Vacinado!

Publicada em versão reduzida na Trip.

 

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Horas a fio, em ritmo constante, homens esfolam a mão para deschavar o Daime

 

Um sonho estranho evapora na memória quando meus olhos abrem de repente, como em um susto, cinco minutos antes das seis da manhã. Babava em cima do cobertor, e não larguei da mão direita a caneta Bic nas três horas de sono que tive naquele quarto de hotel na Paraíba. Campina Grande, para ser exato. No caderno aberto em cima da cama, as duas últimas linhas das três páginas que escrevi na madrugada eram apenas rabiscos, garranchos de quem não se conformava com o abraço de Morfeu. Uma caligrafia torta para idéias pretensiosas – as deslumbradas impressões de minha primeira experiência com Santo Daime. Setecentos litros da bebida santa haviam sido preparados na noite anterior em uma enorme cerimônia. Eu era o único jornalista presente e não dispensei o copo americano que me foi servido.

A ocasião era solene. Alex Polari, grande guru do Daime, supervisionava e controlava a fornalha. Dezenas de mulheres cantavam o Hinário de São João em loop e homens devastavam suas mãos esmagando com espécie de porretes os cipós e folhas. Todos sob a influência do chá divino, eu incluso. Não vomitei, poucos ali o fizeram.

 

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Alex Polari prepara alguns dos 700 litros de Daime

 

O efeito, nada fraco, é uma profunda, e portanto estranha, lucidez. Nas seis horas sob o efeito, concentração absoluta. Algo inédito para um resignado disléxico. E quando deitei a cabeça no hotel entendi onde estava Deus naquela bebida. A luz branca da lua que entrava pela janela era sólida. Estava presente no ar. Meu pensamento brotava ordenado, linear como um texto. E, se eu insistia em fechar os olhos, memórias vivas tomavam o escuro e tudo ficava branco. Uma intuição convicta encheu minha alma (sim, leitores, eu tenho uma): tudo vai dar certo. E despejei imagens no caderno. Só dormi depois de rezar, algo que não fazia desde a infância remota. Mas o chá sagrado foi apenas o couvert. Não há tempo nem para ler a tal verborragia. Em 30 minutos deveria estar em um sítio próximo dali para entender melhor do que se trata uma potente secreção de um anfíbio, uma tal de “Medicina do Kambô”, a vacina do sapo.

Eu estava cobrindo o Encontro para a Nova Consciência, um gigante festival ecumênico onde religiosos e esotéricos comungam informações em quatro dias de palestras e rituais ininterruptos no interior da Paraíba. Mas confesso que, como ateu não praticante, minhas mais reveladoras experiências religiosas foram com psicoativos. Por isso amarrei meu burro no grupo que foi para lá falar sobre “Plantas de Poder”, ou as maravilhas naturais sul-americanas capazes de mandar mentes aos céus. Rodrigo Grunewald, um antropólogo gente fina, foi quem me falou dessa tal vacina, tirada das costas de uma perereca que aparece nos cafundós do Acre. Ele que me deu carona ao sítio onde José Gomes, filho de um pajé da tribo katukina, iria me aplicar o tal santo remédio. “Se prepara porque o negócio é forte. Dilata todas as veias, dá um calor danado”, me prevenia. Eu estava adorando a idéia. Apesar de cardíaco precoce, nunca me senti à vontade com comprimidos de Buferin, e a promessa de que o turbilhão do veneno do sapo limpa o sangue, tira preguiça, previne câncer e regula a pressão me deixou empolgado. Sou cético, mas adoro uma solução milagrosa.

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O pajé aplica o veneno/vacina em um de seus pacientes

O método: tomei um litro inteiro de água. Tirei a camisa. O “terapeuta” chega com um pedaço de cipó fino, põe fogo na ponta até fazer brasa e queima meu ombro em sete pontos, formando uma linha reta de círculos em carne viva. Arde. Em seguida, com um canivete, passa uma pasta (a secreção do sapo) nas feridas. Não demorou dez segundos…

Minha cabeça começa a pesar e sinto como se meu crânio estivesse crescendo centímetros por segundos. Um arrepio sofrido sobe minha espinha devagar. Começo a escutar meu coração ecoar nos ouvidos, acelerado, e uma onda nauseante me derruba. Deito no chão de cimento queimado e, como se a lucidez entrasse em apnéia, pairo no limbo entre a coragem e o arrependimento. É um inferno de 40 minutos.

