisada. Um gato dá voltas, arisco, e logo toma um chega-pra-lá de um velho. Negro, de jaleco, boné e galochas brancas, instiga a atenção pelos inúmeros insultos carinhosos que inspira e pelas cartelas de bilhetes de loteria que vende. Todo dia, dos seis por semana em que o mercado funciona, ele está lá, há 25 anos. “Me chamo Antônio. Tenho 75 anos e sou casado com uma menina de 22!” – assim ele se apresenta. “Corno!”, alguém grita, passando a mão da bunda do septuagenário. “Corno nada!”, e cochicha à reportagem: “Três vezes por semana eu caio na botija!”.

Seu Antônio prossegue de pé, dando voltas na procissão que, agora às 5 e meia, vai escasseando como os peixes no mar. Todos os peixeiros confirmam que o oceano não é mais o mesmo, que há 15 anos o volume era mais que o dobro por ali, que os barcos voltavam mais cedo e não iam tão longe atrás de atuns e garoupas. Até 1990, 350 toneladas passavam pelo galpão, todo dia. Hoje são as citadas 120, arrastadas pelos carregadores dando duro, enchendo outros caminhõezinhos com as compras do dia, depois que os acertos todos foram feitos na saleta em cima da Cantina do Pescado – nem todos devidamente taxados em notas fiscais.
Os peixes da Ceagesp podem passar até uma semana no vaivém do frigorífico, e os que vão passando do prazo ganham novos contornos. Um atum que encalhou por uma semana é cortado em postas e mandado para o Nordeste do Brasil – em tese, mercado “menos exigente”, justifica Aislan, o chefe do Akira Pescados. Um peixe mais simples, uma tainha, perde a cabeça e o rabo antes de começar a feder. No dia seguinte vira o filé pronto da feira livre. Atenção, leitor fã de carne branca: peixe bom tem a cabeça no lugar.
Apesar do aviso de “Expressamente proibido fumar, comer e colocar os pés nas caixas”, é hora de muita gente escorar-se nas caixas vazias para acender um cigarrinho, tomar um café e degustar seu torresminho. O cheiro fica mais forte, apesar das narinas mais acostumadas, e uma única mosca pousa sobre uma caixa de sardinhas – uma das últimas a serem recolhidas. Os atuns voltaram para a cama mais cedo, depois os espadas, robalos, garoupas e cações. Os camarões já estão trancados em seus caminhões junto com as lulas. Nada é jogado fora. Amanhã, volta tudo para as placas, a preços que… bem… depende do que vai chegar de novo.

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Um sol cinza de chuva atravessa o galpão, e as lâmpadas laterais que permanecem acesas refletem-se no piso encharcado. Nada é jogado fora, lembra? Um casal de moradores de rua dá a última volta no cimento molhado. Vestem sandálias havaianas e catam os peixes pisados que ficaram no caminho. Seu Antônio está sentado – desistiu de vender sorte por ali.
O casal cata um camarão e encerra o pregão da madrugada. Na saída, não viram: mas quase pisaram em um siri ainda vivo, que, irritado, tenta beliscar as galochas da reportagem. Veio do fundo do mar, arrastado por uma rede implacável, atirado em um barco com milhares dos seus, enclausurado em uma caçamba, subiu a serra, foi empilhado em caixas de plásticos, oferecido aos gritos a preços que caíram ao longo das últimas seis horas, escapou de uma panela de água fervente e foi ignorado por olhares famintos. Está vivo, e agora só, no galpão da Ceagesp, a duas quadras do encontro do rio Pinheiros com o Tietê. Pensando bem, já que é o acaso quem manda nesta salgada vida, não teve sorte o tal siri? Depende…

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PESCADO CAPITAL
Números que provam que esse negócio de peixe está… frito

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Foto, também de Cristiano Mascaro, no mercado de Tóquio, de longe o maior do mundo

O mar não está pra peixe
Se continuar baseado no modelo de pesca industrial, o multibilionário mercado mundial de pescados está com os dias contados. Novas tecnologias, demanda crescente, desrespeito aos períodos de desova e a entrada maciça da China na caça aos grandes cardumes não só tornaram o modelo insustentável como reduziram sensivelmente o número de peixes no oceano. E a quantidade pescada só aumenta: são 90 milhões de toneladas por ano, a metade arrastada por barcos chineses (os japoneses ficam em terceiro lugar, atrás dos indianos). As estimativas mais pessimistas, publicadas na Science em dezembro de 2006, alertam que em menos de 20 anos a pesca global pode dobrar para 180 milhões de toneladas – um colapso de praticamente toda a população de peixes até 2050.

