O Jesus Cristo do Estadão

Pernil
Eis o pernil antes de virar sanduíche

Dispenso os gastos elogios ao sanduíche de pernil da lanchonete Estadão. Trata-se também de comida barata na madrugada. Barata, corrijo, em termos, já que os 8,50 necessários para uma refeição completa de um homem adulto pode bem ser uma atitude perdulária. Enfim… Pernil recém tirado da perna assada, suculenta, iluminada por lâmpadas de gás dentro da vitrininha do balcão. Cebola, pimentão, provolone na chapa e molho marrom no pão francês. E toda essa sutileza é servida em um balcão onde come funcionário público, polícia, travesti, família, casal, michet, bêbados, crentes. Normalmente, todos ao mesmo tempo.
Em uma terça feira qualquer do mês passado, Zuza, o velho caixa da madrugada, contava histórias com sua voz de caçapa frouxa. Mais de 20 anos no centro de SP, naquela mesma madrugada de cheiro forte.

– Aqui, meu amigo, é lei do cão. Sabe esses dois que saíram aqui?
Contou que eram policiais. A mulher, uma delegada. Jaqueta de courino, brilhante, cabelo armado e maquiagem mal desenhada, últimos respiros da ex-taquígrafa, endurecida pela Força do Estado. Feia pra burro, falava e sacudia as mãos estupidamente. Timidez, nítida, pelo pequeno galanteio que o outro policia ofereceu – um bom-bom genérico embrulhado em alumínio vermelho, de R$0,50, que ela, por falta de troco dele, teve que pagar. O policial pega mais um docinho, quase enfia no bolso. Hesita o furto. Mas tenta não pagar, diz a Zuza, impávido no caixa, que dê o brinde pela conta de R$14,50. Nada feito, R$0,10 até perdoava, R$0,50 não.
Zuza fez cara de desprezo ao vê-los sair, e sorriu ao lembrar de outra delegada. Linda, gostosa, atreveu-se. Loira, cabelos compridos. Comia, como as prostitutas e jornalistas ao seu lado, pernil. “Lei do cão”, lembrava.
Uns rapazes, “sabe bobão? Então, bobão”, se sentiram confiantes demais. Eram do interior e não sabem do centro. Um deles:
– Ô, gostosa.
A delegada loira e linda deixa o pernil no prato e, de boca cheia, capricha um tapa na cara da sujeito. Bobos os sujeitos… Os amigos tomam partido e lascam a mão na bunda da autoridade, ainda à paisana. Agora é tarde.
Ela tira a pistola calibre 40. Pânico. Os rapazes correm rápido como em filmes mudos. Travestis fingiam não ver, mastigavam os sanduíches, o amarelinho achava graça. A delegada gosotosa dá um tiro para o alto. Um dos bobos tropeça e rola de susto. Foram pegos por homens que brotaram na rua. Apanharam na calçada imunda. Houve quem batesse palma.
Jogados no camburão, pensavam em Araçatuba, na doce cidade em que só os homens carregam distintivos. Deram suas desculpas. Estavam fazendo um curso em São Paulo. Promissores, seriam gerentes do Unibanco em poucos meses. Bobões. Prato cheio para a loira delegada. Diretoria avisada. Estavam na rua, prontos para Araçatuba.

“Pior foi outro, metido a carioca”, Zuza continua enquanto faz um troco. “Sabe cara com jeito de carioca, mas que nem carioca é?” Sei, Zuza. Conta que o sujeito usava óculos de lentes espelhadas. Cabelinho engomado, sem brilho. Mexeu com um travesti. Um travesti baixinho, tarrancudo.
– Ô, Mariazinha! – atiçou o folgado – Que beleza…
O travesti virou logo, não deixou o homem acabar. Foi para fora da lanchonete, ao lado de uma banca de jornais. Com dois dedos tirou aberta uma navalha da bolsa. Voltou com os olhos vidrados. Errou o alvo a primeira vez, tentando fazer uma fenda na nuca do carioca da Móoca. Desespero.
O homem desaba de susto e de gatinhas tenta fugir. Levanta como uma ave parva, de olhos fechados. Toma o corte definitivo, para toda a vida – um talho da maça do rosto ao lado do queixo. Ainda assim, sangrando copos pela face, deu motivos para que um policial lhe enchesse de tapas antes de chamar uma ambulância. O travesti? Ficha longa, oito inquéritos por agressão. Um por tentativa de homicídio.

Começa tudo de novo. Pernil, cebola, pimentão, pão francês e molho marrom. Sem provolone dessa vez – mais barato. Eu e Felipe Nelson, inseparável praguejador, sentávamos na vitrine, camarote lateral, na frente da janela para a rua, ao lado da porta de entrada. Segunda mordida, vem um mendigo, um velho.
– Me paga um café?
– Não posso. – só depois o notei.
Velho apodrecido em vida, fedia horrores. Cabelos abstratos, volumosos, cheios de pedaços e migalhas. Roupas eram como cascas, mais carne que tecido. Um devastado. Olhou-me fundo e foi horrível. Ele abaixou a cabeça e foi ao lixo sem pedir mais nada a alguém. Tirou latas, vasculhou com a mão preta guardanapos e lambeu farelos, em busca de qualquer coisa com calorias.