É esse o meu corpo? Isso é frio? Sou eu mesmo aqui? Peraí, estou falando comigo mesmo? Bruno, é assim que se sente alguém que vai morrer envenenado… Mas sossega, rapaz, que o índio ali tá rindo da sua cara. É veneno, porra, pra que isso? O corpo inteiro sente enjôo e uma tremedeira sacoleja minhas tripas. Está tudo tão quente! Que frio é esse aqui fora? Bruno, suas veias engordaram… meus olhos fervendo. Rodrigo gargalha: “Olha a boca dele”. Mordo meus lábios. Estão duros e triplicados. Impossível falar. Gemo. Em um golpe súbito viro de bruços, porque sobe pela garganta como um chafariz um vômito amarelo e pastoso. E foi assim: regurgitei mais de dez vezes, até que eram apenas contrações do aparelho digestivo ou uma pasta grossa e mais escura saindo lenta da boca.

O gosto amargo e o cheiro podre não me incomodavam especialmente. Pois agora estava fascinado com as formiguinhas que devoravam meus sucos espalhados no chão. Olha, Bruno, espia só, isso é tudo McDonald’s. Arghhh, como queima a boca esse vômito. Ouço uma voz de velha soando dentro do ouvido: “Joga o lixo fora!”. Pois não, vovó. Blerghhhh. Outro jato que respinga em minha perna e me faz rolar para perto da terra.

Em meia hora, a primeira calmaria e uma estafa completa. Acho (não tenho certeza mesmo) que dormi por uns minutos antes de vomitar pela última vez e conseguir me erguer, enquanto as pessoas por ali riam muito de minha boca de… sapo!

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As ferramentas cirúrgicas e eu com a hedionda boca de sapo após a hecatombe fisiológica

Com os lábios gigantescos e uma fome africana voltei à cidade. Bateu: uma euforia me enche completamente. Tudo mais nítido, as cores mais reais, como nos anúncios da Fuji Film. E enquanto espero meu filé à Chateaubriand no hotel, Clodovil na TV falava sobre sua saúde e que o que faltava na humanidade era, justamente, DEUS. Eu gargalho como um ébrio. E chego ao cúmulo de dançar pelo quarto ao som do Falamansa. Sozinho. Sim, bateu! E me sinto saudável como nunca. Sem hipocrisia: como nunca. Espinha ereta, ânimo e bom humor que durariam 15 dias inteiros. Foi nessas condições, com uma boca humorística e a mente acelerada, que tive que lidar pelo resto do dia com algo deveras ausente naquela terça-feira – a realidade. Não parece, eu sei, mas estava lá a trabalho.

6 Respostas to “Vacinado!”

  1. zema ribeiro Says:

    relato simplesmente sensacional, bruno. abração!

  2. Barba Says:

    Gonzomístico esse relato. Apesar de nurtir muita curiosidade, tenho um preconceito do caralho com pessoal do Daime – derivado da curta convivência desgastante com alguns devotos. O lance do sapo é realmente assustador. O propósito é só o de “limpar” mesmo ou tem algo de comunhão sagrada também?

  3. DILLI Says:

    bah, Gonzalo! No creo!

    tava procurando imagens xde religiões brasileiras para meus alunos quitenhos, e encontrei nos fudeus!

    Não dá pra crer que além do monkey teacaher em Seul, tu partcipa na América Latina!!!!!!!!!!!

    Gonzo para ministro da educação mundial!!!!!!!!!!!!!!

  4. Duende Says:

    Tem alguma foto deste sapo ou o nome científico dele?

  5. alice Says:

    podem ser de várias espécies de sapos. a quantidade que os índios aplicam varia de acordo com o ‘paciente”. e cada sapo tem a sua quantidade, não é qquer sapo. acho que só perereca, na verdade. sou kardecista e criada no meio de budistas…tomei daime uma vez e posso dizer uqe realmente é sagrado. o entendimento não vem de uma vez, pelo que eu entendi a experiecia é mto individual. as pessoas do daime que eu alieu conheci um pouco tem um conhecimento bem gde sobre espiritismo e sobre autoconhecimento que eu aprendi no budismo. mto legal sua matéria, parab´nes!!

  6. André Braga Says:

    Hahahaha…. Sensacional!!!!!

    FUDEUS EXISTE!!!!

    Linda história….

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