Rede nacional
Apesar dos 8 000 quilômetros de litoral, a pesca no Brasil não é das mais profissionais. Ou, pelo menos, não são os órgãos responsáveis. O governo Lula em seus primeiros meses criou o Ministério da Pesca. Em 2005 o ministério foi extinto e a pesca voltou a ser uma secretaria ligada ao Ministério da Agricultura. Estima-se que o Brasil pesque por ano 1,8 tonelada – levantamento do Ibama, não da secretaria. Supõe-se que existam 400 mil pescadores “artesanais” no Brasil, para subsistência e venda local. A secretaria não soube informar o número de pescadores ligados à indústria, mas avaliou o mercado em “mais ou menos 5 bilhões de reais”

Peixe Grande
O mercado de peixes de Tsukiji, Tóquio, é o maior do mundo. Responsável por 90% dos peixes consumidos na metrópole (a que mais come peixes no planeta) é também ponto turístico. E, se o Japão não é mais o maior pescador do mundo, ainda é o melhor comprador. Atuns, salmões, espadas, garoupas de alto nível (como os da foto ao lado), pescados em qualquer oceano, costumam ser desembarcados em Tsukiji para render mais em ienes. Em relação a Tóquio, a Ceagesp é uma sardinha frente a uma baleia. Em São Paulo são 120 ton./dia, na base da caderneta. Lá são 2.340 ton./dia, mais de 450 espécies e um sistema que acaba por multiplicar o preço de boas peças: leilão. Se em São Paulo um atum grande chega aos 50 quilos e no máximo 1000 reais, Tóquio já bateu o martelo em um de 200 quilos por 200 mil dólares.

Gangsta Fofa

julho 25, 2007

A desbocada mais meiga que eu já vi. Se fosse minha filha ensinaria mais palavrões.

Fisk, Fisk. Inglês é Fisk

julho 12, 2007

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Robert Fisk, depois da entrevista exclusiva a Fudeus em Paraty.

Prosseguindo com posts de auto-promoção, aviso aos leitores de Fudeus que o sujeito que vos tecla estará amanhã na TV. Em nobre companhia. Fiz parta da banca que sabatinou dois monumentais jornalistas:
Lawrence Wright, colunista da New Yorker e autor do impressionante “O Vulto das Torres”, o mais sério e apurado livro sobre a formação do pensamento islâmico radical no século 20 e a trilha de décadas que deu no 11 de setembro.
E o meu ídolo master, Mr. Robert Fisk, o maior correspondente de guerra do mundo, dono de um texto só comparável à sua coragem. O cara, ainda aos 61 anos, cobre guerra do lado das vítimas. Reporta o barulho das bombas, o zunido das balas e aponta suas armas contra governos e mentirosos de qualquer idioma. Entrevistou Osama Bin Laden 3 vezes, pra se ter uma idéia do calibre do inglês.

No Roda Viva, que vai ao ar amanhã, sexta, dia 13, meia noite e meia, fiz duas perguntas apenas, deveras tímido, deveras gago. No dia seguinte, mais tranquilo, fiz mais 56 perguntas ao sujeito em uma entrevista exclusiva, assim como a foto acima, para Fudeus Existe (a para a Trip…).

Então, pra quem não gosta do Bush:
– amanhã Roda Viva, onde você saberá se mr. Fisk acredita em Deus.
– em agosto, neste blog e na revista Trip um entrevistão de Robert Fisk.

Auto jabá

julho 11, 2007

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(ilustração de Felipe Gonzales)

“Antes de ser um intelectual, Hermano Vianna é um sorriso. Sempre um sorriso espreitando o rosto limpo de pêlos, que orna com a cabeça raspada, dando-lhe assim, sorriso e careca, um ar de monge chinês. Uma careca monástica que guarda um cérebro alérgico a idéias fixas e preconceitos, que preza a disciplina e o estudo. Monge que não se casa e não namora — por opção. Lê muito e medita muito sobre a beleza da dissolução coletiva do ego. Porém, enquanto seus hábitos o fazem monge, Hermano é refém da curiosidade que mantém sua alma mundana e planos nada humildes para um asceta.(…)”

Clica aqui para ler o entrevistão que Hermano Vianna concedeu a este nada monástico repórter, publicada na Trip de julho, nas populares Páginas Negras da revista.
70 perguntas, fotos supimpas, ilustrações formidáveis de Felipe Gonzales e idéias bem polidas na mente do back door man da cultura brasileira. A íntegra está no site da trip, mas para passar da metade tem que se cadastrar. Vale.

http://revistatrip.uol.com.br/157/negras/home.htm

Apache, apache boy

julho 2, 2007

A MTV disse que o vídeo clip morreu. Pena.
Sério… VMA´s de Notionless Hours Concours.

Vacinado!

junho 26, 2007

Publicada em versão reduzida na Trip.

 

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Horas a fio, em ritmo constante, homens esfolam a mão para deschavar o Daime

 

Um sonho estranho evapora na memória quando meus olhos abrem de repente, como em um susto, cinco minutos antes das seis da manhã. Babava em cima do cobertor, e não larguei da mão direita a caneta Bic nas três horas de sono que tive naquele quarto de hotel na Paraíba. Campina Grande, para ser exato. No caderno aberto em cima da cama, as duas últimas linhas das três páginas que escrevi na madrugada eram apenas rabiscos, garranchos de quem não se conformava com o abraço de Morfeu. Uma caligrafia torta para idéias pretensiosas – as deslumbradas impressões de minha primeira experiência com Santo Daime. Setecentos litros da bebida santa haviam sido preparados na noite anterior em uma enorme cerimônia. Eu era o único jornalista presente e não dispensei o copo americano que me foi servido.