Uma culpa instantânea me ergueu, no meio do segundo sanduíche, e tentei oferecer metade do pernil. Não deu. O garçon que cuida do movimento chegou antes. Cutuca-o nas cotas. Nada. Agora mais forte. O velho sacolejava, fingindo que ainda não está acontecendo. Toma mais cutucão na casca. Não deu.
Saiu correndo, berrando e escancarando a gengiva seca na vitrine do lanches Estadão. Berrou tanto, um urro antigo e animal. Ele já não escutava nada. Eu já estava do lado de fora, ao lado da banca, tentando entregar o sanduíche ao homem. Ele atira uma pedra dentro da lanchonete. Berra mais alto. Medo. Em passos longos voltei para a vitrine de onde saí.
Ele chorava seco, um desespero de juízo final. Se enfurece agora, parece que pensou. E ofereceu a maior ofensa que lhe estava ao alcance: abaixou as calças e levantou a camisa. Estendeu-se em cifose. Pra rimar – não era pênis, sim fimose.
Uma pele pendurada, flácida e vermelha como couro fresco. Chacoalha. Berra. E vira. Mostra o traseiro para o desfecho monumental.
Penso que a miséria mais profunda é a miséria do ânus. E ele era isso – um miserável anal. Segura um lado com cada mão e separa suas nádegas. Lá estava a cor escura, densa. Marrom não era, não era preto nem esverdeado. Era a cor de carne esquecida. A cor que tem mais cheiro que matiz. Havia um pedaço mais claro. Outro, mais nítido, vermelho. Sujo, profundamente sujo. E eu olhei para o pernil, com vergonha do que via, fascinado e triste. Aquela carne de porco do meu sanduíche, brilhante e suculenta, também não tinha cor.

sanduiche
Eis o sanduíche

Voltei os olhos. Ele dava tapas loucos na bunda e na coxa. Cansou um pouco e abaixou por fim as cascas de seus panos. Xinga menos, volta a verborragia em que só se distingue, “puta”, “rua”, “fooome”. Duas vezes “fooome”.
E estava lá, o Jesus Cristo do Estadão. Pagando por todos os pecados daqueles homens e mulheres mastigando calados, sem misericórdia, sem paixão. Enquanto comíamos carne de porco entre ganância, gula e sodomia, o devastado mostra as entranhas do inferno em vida. Ninguém dá pelota. Ninguém vira o rosto ao passar com os ouvidos e narinas a palmos daquele homem fétido que, afinal de contas, devia ter um nome. Mas não tinha, e nunca mais terá um nome. Não existe, quase, aquele mártir. Era o messias sem fé, um fantasma ardendo de tão descrente.
E ali, meu sanduíche de pernil, metade e mais um pouco. Demorei a comê-lo. Felipe Nelson fazia coro de carpideira comigo. A vida era mesmo uma bosta. Suspiro e logo a piada, – “cu de mendigo, bom nome para uma banda”. Risos perversos e sinceros. E todo mundo no Estadão come com olhos vidrados. Sinto os meus olhos vidrados. Lei do cão, seu Zuza.

– E aí, Fudeus, vamos? – Nelson tinha o ar sério, duro.
– Vamos.
R$12,20 a minha parte. Facilitava o troco e pensava no mendigo, em mim, em dinheiro e na namorada. Disse a Felipe que, depois do parto, não fica bem chorar por que nasceu. Rir, isso sim, valia a pena – já que sofrer toma tempo e tempo, enfim, é a vida em si.
Aposto que o metido a carioca faz piadas com o talho no rosto e os idiotas de Araçatuba enchem a cara, gargalham e fazem pouco da carreira abortada. Até o traveco tarrancudo, na cadeia, ainda vai ter sucessivos orgasmos e sonhar bonito. Exceto para ele, o mendigo de alma oca.
Fiquei feliz, que vergonha, agora exatamente. Pois há um ponto final logo ali, no fundo dos fundos do mendigo. Um final que me redime. Pois estou mais longe da morte do que ele. Me sinto feliz, subitamente, pois não sinto uma alma disposta a sair de mim e ir pro inferno. Pois vejo o mendigo, vejo que sou real, e reconheço o inferno – ser um fantasma. É pior do que a vida, é bem pior do que a morte.

7 Respostas to “O Jesus Cristo do Estadão”

  1. Eva Says:

    Caralho bruno. Foi tu mesmo que escreveu isso? Brincadeira. Ó, duas palavras: GÊ-NIO.

  2. Setzer Says:

    Idem comentário prévio.

  3. leila Says:

    legal o blog, legais seus textos. m-m-m-m-as… carioca de cabelo engomadinho e óculos espelhados, com o perdão da má palavra, só se vê em Sumpaulo!

  4. paula Says:

    — de novo, sempre, acho, deu vontade de chorar essa história. inda bem que não é TODA a verdade, né?..
    (agora sobre o outro post: o zappa é mesmo FODA. queria ter essa eloquência toda nas reuniões de trabalho com os malditos publicitários.)
    inté, meu querido.

  5. Maurício Angelo Says:

    Excelente cara. Achei seu blog vagando pela internet. Sei lá como. E, na condição de “jornalista” – seja lá o que isso for – me admira ainda mais. Leio sempre. Abraço.

  6. Roger Says:

    esse texto é massa d+, ja tinha lido ele uns anos antes no Dossiê Fraude, foi vc que escreveu??

  7. cássio ribas Says:

    du kralho a foto da franguinha lá em cima, tarei! Depois volto com mais comentários pois só agora descobri esse blog ou site sei lá. abração aí pra todo mundo.

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