Em Brasília, 14 horas

Minha primeira vez em Brasília. Reportagem publicada na Trip Especial Sono, que está nas bancas. Aqui tem mais fotos.

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Shhhh. Faz barulho não. Tá vendo como todo mundo aqui cochicha ao pé do ouvido? Tudo bem que aqui é o Parlamento, então parla. Mas parla baixo… tem gente dormindo ali no canto. Tá vendo aquele senhor barrigudo? O de brochinho no peito, de bandeira do Brasil? Tá quase roncando. Também, poxa, já é quinta-feira, são duas da tarde, hora de voltar pra casa, descansar, ver a família. Não? Quinta-feira não é dia de descanso? Talvez para você, preocupado aí com tua vida, com teu bolso. Aqui não – aqui é a casa do povo, dos eleitos que trabalham para o bem comum, para o progresso e a ordem nacional. Pensa que não cansa? Não ri, não… Pronto, acordou o homem:

“Você é jornalista”, já despertou cabreiro, vendo a câmera pronta para o clic. Sim, sou sim. O senhor é deputado? Esfrega o olho: “Não, sou não…” Conversa vai, bocejo vem, “sou articulador da frente evangélica”, diz. Ele se chama Severino de Azevedo e trabalha no Congresso de terça a quinta. Vez ou outra vai na sexta.
Mas, trabalha mesmo, Severino? Tem cargo no Congresso? Se espiga na cadeira fofa, faz silêncio, pede credenciais e emenda um interrogatório sobre a revista Trip, a pauta, a preferência espiritual da reportagem. Interrogatório encerrado: “O que quer saber mesmo?”. Qual o trabalho do senhor?. Severino responde como Cristo: por parábolas. “Repara o vento entrando aqui. O Congresso é assim – tem as pessoas, os plenários. Mas tem também o vento, a parte espiritual. Cuido da parte espiritual, evangelizo deputados. Articulo.” Mas, articula o quê, Severino? “Lobby, articulo pelos direitos humanos.”

A conversa fica mole entre o cardume de ternos e gravatas. Severino conta que era caminhoneiro e não dormia – viciado em rebite, maconha e cocaína. Arruinou-se assim, perdeu “uma fortuna”, ele jura. E graças à Assembléia de Deus hoje dorme o sono dos justos. Mesmo que ali, no café do Congresso. Ele explica que muitas ovelhas foram excomungadas de seu rebanho via CPI dos Aloprados – ou CPI do Fim do Mundo, que investigou o tráfico de ambulâncias.
A frente evangélica, formada por deputados protestantes de quase todos os partidos, sofreu um êxodo. Dos 60 parlamentares que tinham há quatro anos, só sobraram 40 na legislatura que diplomou-se em 2007. Severino descobre en passant que esta quinta em fim de expediente é quinta-feira gorda: instalação da CPI do Apagão. Naquele instante, o plenário 11 está lotando de crachás, brochinhos, holofotes, microfones… e as cobiçadas lentes da TV Câmara.

Ali ninguém dorme no ponto, não. Aqui se fala alto, se fala bonito, todo mundo sua a camisa debaixo do paletó. É o calor humano, a febre da cidadania. Oposição e situação discursam pedindo votos e os cargos principais da comissão que investigará o chamado caos aéreo: o apagão que embala o sono de brasileiros em aeroportos desde o final de 2006.
Os candidatos à presidência prometem isenção, objetividade, nada de chapa-branca, nada de caça às bruxas, provocam incompreensíveis polêmicas – como alguém discorda de discursos idênticos? Duas horas depois, Marcelo Castro, PMDB, primeira legislatura, situação, é eleito o presidente da CPI. É hora da coletiva de imprensa. Enquanto Marcelo promete ir fundo na investigação do “tráfico” (sic) aéreo, o plenário levanta vôo, encerrando o batente perto das cinco. Gustavo Fruet, candidado derrotado à presidência da câmara já tira o paletó a caminho da saída. Deputado, vai fazer o que amanhã? “Volto para o Paraná”. E hoje? “Aqui em Brasília se faz política em todo lugar, a qualquer hora.” Antes de ir, reforça: “E isso não é uma coisa ruim. É bom. É bom.”

De volta ao salão verde, enquanto Severino explica que planeja se candidatar no próximo leito, ops, pleito, topamos com um paletó bem cortado transitando. “Esse você tem que conhecer. Grande figura do Congresso. Conhece todos!”, Severino se exalta: “É o grande Severo”. Deputado, senhor Severo? “Não… alfaiate!” Severo Silva estende seu cartão e conta que trabalha de terças a quintas tirando medidas em gabinetes, arrebanhando clientes pelos corredores e cortando paletós para parlamentares – desde o tempo em que eram biônicos. Mas em horário comercial, Severo? “Claro! Estou trabalhando.” Ah…
Seu modelo mais barato sai por R$ 1.500. O mais caro, coisa de R$ 2.000. Faz uns 30 por mês. Heráclito Fortes, senador de feições batráquias, bem ativo na CPI do Mensalão, tem 150 trajes de Severo. Roberto Jefferson dispõe de 130 – o ex-deputado-tenor-dedo-de-seta precisou renovar todo o guarda-roupa depois da redução de estômago.
Severo é um alfaiate suprapartidário: veste situação e oposição pelo mesmo preço e capricho. Só se queixa do PT: “Eles não gostam de gastar dinheiro. Muito raro um petista pagar meu preço”. Severino ri, mas discorda. O evangélico gosta do PT, mais ainda de Lula. O lobista de Cristo explica seus motivos. “Eu tinha muito preconceito com Lula, mas comecei a respeitar muito quando vi que ele sempre leva a mulher nas viagens. Safado sempre deixa a mulher em casa, você entende… homem que leva a mulher pra dormir junto é de confiança.