A ocasião era solene. Alex Polari, grande guru do Daime, supervisionava e controlava a fornalha. Dezenas de mulheres cantavam o Hinário de São João em loop e homens devastavam suas mãos esmagando com espécie de porretes os cipós e folhas. Todos sob a influência do chá divino, eu incluso. Não vomitei, poucos ali o fizeram.

 

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Alex Polari prepara alguns dos 700 litros de Daime

 

O efeito, nada fraco, é uma profunda, e portanto estranha, lucidez. Nas seis horas sob o efeito, concentração absoluta. Algo inédito para um resignado disléxico. E quando deitei a cabeça no hotel entendi onde estava Deus naquela bebida. A luz branca da lua que entrava pela janela era sólida. Estava presente no ar. Meu pensamento brotava ordenado, linear como um texto. E, se eu insistia em fechar os olhos, memórias vivas tomavam o escuro e tudo ficava branco. Uma intuição convicta encheu minha alma (sim, leitores, eu tenho uma): tudo vai dar certo. E despejei imagens no caderno. Só dormi depois de rezar, algo que não fazia desde a infância remota. Mas o chá sagrado foi apenas o couvert. Não há tempo nem para ler a tal verborragia. Em 30 minutos deveria estar em um sítio próximo dali para entender melhor do que se trata uma potente secreção de um anfíbio, uma tal de “Medicina do Kambô”, a vacina do sapo.

Eu estava cobrindo o Encontro para a Nova Consciência, um gigante festival ecumênico onde religiosos e esotéricos comungam informações em quatro dias de palestras e rituais ininterruptos no interior da Paraíba. Mas confesso que, como ateu não praticante, minhas mais reveladoras experiências religiosas foram com psicoativos. Por isso amarrei meu burro no grupo que foi para lá falar sobre “Plantas de Poder”, ou as maravilhas naturais sul-americanas capazes de mandar mentes aos céus. Rodrigo Grunewald, um antropólogo gente fina, foi quem me falou dessa tal vacina, tirada das costas de uma perereca que aparece nos cafundós do Acre. Ele que me deu carona ao sítio onde José Gomes, filho de um pajé da tribo katukina, iria me aplicar o tal santo remédio. “Se prepara porque o negócio é forte. Dilata todas as veias, dá um calor danado”, me prevenia. Eu estava adorando a idéia. Apesar de cardíaco precoce, nunca me senti à vontade com comprimidos de Buferin, e a promessa de que o turbilhão do veneno do sapo limpa o sangue, tira preguiça, previne câncer e regula a pressão me deixou empolgado. Sou cético, mas adoro uma solução milagrosa.

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O pajé aplica o veneno/vacina em um de seus pacientes

O método: tomei um litro inteiro de água. Tirei a camisa. O “terapeuta” chega com um pedaço de cipó fino, põe fogo na ponta até fazer brasa e queima meu ombro em sete pontos, formando uma linha reta de círculos em carne viva. Arde. Em seguida, com um canivete, passa uma pasta (a secreção do sapo) nas feridas. Não demorou dez segundos…

Minha cabeça começa a pesar e sinto como se meu crânio estivesse crescendo centímetros por segundos. Um arrepio sofrido sobe minha espinha devagar. Começo a escutar meu coração ecoar nos ouvidos, acelerado, e uma onda nauseante me derruba. Deito no chão de cimento queimado e, como se a lucidez entrasse em apnéia, pairo no limbo entre a coragem e o arrependimento. É um inferno de 40 minutos.

É esse o meu corpo? Isso é frio? Sou eu mesmo aqui? Peraí, estou falando comigo mesmo? Bruno, é assim que se sente alguém que vai morrer envenenado… Mas sossega, rapaz, que o índio ali tá rindo da sua cara. É veneno, porra, pra que isso? O corpo inteiro sente enjôo e uma tremedeira sacoleja minhas tripas. Está tudo tão quente! Que frio é esse aqui fora? Bruno, suas veias engordaram… meus olhos fervendo. Rodrigo gargalha: “Olha a boca dele”. Mordo meus lábios. Estão duros e triplicados. Impossível falar. Gemo. Em um golpe súbito viro de bruços, porque sobe pela garganta como um chafariz um vômito amarelo e pastoso. E foi assim: regurgitei mais de dez vezes, até que eram apenas contrações do aparelho digestivo ou uma pasta grossa e mais escura saindo lenta da boca.

