28 anos de mim mesmo

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Caricatura do jovem Millôr Fernandes, nunca antes piblicada, feita por Irene Rodrigues

           Para uma publicação com tão poucos textos, pode parecer que Fudeus é um local para exorcizar demônios familiares, psicanálise pública, sei lá. Sou contra, em princípio, os blogs com mais ego do que inteligência, com mais “pensamentos” do que idéias. Acontece que essa semana foi uma sucessão de reencontros, coincidências e um bem-vindo intensivão de “como entender que a vida acaba e tudo bem”. Inevitável despejar aqui o saldo (em aberto) disso tudo. Prometo aos meus leitores, todos os seis, que no próximo F5 eu volto ao jornalismo sem critério que tanto aprecio.
         Vejamos…

         No texto anterior há o contexto que não pretendo repetir. Leiam, por favor, antes de seguir aqui. A novidade é que, no dia seguinte da morte de Jece Valadão, a coisa mudou bastante de perspectiva. Ao ponto: fui entrevistar o Millôr Fernandes em seu estúdio.
          Besunto-me no óbvio para dizer que ele é um de meus heróis. Não sei se tenho 3 heróis. Millôr é um deles. E quando foi marcada a data, uma semana antes, suportei uma ansiedade no limbo entre o orgulho e o medo. Temia parecer burro. E, em segundo lugar, temia ofender o homem ao tocar no inevitável assunto de sua condição de saúde.
       Como se sabe (como pouca gente sabe), Millôr foi parar no hospital depois de uma violenta dor de cabeça que lhe causou seqüelas. Derrame? O eufemista AVC? Enxaqueca? Aí sai de cena o homem mais livre da imprensa brasileira, a mente feroz e potente que faz filosofia da avacalhação.
          Não à toa, evidente, também ele se besunta: “o corpo é sagrado”. E revela-se o único tabu de Millôr Fernandes: a saúde. Evidentemente sofismando, ele explica: “Nenhum médico soube dizer nada, nada, nada. Fiz exame, gastei uma fortuna. Ninguém sabe dizer. Estou perfeitinho”. E ergue-se e caminha com dificuldade.
          Sobre isso, não tenho mais nada a dizer. Não é, ou não deveria ser, motivo de fofoca a vascularização do cérebro de um senhor de 83 anos. Nem que seja um dos mais privilegiados já encarnados nessas terras. Mas, como estava eu já mergulhado em pensamentos degenerativos, driblando a imagem de minha avó acamada, me recebendo como recém-chegado de viagem toda vez que eu entrava em seu quarto, o “incidente” de Millôr significava mais para mim. Quando vi, na parede ao lado de seu computador, uma caricatura de seu rosto feita por minha avó sessenta anos atrás. Não soube o que dizer.

            Não levei uma pauta. Entre o potencial desperdício e a segurança de perguntas planejadas, fiquei, perdulário de vocação, com a desperdício: uma conversa fiada com um de seus mestres. E, depois da caricatura na parede, o assunto foi natural. Falei da família, ele lembrou de minha avó, da morte da véspera de Jece Valadão e nós, educadamente, evitamos o assunto de Dulce, minha tia-avó, ex-mulher de Jece Valadão e também ex de Millôr. Aliás, Millôr foi o primeiro namorado de fato dela.
         Pelas quatro horas seguintes falamos da vida, e eu puxava vez ou outra o “tema” que deveria reger aquela entrevista para a Trip: educação. É o assunto que vai alinhar toda a edição de março da revista. Sobre isso, o texto será outro (com preço de capa).

