443 anos de É Paulo

Mutantes chegam
Mutantes acharam a glória de volta à cidade natal.

Por conta de meu emprego, há cinco anos desfruto de um privilégio considerável: credenciais fáceis para os melhores shows do país. Vi muita, muita coisa boa ali do gargarejo. Algo tão prazeroso quanto viciante. Rapidamente, ver espetáculos no fundão, junto com a platéia normal, me dá nos nervos. Arrogância, podem dizer. Nem tanto.
Entendo que muita gente possa se ofender, mas é como viajar de primeira classe ou usar drogas realmente boas – é uma séria mudança de parâmetros.
Agora a arrogância: acredito que ontem usufruí da melhor credencial da minha vida, no show dos Mutantes no parque do Ipiranga. Assisti, confortavelmente, no lugar mais próximo possível de Arnaldo Baptista.
Não vou cair nos frios elogios elaborados como adora o pomposo e infantil jornalismo musical da Folha. Acontece que senti um impulso de deixar registrado meus sentimentos ao ver a volta da mais importante banda brasileira após ler o texto de Marcelo Negromonte, editor do Uol Música. Estão lá os detalhes, as roupas, os estilistas, o set list, as críticas ao microfone e os convidados. Mas…

A chamada objetividade jornalística misturada ao “senso crítico” muitas vezes causa na imprensa cultural uma espécie de catarata emocional que a distancia do sentido mais elementar do espetáculo: o prazer. Muito repórter naufragado no mar de áreas vips e CDs grátis acaba registrando para a posteridade textos tão próximos de análises econômicas que nem parece que estava presente, no fim das contas, em uma celebração.
Escrevi nesse mesmo blog que não explicitar certas alegrias é um tipo horrível de arrogância. No caso de ontem, omitir a alegria alheia, também.
Não se trata de um texto injusto nem tão frio assim. Há o “começo triunfal” e elogios à performance de todos. Mas duas passagens, na minha opinão, se devem à tal catarata.
Ao ponto:
O editor do Uol, no meio de seu texto, tenta uma ironia ao dizer que Sérgio Dias puxou pra si o papel de líder e que, no passado, era o “o moleque”.
Marcelo ouviu os mesmos discos dos Mutantes que eu escuto há anos? Sérgio, menor de idade, já era o responsável pela guitarra mais original e influente do rock brasileiro, só comparável a Lanny Gordin. Ser um moleque, no caso, só pode ser um elogio.

O texto, provavelmente a resenha mais lida do show de ontem, acaba por dizer que, se os Mutantes não se renovarem ou desmancharem a banda logo, vão acabar como uma piada.
Marcelo estava no mesmo show que eu? No mesmo chiqueirinho VIP que aproveitei tão deslumbrado? Sérgio e Arnaldo tão felizes e bem em seus lugares. Dinho Leme, tão acanhado como figura, tão exuberante como baterista. Zélia Duncan tão ciente de seu papel e fazendo bonito, tapando como pode a vergonhosa lacuna de Rita Lee (que desdenhou de seu passado e dos irmãos que a tornaram a maior mulher do rock nacional). O resto da banda, bastante jovem, rindo à toa e, como tantos dentro ou fora da área Vip – felizes demais pelo milagre no palco. E será que não sentiu o que milhares de pessoas ali sentiram? Que a música dos Mutantes superou décadas inertes tão carregadas de mágoas para redimir o rock brasileiro, hoje em dia tão, aí sim, digno de piada.

Arnaldo
Santo Arnaldo Baptista, padroeiro do rock brasileiro

Arnaldo Baptista é o maior compositor do rock nacional, sofreu os diabos por sua tentativa de suicídio há mais de 20 anos. Ver seu rosto iluminado, ouvir sua voz e sua alegria incontinente é realmente emocionante. Sérgio Dias estava eufórico. Marcelo chama-o de “megalomaniáco”. Eu chamo de realista. Uma multidão de 50.000 derramada pelos jardins do parque, pelas escadarias do palácio que celebra a independência do Brasil, no maior público de sua vida. Marcelo chama-o de megalomaniáco. Eu chamo de realista. Espia a foto:

Megalomania?
Ainda no show de Tom Zé, a “megalomaníaca” realidade

O que mais me entristece em textos tão apurados, detalhados e, no entanto, descatáveis como o do uol, é o tipo de conclusão tão rasa e desnecessária. Vejamos, o texto acaba condicionando a relevância dos Mutantes à seu fim “irrestrito” ou a novas canções para o século 21. Argumentar contra isso não é possível, já que se trata de um óbvio colossal: qualquer banda já feita ou a se fazer na história da terra precisa de música nova ou de um fim se quiser continuar relevante. E, no caso dos Mutantes, é uma ofensa especial. Eles fizeram músicas geniais e eternas o suficiente para não precisarem compor mais nada. E se subirem ao palco caquéticos, mas com a mesma alegria de ontem, por mim podem tocar “Balada do Louco” pelos próximos 70 anos.

mutantes_cb1.jpg
“Vivemos na melhor cidade da América do Sul…” – no final do show, deu pra acreditar no refrão

E quero, enfim, deixar assinado que foi um show maravilhoso no sentido mais espiritual da palavra. E perfeitamente resumido na louca genialidade do chiste de Arnaldo em sua segunda frase ao microfone:

“São Paulo vai virar É Paulo.”

Ali, por mais de duas horas, aqueles 50.000 mais o palco, bem à moda dos Mutantes, ficaram “todos juntos, numa pessoa só”. Arnaldo tinha razão, em seu aniversário, a cidade Foi Paulo.
E isso, desculpe Marcelo, nunca vai virar piada.

E um presentinho de Fudeus a meus parcos leitores. Um vídeo que eu mesmo fiz de Arnaldo entoando “Cantor de Mambo” pra provar que o cara continua gênio e que meu lugar no show, putaquepariu!, era bom demais:

Excelentes fotos do show dos Mutantes e de muitos outros shows no flickr de Caroline Bittencourt. Espia.

6 Respostas to “443 anos de É Paulo”

  1. Eva Says:

    vivemos na melhor cidade; e tu ainda tem pulseirinha pra área vip. foda.

    [ó, tbm escrevi um troço lá. bj.]

  2. caroline Says:

    mambo!!!!
    pela banalizacao da musica boa
    quero mutantes uma vez por semana na terra da garoa!

  3. tina oiticica Says:

    Não levei a sério os comentários levianos do carinha da UOL. Realmente o Sergio era um garoto, muito na dele nos idos dos anos sessenta. Acho natural quando falam besteira sobre a minha geração pois de nada sabem.

    Gostaria de poder ter ido. E mais. O grupo Violent Femmes, depois de vários discos, decidiu tocar só o primeiro disco, a essência angst púbere. Acho ótimo! É como os Stones; conheço os dez primeiros discos e os outros não me interessam.

  4. renata Says:

    parabéns. este foi o único texto digno de alguma atenção deste show dos mutantes. também consegui a pulseirinha e também fiquei um tanto quanto irritada com a tal frieza blasé de quem precisa colocar abaixo de seu cargo toda e qualquer emoção puramente pessoal.

    que venham outros.

  5. tina oiticica Says:

    Teu link tá lá na lagrima psicodelica blogspot. Espero que goste. Não consegui ver e-mail pra você.

  6. O Retorno! « Arnaldo Baptista Says:

    […] Blog Bruno Torturra Nogueira […]

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