O gosto amargo e o cheiro podre não me incomodavam especialmente. Pois agora estava fascinado com as formiguinhas que devoravam meus sucos espalhados no chão. Olha, Bruno, espia só, isso é tudo McDonald’s. Arghhh, como queima a boca esse vômito. Ouço uma voz de velha soando dentro do ouvido: “Joga o lixo fora!”. Pois não, vovó. Blerghhhh. Outro jato que respinga em minha perna e me faz rolar para perto da terra.

Em meia hora, a primeira calmaria e uma estafa completa. Acho (não tenho certeza mesmo) que dormi por uns minutos antes de vomitar pela última vez e conseguir me erguer, enquanto as pessoas por ali riam muito de minha boca de… sapo!

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As ferramentas cirúrgicas e eu com a hedionda boca de sapo após a hecatombe fisiológica

Com os lábios gigantescos e uma fome africana voltei à cidade. Bateu: uma euforia me enche completamente. Tudo mais nítido, as cores mais reais, como nos anúncios da Fuji Film. E enquanto espero meu filé à Chateaubriand no hotel, Clodovil na TV falava sobre sua saúde e que o que faltava na humanidade era, justamente, DEUS. Eu gargalho como um ébrio. E chego ao cúmulo de dançar pelo quarto ao som do Falamansa. Sozinho. Sim, bateu! E me sinto saudável como nunca. Sem hipocrisia: como nunca. Espinha ereta, ânimo e bom humor que durariam 15 dias inteiros. Foi nessas condições, com uma boca humorística e a mente acelerada, que tive que lidar pelo resto do dia com algo deveras ausente naquela terça-feira – a realidade. Não parece, eu sei, mas estava lá a trabalho.

Em Brasília, 14 horas

junho 15, 2007

Minha primeira vez em Brasília. Reportagem publicada na Trip Especial Sono, que está nas bancas. Aqui tem mais fotos.

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Shhhh. Faz barulho não. Tá vendo como todo mundo aqui cochicha ao pé do ouvido? Tudo bem que aqui é o Parlamento, então parla. Mas parla baixo… tem gente dormindo ali no canto. Tá vendo aquele senhor barrigudo? O de brochinho no peito, de bandeira do Brasil? Tá quase roncando. Também, poxa, já é quinta-feira, são duas da tarde, hora de voltar pra casa, descansar, ver a família. Não? Quinta-feira não é dia de descanso? Talvez para você, preocupado aí com tua vida, com teu bolso. Aqui não – aqui é a casa do povo, dos eleitos que trabalham para o bem comum, para o progresso e a ordem nacional. Pensa que não cansa? Não ri, não… Pronto, acordou o homem:

“Você é jornalista”, já despertou cabreiro, vendo a câmera pronta para o clic. Sim, sou sim. O senhor é deputado? Esfrega o olho: “Não, sou não…” Conversa vai, bocejo vem, “sou articulador da frente evangélica”, diz. Ele se chama Severino de Azevedo e trabalha no Congresso de terça a quinta. Vez ou outra vai na sexta.
Mas, trabalha mesmo, Severino? Tem cargo no Congresso? Se espiga na cadeira fofa, faz silêncio, pede credenciais e emenda um interrogatório sobre a revista Trip, a pauta, a preferência espiritual da reportagem. Interrogatório encerrado: “O que quer saber mesmo?”. Qual o trabalho do senhor?. Severino responde como Cristo: por parábolas. “Repara o vento entrando aqui. O Congresso é assim – tem as pessoas, os plenários. Mas tem também o vento, a parte espiritual. Cuido da parte espiritual, evangelizo deputados. Articulo.” Mas, articula o quê, Severino? “Lobby, articulo pelos direitos humanos.”

A conversa fica mole entre o cardume de ternos e gravatas. Severino conta que era caminhoneiro e não dormia – viciado em rebite, maconha e cocaína. Arruinou-se assim, perdeu “uma fortuna”, ele jura. E graças à Assembléia de Deus hoje dorme o sono dos justos. Mesmo que ali, no café do Congresso. Ele explica que muitas ovelhas foram excomungadas de seu rebanho via CPI dos Aloprados – ou CPI do Fim do Mundo, que investigou o tráfico de ambulâncias.
A frente evangélica, formada por deputados protestantes de quase todos os partidos, sofreu um êxodo. Dos 60 parlamentares que tinham há quatro anos, só sobraram 40 na legislatura que diplomou-se em 2007. Severino descobre en passant que esta quinta em fim de expediente é quinta-feira gorda: instalação da CPI do Apagão. Naquele instante, o plenário 11 está lotando de crachás, brochinhos, holofotes, microfones… e as cobiçadas lentes da TV Câmara.

