Ecce Homo

balcao

 

Porra, gravador, bloquinho? O que eu ia dizer? “Como o Pasquim começou?” “Há espaço para aquele humor hoje em dia?” Foda-se. O véio não é guru à toa – um dos grandes mestres da conversa fiada. Um dos heróis que ainda respiram (e bebem de pé) da genial geração que fez Arte da conversa fiada. Fez o Grande Jornalismo a partir de conversa fiada e era essa a lição. Para mim, cria subnutrida dos Grandes Porres, ficou claro desde o início: para entrevistar o Jaguar não se leva uma pauta. Leva-se o fígado. E os amigos, naturalmente.

Ronaldo Bressane topou. Surpreende-me que tenha demorado uma tarde toda para confirmar. Mas topou, claro. E encontramos Jaguar às 20h30, diante de uma long neck de Brahma e uma dose cowboy de Red Label, na primeira mesa na varanda do hotel Poeta Drummond. A conversa, ufa, já começa fiada. “Sempre fico nesse hotel. Drummond. Pior é que o Drummond era um tarado”, e gargalha, “tentou agarrar minha mulher”. E por aí a coisa vai… Noitadas com Cartola, Millôr, Tarso de Castro, Mulatas, Cornos, Cubanas, Ejaculações Precoces, Flávio Cavalcantti, Chutes em Bombas, Maconha, Morte, Punheta com Viagra, Piadas Prontas ou feitas na hora.

Entornamos eu e RB seis Brahmas somadas, enquanto Jaguar enxugou aquela primeira e o scotch. São quase 23hs quando ele pede mais uma dose seca de Red Label, recusando as duas únicas cachaças que o 4 estrelas oferecia (51 e Ypioca, vê se pode). Essa desce rápido. Ele mesmo pede a conta que fez questão de pagar. Despeja de gorjeta mais sete reais tirados de um bolinho amassado de dinheiro solto no bolso. Nem esboçamos um tchau. “Conhece a Mercearia São Pedro, Jaguar? Ah, você tem que conhecer.” E, de táxi, fomos ao porre.

 

“Que lugar do caralho!”, diz antes de meter os pés na Merça. Nem precisava de chancela, mas se até Jaguar intui e assina embaixo, o bar de Marquinhos é de fato especial. E ele mesmo, Marquinhos, recepcionou o ilustre bebum. Mostrou sua livraria seletíssima enrolada em magipack, diz que esgotou o “Confesso que Bebi” (o último do Jaguar) e providenciou que uma mesa brotasse do piso para acomodar-nos. Sentamos com Bel e Joca Terron, Helder, Xico Sá, Queóps e Marcelino Freire. Boemia profissional, mas de quilometragem muito baixa perto dos 74 anos de porres do velho Jaguaribe.

Assunto? Ora, bolas! Conversa fiada. Vez ou outra é que alguém dava uma inevitável puxada de saco: “que honra!”, “a gente te ama”, “quem diria, eu aqui, bebendo com Jaguar…” Puxada de saco sim, justificadíssima, sem qualquer demagogia. Porque não deixar explícitas certas alegrias é um tipo horrível de arrogância. E não havia um ali ignaro do privilégio daquela noite. Não só pelo mito todo, do fígado de aço e do Pasquim. Mas pelo exemplo ambulante. Gente fina demais. As mais de sete décadas loucas e sua turma fabulosa não calejam seu ego nem ânimo. Ainda não resiste a conhecer gente nova, a dormir tarde demais, a ficar de pé no balcão depois da grade baixar, e autografar guardanapos e jantar mortadela em cubo. Um cara que não resiste a ser feliz, custe todo seu dinheiro, seu sono ou saúde. E alegria, como se sabe, é um santo remédio. Por isso está vivo, vivíssimo e resistente. Despejou inúmeras cervejas, cachaças, Underberg de saideira. Profissa. Não cambaleia, não muda o tom. Ao contrário de alguns de nós, que destilaram uma sofrida ressaca no dia seguinte. Mas igualmente felizes, com uma sensação meio besta de “sermos especiais”, sabe? Mas… confesso que bebi e confesso que adorei. E que, depois de escutar e rir com o cara, só uma de suas frases ecoava na minha cabeça. Entornando uma Canarinha, Jaguar falou da morte. Não tinha medo exatamente, mas não se conformava. Resumiu onde está seu talento maior, o de esbanjar, generoso demais, alegria. Enfim, disse Jaguar: “Puta merda. Eu queria morrer junto com todo mundo”.

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