James Brown não descansa em paz

JB no Palmeiras
James Brown rindo à toa, ao vivo no Brasil em 1978 no
clique perfeito de Penna Prearo

Fui a dois shows de James Brown em minha vida – obrigado, Senhor. O primeiro no Palace, o segundo, dois dias depois, no velódromo da USP, em meados de 1994.
Não me lembro bem do set list, mas de detalhes cravados – dois bateristas, dois baixistas, de um percussionista inflamado que atirava alto um pandeiro e das gostosíssimas bailarinas em frenesi. Eu nem passava perto das drogas naquele tempo, mas reconhecia na cara, olhos e disposição de muitos no palco o efeito de substâncias mal quistas pela família brasileira.
James Brown estava velho, mas nada caído – sua alma nunca coube no corpo pequeno. A voz explodia, os olhos apertados quando berrava. Eu imaginava quantas e quantas vezes ele havia cantados aqueles mesma músicas, feito as mesmas piadas e os mesmos passos. Seria esperar demais que o homem, como mentem os artistas, “sentisse a mesma emoção todo dia”.
Não. Era um trabalho, dava pra ver. Mas um ofício que ele fazia questão de executar melhor do que ninguém no mundo. No início do show, invariavelmente, desde 1961, seu MC bradava: “The Hardest Working Man In Showbusiness”.
E lembro do final do show, mais clássico do que a intro, onde ele faz que sai do palco, arrasado de cansaço e tristeza, é coberto por um manto ofuscante com suas iniciais e… num tranco se livra da coberta e volta ao microfone decidido para mais berros e aplausos incansáveis como ele.

Eu tinha 15 anos, havia acabado de montar uma banda de Blues e Rock’n’Roll – ver James Brown ali na minha cara (a mesa era boa pacas…) era tipo perder um cabaço, tomar uma droga forte, boa, sem remorso.

No natal ele morreu, todo mundo sabe. E só fiquei sabendo dia 30, quando o Jornal da Globo mostrou o velório de JB no teatro Apollo, em Nova York.
Escutei um dos Live at Apollo, lembrei do show e procurei umas fotos que fiz do tal show do Palace. Não achei. Tentei escrever um texto para esse Fudeus, não rolou…

Sexta passada deixei a patroa em casa para comer uma pizza na Real, do lado de casa. No balcão está o chapa Penna Prearo, fotógrafo veterano, com uma alma apertada no corpo como JB.
Conheci Penna em uma reportagem que fizemos juntos, cobrindo os dias que antecediam a gravação de um DVD ao vivo de uma banda evangélica – a Praise Machine.
Ele era um expert em clicar bandas, desde os anos 70.
Já no primeiro dia de nossa matéria, Penna me contou de muitos cliques seus – retratos clássicos de Elis, Tim Maia, Mautner, Gil… E James Brown.
Quando lembramos, ali no balcão, da morte do cara, lembramos das fotos.
Quando entrei em casa de volta, Penna já havia mandado os cliques por email.

Nelson Triunfo
Nelson Triunfo triunfante na platéia do Chic Show, a festa back paulistana que chegou ao topo com James Brown. (foto de Penna Prearo)

JB também havia pisado por aqui em 1978, ano em que nasci. E Penna estava lá, no Palmeiras, no palco, registrando o Papa em plena forma.
A platéia sem área VIP, sem pulserinhas – o gargerejo sem camisetas do celular que patrocinou, mas cheio de pretos, e fãs.
Que fotos sensacionais.
Na janela ao lado, no uol, a chamada: “corpo de James Brown ainda não foi enterrado.” Já houve três velórios e ninguém jogou terra sobre o caixão.
Na hora me veio a imagem dele entrando e saindo do palco, se livrando do manto cintilante e voltando para um pouco mais de aplauso.
Seu corpo não se conforma com o caixão, e a alma do rei do soul, por mais mórbido que pareça, se recusa a descansar em paz.

Então, já que JB ainda está sendo velado, ficam aqui minhas condolências ao Papa que conclave nenhum substitui.
Nas fotos de Penna Prearo e nesse links absolutamente histórico:

  

Em 1968, assim que Martin Luther King foi assassinado, negros em todos os EUA armaram justificados protestos e distúrbios. James Brown tinha um show marcado em Boston (cidade de um silencioso, mas intenso racismo), imediatamente cancelado pala produção.
James Brown insistiu em fazer o show e transmiti-lo ao vivo pela TV para tentar conter as pessoas em casa e evitar a violência. Resultado: Boston foi a única grande cidade amerciana sem distúrbios.O povo negro ficou em casa para ver o homem tocar.
JB ainda conteve no verbo e em inacreditáveis passos de dança uma pancadaria prestes a acontecer entre polícia e a craude em cima do palco.
E… o triste – depois desse show, o governo americano, temeroso, percebeu o poder negro que James Brown tinha. E começou uma perseguição fiscal furiosa que lhe custou suas rádios independentes e muito de sua saúde mental.

10 Respostas to “James Brown não descansa em paz”

  1. Guilherme Says:

    Bacana.
    A vida desse cara dá pra diluir em uns 100.

    Parabéns pelo blog. gostei. Tá lincado no meu, dá uma olhada lá.

    Forte abraço

  2. Ricardo Meirelles Says:

    Excelente blog! Tomei a liberdade de citar um trecho da sua matéria sobre o protesto contra a Cicarelli no meu. Um abraço!

  3. Edson Junior Lain Says:

    Duca.

  4. Ana Pratalli Says:

    Ótimo blog!

  5. caroline Says:

    nunca vi jb, pena.
    mas penna registrou no capricho, so pra variar…

  6. Paula Carvalho Says:

    Eu vi JB na França em 1988. Fantastico! Um publico europeanamente sentado e aplaudindo respeituosamente o frenesi delirante do artista enquanto que , no fundao do teatro, uma galera de estrangeiros pulava e cantava como loucos, soltando gritos de YUHUUUUUU!!!!! E é claro: eu = fundao. Ah como é bon recordar esse momento! Showzasso!
    Excelente artigo sobre JB! E acho dificil que ele descanse em paz, com tanta gente se lembrando dele tao apaixonadamente. E graças aos cliques precisos do amigo Penna Prearo, podemos nos relembrar desses momentos com maior exatidao.
    I feel good!!!

  7. dinho Says:

    james

    o melhor dançarino dos 80

  8. delinjer Says:

    gostei da sua materia ,pois são dois motivos de dar muita saudades;assim como diz a musica do Thaide e Dj hum¨Que tempo bom que não volta nunca mais¨e são eles nesta foto a CHIC SHOW e JAMES BROWN
    um abraço……..Delinjer

  9. Éddy Brown Says:

    HÁ PESSOAS QUE USAM SUA ARTE PARA DAR MUITA ALEGRIA AO POVO SOFRIDO DE TODO O MUNDO, JAMES BROWN FOI UM DESTES. VALEUUU…
    ABRAÇOS…

  10. The SoulMan Says:

    Realmente, quem pisou no século 20 e não foi em um show do Mr. Dynamite não sabe o que perdeu. Era energia pura! Estive no ginásio do Palmeiras em 1988 e o que eu vi, talvez nunca irei ver novamente.
    Influência geral, de Michael Jackson a esses bundões pouco criativos do Rap moderno.

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