Ali ninguém dorme no ponto, não. Aqui se fala alto, se fala bonito, todo mundo sua a camisa debaixo do paletó. É o calor humano, a febre da cidadania. Oposição e situação discursam pedindo votos e os cargos principais da comissão que investigará o chamado caos aéreo: o apagão que embala o sono de brasileiros em aeroportos desde o final de 2006.
Os candidatos à presidência prometem isenção, objetividade, nada de chapa-branca, nada de caça às bruxas, provocam incompreensíveis polêmicas – como alguém discorda de discursos idênticos? Duas horas depois, Marcelo Castro, PMDB, primeira legislatura, situação, é eleito o presidente da CPI. É hora da coletiva de imprensa. Enquanto Marcelo promete ir fundo na investigação do “tráfico” (sic) aéreo, o plenário levanta vôo, encerrando o batente perto das cinco. Gustavo Fruet, candidado derrotado à presidência da câmara já tira o paletó a caminho da saída. Deputado, vai fazer o que amanhã? “Volto para o Paraná”. E hoje? “Aqui em Brasília se faz política em todo lugar, a qualquer hora.” Antes de ir, reforça: “E isso não é uma coisa ruim. É bom. É bom.”

De volta ao salão verde, enquanto Severino explica que planeja se candidatar no próximo leito, ops, pleito, topamos com um paletó bem cortado transitando. “Esse você tem que conhecer. Grande figura do Congresso. Conhece todos!”, Severino se exalta: “É o grande Severo”. Deputado, senhor Severo? “Não… alfaiate!” Severo Silva estende seu cartão e conta que trabalha de terças a quintas tirando medidas em gabinetes, arrebanhando clientes pelos corredores e cortando paletós para parlamentares – desde o tempo em que eram biônicos. Mas em horário comercial, Severo? “Claro! Estou trabalhando.” Ah…
Seu modelo mais barato sai por R$ 1.500. O mais caro, coisa de R$ 2.000. Faz uns 30 por mês. Heráclito Fortes, senador de feições batráquias, bem ativo na CPI do Mensalão, tem 150 trajes de Severo. Roberto Jefferson dispõe de 130 – o ex-deputado-tenor-dedo-de-seta precisou renovar todo o guarda-roupa depois da redução de estômago.
Severo é um alfaiate suprapartidário: veste situação e oposição pelo mesmo preço e capricho. Só se queixa do PT: “Eles não gostam de gastar dinheiro. Muito raro um petista pagar meu preço”. Severino ri, mas discorda. O evangélico gosta do PT, mais ainda de Lula. O lobista de Cristo explica seus motivos. “Eu tinha muito preconceito com Lula, mas comecei a respeitar muito quando vi que ele sempre leva a mulher nas viagens. Safado sempre deixa a mulher em casa, você entende… homem que leva a mulher pra dormir junto é de confiança.

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Sexta-feira, 11:30 da manhã

Instalada a CPI, puff!, apagão no congresso. Cinegrafistas cochilam nas poltronas rasas, uma turba de turistas idosos dos EUA adentra o Salão Verde e meia-dúzia de deputados escapam pela tangente das perguntas, também elas idênticas como carneirinhos de insones, mexendo silenciosamente os lábios justo a celulares provavelmente desligados. Nos corredores mais escurinhos dos gabinetes, apenas secretárias teclando. Quando, ora só, João Paulo Cunha passa.
Grande homem público esse JP… mesmo não-eleito, com o nome enlameado em contas de Marcos Valério, continua ali, trabalhando pelo bem comum, já que ex-presidente da Câmara tem gabinete garantido mesmo sem mandato. Acompanhado de três paletós, sem tempo para maiores declarações, adentra o gabinete luxuoso de Arlindo Chinaglia, o atual presidente do parlamento. Vamos ao Senado?
O carpete troca de verde para azul e a coisa fica mais chique. Mais granito, mais limpeza, uma maca de prontidão no corredor pronta para algum senador ameaçando o sono eterno. São seis e meia, o sol cai lá fora e apenas três homens estão vendo, na tribuna, o senador Eduardo Suplicy. O pai do Supla fala sobre…. chuta?… o Renda Mínima.
Seu pronunciamento de ninar é sobre o Iraque, a possibilidade de um programa de renda mínima por lá, e da insegurança que o impediu de palestrar em Bagdá sobre… o Renda Mínima. Saindo de lá, na quinta mesmo, pegou seu vôo para São Paulo. Ainda sob efeito do desandado controle aéreo, rodando sobre São Paulo, aguardando autorização de pouso, passando das 22 horas, sorteou para os passageiros seu livro sobre… Renda Mínima. E palestrou no microfone sobre suas idéias por 20 minutos. Alguém falou em apagão aéreo? Boa sorte, CPI.

É sexta-feira, graças a Deus, e o Congresso está em plena atividade – turística. Estudantes, mais uma turma de americanos, casais tirando fotos diante do anjo esculpido no Salão Verde e muitas cadeiras livres. Severino passa e se acomoda no café. No Senado, mostra o telão, há sessão.
Procuro o Collor de Mello, seu partido informa que “o senador não foi ao Senado na semana passada por problemas de saúde, está com conjuntivite”, veja você. Clodovil também não está, foi para Ubatuba, encontrar com suas bases banhistas e procurar soluções para outro problema de saúde, a dengue que assola o balneário.
No plenário, desce Heráclito, impecável em seu vasto terno Severo Silva. Sobe o senador Sibá Machado, PT acreano. Ele havia lido o relatório que a ONU divulgou no dia anterior sobre a catástrofe do aquecimento global e resolveu falar em nome do povo brasileiro. 