         Millôr é um homem doce e generoso, cínico e cheio de si. E consciente, ainda assim feliz, de que a velhice lhe bateu à porta. Repete seus pensamentos, sua filosofia há muito publicada, e dá a entrevista que quer. Ele é quem conduz o repórter na dança. Mas poucas vezes nessas quatro horas o homem definiu algo que eu já não havia lido em sua obra. Repetia-se, sim. Demérito nenhum, já que as verdades que ele despiu ainda estão todas durinhas. Mas eu não parava de sentir o peso da velhice que me cercava durante aquela viagem ao Rio. E Millôr ali, se doendo para levantar, esquecendo palavras e perdendo a todo momento o fio da meada, não me deixava esquecer do ruído da morte.
           Aquele herói, que tinha na parede seu rosto jovem desenhado por minha avó Irene quando tinha as mãos firmes (hoje não mexem), que namorou minha tia-avó (a ex do Valadão), que ia ao teatro com meu tio (já morto), estava falhando. E uma aflição contida se esconde em meu sorriso de fã. A angústia de um dilema que tenho em mim há tempos: quanto melhor a vida, mais triste é a morte.
        “Millôr, como você aceita a morte?”
        Não fiz a pergunta. Seria fácil anos atrás, ou há meses, antes dele sentir no cérebro o peso dos anos. Não tive coragem, pra ser sincero. Apenas esperava a lição definitiva do meu gênio favorito. “A vida só ensina que a vida não ensina nada”, ele disse no meio de uma digressão. 
        Hum… frase fácil. E meio suspeita para um homem que entendeu tanto como ele. Me provava assim, outra tese que carrego: que a inteligência é a melhor máscara da burrice. E que um bom texto prova que 2+2 dá 5. Não, Millôr, há lições no fim das contas. Discordar dele foi o suficente para que eu não me sentisse burro. Tirei das costas o medo vaidoso da humilhação.

         Enfim, a conversa com Millôr ainda está viva aqui dentro. Por motivos que não sinto vontade de expôr aqui, ele aprumou muita coisa em mim. Lições (viu só?) sobre mulheres que salvaram meu relacionamento (“As mulheres amam melhor à distância), e sobre trabalho, que me fizeram desistir de pedir demissão da Trip no dia seguinte.

         Agora, lá no alto do texto, digo que “a coisa mudou bastante de perspectiva”. Que aquela sensação vazia e triste que a morte de Jece Valadão e o ocaso da minha família me provocaram havia mudado depois da conversa com Millôr.
        Explico: Pedi um autógrafo a ele no meu “Trinta Anos de Mim Mesmo”. Millôr sentou-se em sua mesa, diante de dúzias de dúzias de lápis e canetas, e começa a escrever. Desenhou, devagar e certeiro, coloriu. Era a lápide dele, com seu braço erguido pra fora da cova, segurando um copo de uísque. E redigiu a dedicatória.
        Ao tentar escrever “Millôr, futuro desse tempo”, ele se atrapalhou e pôs na página “Millôr, futuro detempo”. Só percebeu depois, ficou sem jeito, rasurou, tentou de novo. Eu fiquei ali, perturbado, achando que era culpa do “incidente” da sua saúde, do tempo que estava levando todo mundo. Quando ele, desarmado, desiste da rasura e encerra o autógrafo: “o tempo não tem culpa”. 
      Um pensamento novo de Millôr, despejado no improviso, ali, no meu livrinho. Era a lição que eu esperava. O tempo não tem culpa. Não há o que lamentar. Pois se o tempo nos afoga, a vida, no fundo, é feita dele mesmo. E se o tempo não tem culpa, não há o que lamentar.
      E, só em casa, reparei no detalhe. Na lápide desenhada, Millôr se enterra aos 28 anos. A minha idade hoje, ele sabia. Pô, era eu também na cova.
     Fui obrigado a concordar: Sim, Millôr, dá pé.

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O autógrafo redentor em meu “Trinta Anos de Mim Mesmo”

3 Respostas to “28 anos de mim mesmo”

  1. Lija Says:

    Foda, Bruno. Foda.

  2. Marcelo Says:

    Fudeus
    A frase “A vida só ensina que a vida não ensina nada”, parece realmente fácil, batida, nos moldes de “tudo que sei é que nada sei “, mas eu que sou mais jovem que o Millor e mais jovem até que você e, que da boca pra fora não me considero nenhum um pouco sábio, embora, de vez em quando, na intimidade dos meus pensamentos, me considero um gênio (consideração facilmente superada por breves instantes de reflexão), acho que quanto mais vivo, penso, estudo, bebo e raciocíno mais parece que sei menos. Agora, se a inteligência é a melhor máscara da burrice, não sei, pode ser…

    Parabéns por seu Blog, é um dos melhores que já li.

  3. Carol Teixeira Says:

    Que lindo o que tu escreveu. Lindo, lindo. Sempre fui muito fã dessa turminha toda, Millor, Jaguar, Tarso de Castro, Roniquito, etc. Me fazem querer ter nascido em outra época, ter frequentado o Antonio’s, ter feito parte daquela turma. Deve ser o que tu sentiu quando entrevistou ele…Parabéns, curto muito o que tu escreve na Trip e adorei descobrir hoje esse teu blog.
    bjs

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