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Sexta-feira, 11:30 da manhã

Instalada a CPI, puff!, apagão no congresso. Cinegrafistas cochilam nas poltronas rasas, uma turba de turistas idosos dos EUA adentra o Salão Verde e meia-dúzia de deputados escapam pela tangente das perguntas, também elas idênticas como carneirinhos de insones, mexendo silenciosamente os lábios justo a celulares provavelmente desligados. Nos corredores mais escurinhos dos gabinetes, apenas secretárias teclando. Quando, ora só, João Paulo Cunha passa.
Grande homem público esse JP… mesmo não-eleito, com o nome enlameado em contas de Marcos Valério, continua ali, trabalhando pelo bem comum, já que ex-presidente da Câmara tem gabinete garantido mesmo sem mandato. Acompanhado de três paletós, sem tempo para maiores declarações, adentra o gabinete luxuoso de Arlindo Chinaglia, o atual presidente do parlamento. Vamos ao Senado?
O carpete troca de verde para azul e a coisa fica mais chique. Mais granito, mais limpeza, uma maca de prontidão no corredor pronta para algum senador ameaçando o sono eterno. São seis e meia, o sol cai lá fora e apenas três homens estão vendo, na tribuna, o senador Eduardo Suplicy. O pai do Supla fala sobre…. chuta?… o Renda Mínima.
Seu pronunciamento de ninar é sobre o Iraque, a possibilidade de um programa de renda mínima por lá, e da insegurança que o impediu de palestrar em Bagdá sobre… o Renda Mínima. Saindo de lá, na quinta mesmo, pegou seu vôo para São Paulo. Ainda sob efeito do desandado controle aéreo, rodando sobre São Paulo, aguardando autorização de pouso, passando das 22 horas, sorteou para os passageiros seu livro sobre… Renda Mínima. E palestrou no microfone sobre suas idéias por 20 minutos. Alguém falou em apagão aéreo? Boa sorte, CPI.

É sexta-feira, graças a Deus, e o Congresso está em plena atividade – turística. Estudantes, mais uma turma de americanos, casais tirando fotos diante do anjo esculpido no Salão Verde e muitas cadeiras livres. Severino passa e se acomoda no café. No Senado, mostra o telão, há sessão.
Procuro o Collor de Mello, seu partido informa que “o senador não foi ao Senado na semana passada por problemas de saúde, está com conjuntivite”, veja você. Clodovil também não está, foi para Ubatuba, encontrar com suas bases banhistas e procurar soluções para outro problema de saúde, a dengue que assola o balneário.
No plenário, desce Heráclito, impecável em seu vasto terno Severo Silva. Sobe o senador Sibá Machado, PT acreano. Ele havia lido o relatório que a ONU divulgou no dia anterior sobre a catástrofe do aquecimento global e resolveu falar em nome do povo brasileiro. 

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Sibá Machado explica o movimento de rotação, translação…

Discorre sobre a imensidão do universo. Dos bilhões de galáxias e da idéia do infinito. Explica que a terra gira em torno do sol em ritmo diferente dos demais planetas. Explica a rotação e a translação e que a inclinação do eixo terrestre propicia as estações do ano. Vem o equinócio, o solstício.
Explana de modo amador sobre a composição do ar. Com um tom de homem público emenda: “Há o nitrogênio, o oxigênio e o gás carbônico. E há também o xenônio, o argônio e até o gás néon. São chamados gases nobres!”, dá um soquinho no ar enquanto lê seu discurso.
Sibá prolixa livremente sobre noções de física de almanaque, e o único senador que o assiste cochicha ao celular. Três (!) taquígrafas tratam de enfiar nos anais da casa a desconsolada fala. Para não cair em uma siesta antes do almoço, a reportagem sai à rua.

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Em Brasília, 14hs, quase ninguém na larga avenida. A vista longa de uma fileira de ministérios e os vazios do poder lindamente dispostos por Niemeyer. Uma cidade sonhada, e que parece mesmo irreal, no entanto ali de pé. Não dá pra destruir, foi cara demais. Não dá pra abandonar – é linda. Não tem como dar certo… é um curral de poderosos. E respirar o vento ardido da cidade é a prova mais democrática de que ela não deveria estar lá. Ainda assim, não importa. É como o sono: depois que veio, Brasília é irreversível. 

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3 Respostas to “Em Brasília, 14 horas”

  1. barba Says:

    “Lobby, articulo pelos direitos humanos.”

    Traduzindo:

    “Lobby, articulo pelos direitos humanos. Sou contra o aborto e o casamento entre essas aberrações homossexuais.”

    Gostei bastante da matéria cara.

  2. Bruno Torturra Nogueira Says:

    “Lobby, articulo pelos direitos humanos”

    Traduzindo:

    “Arranjo mutretas com deputados evangélicos, os mais fáceis de convencer, já que rebanhos dizimistas votam de olhos fechados. Aliás, tô de olho eu mesmo em um mandato logo mais, pra garantir a pensão dos netinhos.”

  3. Regina Says:

    Muito boa a matéria. Só estão esquecendo que nesta cidade moram pessoas. Pessoas!… Pessoas que respeitam o resto do Brasil, mesmo sem considerar os ‘vexames’ que esses brasileiros enviam prá cá.

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