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Sibá Machado explica o movimento de rotação, translação…

Discorre sobre a imensidão do universo. Dos bilhões de galáxias e da idéia do infinito. Explica que a terra gira em torno do sol em ritmo diferente dos demais planetas. Explica a rotação e a translação e que a inclinação do eixo terrestre propicia as estações do ano. Vem o equinócio, o solstício.
Explana de modo amador sobre a composição do ar. Com um tom de homem público emenda: “Há o nitrogênio, o oxigênio e o gás carbônico. E há também o xenônio, o argônio e até o gás néon. São chamados gases nobres!”, dá um soquinho no ar enquanto lê seu discurso.
Sibá prolixa livremente sobre noções de física de almanaque, e o único senador que o assiste cochicha ao celular. Três (!) taquígrafas tratam de enfiar nos anais da casa a desconsolada fala. Para não cair em uma siesta antes do almoço, a reportagem sai à rua.

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Em Brasília, 14hs, quase ninguém na larga avenida. A vista longa de uma fileira de ministérios e os vazios do poder lindamente dispostos por Niemeyer. Uma cidade sonhada, e que parece mesmo irreal, no entanto ali de pé. Não dá pra destruir, foi cara demais. Não dá pra abandonar – é linda. Não tem como dar certo… é um curral de poderosos. E respirar o vento ardido da cidade é a prova mais democrática de que ela não deveria estar lá. Ainda assim, não importa. É como o sono: depois que veio, Brasília é irreversível. 

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Ando meio desligado

junho 4, 2007

EQ CCDB 
Equalizador CCDB, desde 72 sem defeitos. (foto: Deborah Engel)

 

Há dois meses voltei da casa de Cláudio César Dias Baptista com uma entrevista curta gravada. Curta em tempo. É que são bastante longas as idéias de CCDB. Assim como foi longo o dia em que nos encontramos. De carro: a fotógrafa da reportagem, Deborah Engel; seu marido, o músico Siri; e eu. Do Rio até Rio das Ostras, onde Cláudio mora.

Débora grávida, Siri adiando trabalho para cuidar da moça. Casal bonito, amor tranqüilo – me deu leve depressão ao comparar com meu recém finito caso. Sem delongas… umas três horas longe do aeroporto Santos Dumont  (dos poucos ídolos de CCDB).

A estrada que segue paralela ao litoral, sem vista para o mar, é a passarela de um tenso desarranjo urbano das cidades fluminenses. E uma sensação bastante preconceituosa de que a vida anda em círculos mais curtos por ali. Sem delongas… Cláudio mora em um lugar lindo, na verdade, apesar do cenário de triste civilização no caminho.

Estava ansioso, nos aguardando na laje de sua casa, todo de branco, como a casa e quase tudo dentro. Eu também ansioso, bambeando entre o orgulho vaidoso e a insegurança total. Nada de novo, no entanto. Essa é a regra toda vez que me vejo em uma pauta realmente boa, ao lado de alguém que admiro e reconheço com especial. Um fardo que carrego voluntariamente: me sentir uma besta ao me deparar com gênios. E essa sensação de estupidez vai se transformando em culpa à medida que escrevo meu saldo. Explico:

Nunca escrevo um perfil ou edito uma entrevista com a intenção de selar minha amizade com o personagem. Quase nunca penso em agradá-lo… Mas às vezes saio com minhas fitas cassetes gravadas e uma simpatia profunda, que transforma o toma-lá-dá-cá jornalístico insatisfatório demais. Dá vontade de ser amigo mesmo, jogar o relatório de lado e escrever uma carta pro sujeito, prolixando em algumas páginas o fato de que, enfim, ele é demais.

CCDB

Seu Cláudio em seu quarto, escritório, laboratório… (foto: Deborah Engel)

 

Cláudio é desses, de verdade. De cara, começa a entrevista resumindo muito lúcido suas idéias sobre o indizível. E pela falta de tempo, pela objetividade (ah, claro…), tive que poupar muitos “eu também acho!” que internamente bradei. Cláudio, com sua muito humilde “amodéstia”, vai deixando claro quais são suas prioridades na vida: entender com a alma que a vida é bem mais do que a triste civilização,  ver, tocar ou pressentir Deus, cuidar bem de sua mulher, seu filho e sua casa em Rio das Ostras, e divulgar para a humanidade sua hercúlea obra literária, o livro Géa.

Não fiz o texto para agradá-lo, mas torci para que a reportagem fizesse CCDB um pouco mais feliz. Sem delongas… O resultado publicado na revista Trip foi curto também, 3 páginas, uma e meia de texto, produzida em ritmo de  jornal, na tarde seguinte da entrevista. Merecia mais espaço e mais tempo para a costura, eu acredito, como merecia mais páginas os outros perfilados na mesma peça da revista: José Agripino (por Ronaldo Bressane e Joca Terron) e Roberto Piva por Cassiano Elek Machado e Emílio Fraia.

Já está na banca há umas três semanas, e não recebi uma só carta de leitores… exceto o mais importante deles, CCDB. Grande alívio… ele gostou muito. E tomou tempo para destrinchar meu texto em seu site. Justifica-se às vezes, discorda outras, elogia… Mas, ufa, sim, CCDB ficou um pouco mais feliz. E pelo email carinhoso que mandou, sei que se magoou com uma coisa, séria, de fato. O endereço errado de seu site publicado na Trip e na Trip OnLine.

 

O que? Não sabe quem é Cláudio César Dias Baptista? Clica abaixo. 

 

Minha reportagem:
http://revistatrip.uol.com.br/155/desplugados/01.htm

Endereço certo de CCDB: www.ccdb.gea.nom.br

Seus comentários sobre minha reportagem, AQUI.

 

Teaser…. Ainda essa semana,  entrevistão com Laerte em Fudeus.

olha o passarinho

maio 17, 2007

Nada Pessoal
Jorge Du Peixe não gosta de paparazzi

Não é por nada. Ou, ao contrário, é por tudo que ando cansado de escrever. Conta complicada essa, nunca fecha: Quanto mais você escreve, melhor escreve. Quanto mais você escreve, pior seu texto lhe parece. Isso para dizer que vou atrasar até o final de semana uns posts prometidos. E logo, segunda-feira, me despacho de novo algures. Torçam por mim.

E aproveito o mofado espaço de Fudeus para convidá-los a espiar o Flickr que fundei ontem. Como disse, ando cansado de escrever, cabreiro com o texto e com a defecação de regras. E de uns tempos pra cá, bateu um saudosismo violento do tempo em que eu não sabia bem se era repórter ou fotógrafo.

Espanei as câmeras, passei álcool no scanner, comprei meia dúzia de filmes e voltei a andar com minha amada Pentax MX na mochila. No link, além da bem polida foto acima, mementos de dias atuais e dos primeiros anos desse século XXI. Maldito século que digitalizou toda aquela fartura de tubinhos de filmes grátis de diferentes asas e bitolas na Redação da Trip.

 http://www.flickr.com/photos/brunotorturra

Satisfação

maio 7, 2007

Antes de mais nada, perdão.

Fico realmente comovido com os emails cada vez mais freqüentes pedindo atualização nessa publicação vaporosa. 
Agora justifico. Sem computador funcionando em casa, trabalho atropelante na redação e meia dúzia de breves viagens que não me deixam tempo para rascunhar nada.
Mas garanto, semana que vem a coisa anda. Juntei uns tostões para comprar um novo computador, estarei de volta de uma viagem bizarra pacas, que começa hoje mesmo,  onde pularei de asa delta, pilotarei um Stock Car (é sério) e margulharei com exóticas criaturas marítimas.
Então anota aí a promessa para a semana do dia 14:
– Entrevista extensa e emocionante com Laerte, o cartunista gênio.
– Fotos e causos da tal viagem acima anunciada
– E atrasadas impressões nada cristãs sobre a virada cultural no centro de São Paulo. Não, eu não estava nos Racionais MC´s.

Fudeus lhe abençoe e até a vista

BTN

Jogo de aspirantes

abril 10, 2007

Por conta da carreira de coca e cinzas paternas que Keith Richards diz ter aspirado em 2002, sexta passada, em sua coluna na Folha de S. Paulo, Thiago Ney fechou seu texto com a conclusão: “Keith Richards é um gênio do rock”.
Ai, ai…
Consternado ao ver o nível analítico de nossa rock press , posto aqui um memento raro e nostálgico: Dr. Hunter S. Thompson entrevistando ele, o gênio, Keith Richards.
Sem mais…

Instant Karma

março 23, 2007

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“A direção da Divisão de Capturas da Polícia Interestadual (Polinter) abriu inquérito para investigar a morte de Calisto Fernandes dos Santos Filho, de 67 anos, tio do milionário da Mega Sena Renné Sena, assassinado em janeiro. Preso sob acusação de estupro, ele estava na Polinter do Grajaú (zona norte) e morreu depois de sentir-se mal na manhã de ontem.”

A história é a seguinte. Sabe o Renné Sena, que ganhou na Mega Sena, que a viúva “supostamente” mandou matar? Então, Calisto, o tio de Renné, vivia uma vida normal.
Quando seu sobrinho foi assassinado, depôs na polícia e tudo certo – álibi quente. Quando seu sigilo telefônico partiu, o delegado viu uma ligação entre a viúva de Renné Sena e a esposa de Calisto no dia do crime. O delegado chamou de novo o tal tio para umas perguntas de praxe. Só que dessa vez puxou a ficha do homem. Calisto estava foragido desde 1994. Ele havia estuprado sua filha.
O delegado prendeu Calisto, que morreu hoje, aos 67 anos, depois de 20 dias preso.

Renné Sena ganhou na Mega Sena. Renné, na origem, significa “renascido”.

Calisto fugiu depois de estuprar a filha. Calisto, na origem, significa “muito bonito”.

Depois dizem que eu tiro onda de Deus… então tá.

Garoto de 8 anos tem suas preces respondidas. “Não”, disse Deus

março 19, 2007

Deus
Deus

Há 4 anos, Carlinhos Hideki tinha um sonho encantado. Do fundo de seu coração, ele esperava que Deus, um dia, respondesse suas preces para andar de novo. Muitos duvidavam de que seu celestial desejo fosse atendido, mas o sonho se realizou no sábado passado, quando o Senhor “pessoalmente” respondeu para o garoto na cadeira de rodas com um retumbante não.

“Eu sabia que se eu rezasse o bastante, Deus me escutaria”, disse o deslumbrado Carlinhos, sentado na cadeira de rodas onde, agora, certamente vai passar o resto de seus dias. “Agora Deus me respondeu. Eu nunca estive tão feliz em minha vida, exceto antes do acidente, quando eu podia andar e correr como uma criança normal.”.

A resposta de Deus veio aproximadamente às 10 da manhã, depois de uma série de orações particularmente fervorosa do pequeno Carlinhos. Testemunhas disseram que Deus prenunciou sua resposta com uma monumental coluna de nuvens, de onde quatro gloriosos feixes de luz divina romperam juntamente com acordes das trombetas dos anjos celestes. O milagroso evento ocorreu em frente ao prédio de Fisioterapia Pediátrica do Hospital de São Patrick, na cidade de São Roque, onde Carlinhos, três vezes por semana, se submete a sessões excruciantes para a retirada de excesso de fluído de sua espinha quebrada.

Angela Romano, a enfermeira responsável do turno, disse: “Uma incrível e ressonante voz disse: ` Carlinhos, Eu sou Deus, o Senhor, que criou os rios e as montanhas, o céu e a terra, o sol, a lua e as estrelas. Meu filho, Carlinhos, Eu lhe digo isso: Ouvi suas preces, e agora responderei. Não, você não poderá sair da cadeira de rodas. Nunca.”

Carlinhos recebeu sua resposta
Carlinhos mais tranquilo depois da tão esperada resposta

Paralizado em 2003, depois de um acidente que matou seus pais, Carlinhos, hoje com 8 anos de idade, vem servindo de exemplo para os fiéis da Igreja Evangélica Deus é Amor, instituição que mantém o orfanato onde vive com sua simples e abnegada devoção. Agora que Carlinhos teve sua resposta, cristãos de todo o mundo estão celebrando a história como uma inegável prova do poder da fé.
“O Senhor respondeu as preces de um pequeno garoto que se questionava se andaria de novo. E a resposta foi não”, diz o pastor Breno Figueiras, um dos mais respeitados guias da igreja de Carlinhos. “Por muitos anos esse garotinho sofreu com a dúvida de que voltasse a andar. E agora, Deus, em sua sabedoria e misericórdia, acabou com a tormentosa questão que afligia Carlinhos. Ele pode descansar aliviado sabendo que não sairá da prisão de sua cadeira de rodas, pois esse é o desejo do Senhor. Deus seja louvado.”
Questionado sobre suas razões, Deus respondeu: “Seu coração puro e a simplicidade de suas orações Me comoveram. Nunca vi tamanha fé. Sua alma confiante, tão cheia de inocente devoção a Mim, normalmente manifesta em horas a fio de preces perguntando, ‘Deus, posso, por favor, andar de novo?’. Sua justificada indagação foi tamanha que Eu, em Minha infinita justiça, decidi dividir com ele a Verdadeira Resposta para sua repetida querela colocada diante de Mim”.

“Será feita Minha vontade”, Deus encerrou.

Testemunhas afirmam que Carlinhos implorou por alguns minutos que Deus mudasse de idéia e curasse sua vértebra partida, mas o Senhor manteve sua posição.

“Deus recomendou por fim que Carlinhos pense na possiblidade de rezar agora para outros agendes com poderes divinos, como Jesus, Maria ou algum santo top de lilnha”, afirmou o médico de Carlinhos, Dr. Romualdo Guimil. “Deus preveniu de que será um tiro no escuro, no entanto, mas que deseja sorte a Carlinhos”.

Apesar da atenção especial recebida, Carlinhos mantém sua humildade em face desse extraordinário evento, reconhecido como a primeira vez que Deus responde alguém de “corpo presente”.

“Eu sei que Deus me ama, porque está na Bíblia”, disse Carlinhos. “Então, agora, estou feliz que Ele tomou tempo para me responder. Se eu pudesse andar agora, esse seria o dia mais feliz da minha vida.”

* Artigo livremente traduzido do Jornal The Onion, a mais confiável fonte de informação dos EUA.