Aquilo Rosa

Atendendo a pedidos, e aproveitando o súbito pico de audiência que este blog teve ao postar o texto anterior sobre o protesto anti-Cicarelli na MTV, aqui republico um texto meu na mesma onda “pra que isso?”.
Trata-se do único relato in loco da imprensa sobre a festa de lançamento do Perfume de Paris Hilton no Terraço Daslu, dia 14 de setembro de 2005, mesmo data do célebre discurso de Roberto Jefferson horas antes de sua cassação.
A repercussão dessa festa, lembro, foi descomunal. Porém ninguém teve autorização para clicar o desenrolar da festa (aqui exposto), ou espaço nos veículos para falar a escancarada verdade: ô povo pra ser brega!
A matéria foi publicada no dia seguinte, no extinto e saudoso blog Fakerfakir.
À festa:


Paris Vela
O tom que definiu essa luminosa, endinheirada e tediosa noite

O tapete rosinha, alinhado entre colunas neo-clássicas e vasos de rosas do mesmo tom, era apenas o primeiro acorde da sinfonia de gosto duvidoso que retumbou por toda a noite no Terraço Daslu. Era o lançamento da fragância que leva o nome – e supostamente o cheiro – de Paris Hilton, a herdeira.Depois do pórtico por onde a reportagem de Fudeus passou [de táxi], uma bifurcação: à esquerda, convidados. À direita, os jornalistas.
– Imprensa? – indaga duramente um leão de chácara.
– Não. Receita Federal! …Brincadeira, imprensa mesmo…, responde, ante o olhar feroz do Man In Black, o presente repórter.
– Por aqui… – e indica a lateral do corredor, atrás de um cordão, onde mais de 50 jornalistas, quase todos fotógrafos, se encoxavam sobre uma comprida e estreitinha plataforma. Todos ali ávidos pelo mesmo clique: das parcas celebridades que deram as caras naquela noite.
A saber: Marcos Mion [“cicerone” de Paris em sua luminosa passagem por Sampa], Junior Lima [irmão da Sandy, que no momento agora descrito estava defronte à parede rosa choque sorrindo aos pipocantes flashes], Costanza Pascolato, Mariana Mantega, e Luciano Szafir.

Imprensa Paris
O tapete rosinha por onde passaram as celebs. “Jornalista? Só
no chiqueirinho”

A reportagem de Fudeus não compreende o encurralamento da imprensa. Chama uma assessora, pede explicações e escuta:– Isso mesmo. Vocês ficam aqui fazendo o trabalhinho de vocês, tá?
Trabalhinho?
Roçar ombros com paparazzi por horas aguardando seres iluminados não é exatamente o que Fudeus chama de trabalho. Cinco minutos depois, foi chamada a, sei lá, gerente e, dada a envergadura do veículo, foi liberada a entrada. Enquanto passava pelo tapete rosinha nenhum flash estourou.

Luiz Peido de Rico
Luiz, do elevador Daslu – sommelier de peido de rico

O ascensorista trajava uma roupa de branco perfeito, botões dourados e chapeuzinho com um brasão. De um lado, uma TV de plasma.
– Passa filme aqui?
– Não, senhor. Só comercial.
– Hum. Escuta, sempre quis saber uma coisa… Milionário peida no elevador?
– Ah, peida sim. Mas… não faz barulho.
– Alguém peidou hoje?
– Hoje não. Mas ontem mesmo, soltaram um, muito fedido!
– E você sai do elevador nesses casos?
– Não… mas a mocinha vem e abana com uma almofadinha. Quarto andar!
A porta abre e revela um opulento arranjo de flores em forma de P em um grande canteiro retangular – algo como um túmulo de uma drag milionária. Atenha-se à foto, glamouroso leitor.

 
Tumbalacatumba
O arranjo floral celebrativo – aqui jaz a elegância

Tudo naquele salão refletia algo róseo. Muitas luzes e holofotes eram rosinhas, velas rosinhas estampadas com palavras do tipo “powerful”, “pretty”, “Paris” e …. “pink”. Depois da segunda taça de Veuve Clicquot, a pista de dança [mas não para dançar, veja lá]. Damas lânguidas, de pele luminosa não mexiam muito mais do que um dos pés para marcar o ritmo. No palco um dos irmãos da Família Lima, tocando um violino plástico, branco, em uma base eletrônica. Tipo o “projeto eletrônico” do carinha. Algo como se Kitaro fizesse a trilha de um comercial da Marabraz. Liminha fazia trejeitos de artista entregue, “possuído pela música”. Páro, completamente constrangido, para tirar um retrato. Ele nota, sorri, e dá uma curvadinha para a pose performática.

 Liminha vergonha alheia
Todo o carisma do irmão Lima e seu violino sintético


Minha vontade é me enterrar vivo de tanta vergonha alheia – ou de espocar o violino branco em tamanho almofadinha.
O show termina, mas não a tortura. Nova base eletrônica de teclado infantil começa e um saxofonista de blaser largo improvisa em cima – desta vez circulando pelo terraço, soprando perdigotos nos VIPs, olhando a todos nos olhos, performático ele, também. Era para dar um toque jazzy, e ao mesmo tempo muderrno. Porém, ninguém olhava o Kenny G do Center Norte que assoprava solfejos aos ricos ouvidos. Tão ignorado quanto os garçons e garçonetes que enchiam os copos de 10 em 10 segundos – o melhor da festa, sem dúvida: nada a reparar no serviço.
Fica essa lenga-lenga por horas. Nada acontece e o passatempo é admirar a cútis das milionettes. Um bronzeado cuidado, peles sedosas até ao olhar. Epidermes curtidas em cosméticos japoneses [os melhores], sem irregularidades. Seus pés pareciam esculpidos dentro dos sapatos de salto alto – todos iguaizinhos. Cabelos invariavelmente lisos, nitidamente custaram os olhos da minha parva cara. Quanto a seus olhares, deslizavam no ar, laterais, egípcios, dir-se-ia treinados para nunca encarar outro olhar.
Súbito, nossa exclusividade jornalística some. Paparazzi brotam do mármore e câmeras de TV duelam procurando um resto de rostos famosos. A imprensa foi autorizada, enfim. Amaury Jr. e Emílio Surita surgem. Um mar de credenciais – rosinhas – enche o salão. E, da pista, um som mais alto toma o ar. É a banda de Júnior – o irmão da Sandy – a incrivel SoulFunk. Alvoroço. É o auge da noite….

Chega Paris Hilton! 
Tumba Rosinha
Paris posa. 100 fotógrafos, a mesma foto
Sem piada: uma horda de dezenas de fotógrafos e jornalistas cerca o tal túmulo drag onde a loira posa – em um vestido impecavelmente rosinha. Mais de dez seguranças dão as mãos [recordo a Seleção de 94] para atrapalhar a visão da imprensa e dos basbaques. Paris, com um descaramento de ator de pegadinha, faz caricatura de pop star. Ergue o pescoço, faz carinha de safada, não mostra os dentes nem por um segundo e mantém a afetação sem vacilar.Segura o tubinho de seu perfume, fica mais uns segundos virada com o rosto para a direita (seu melhor ângulo) e surta:– Thank you. Thank you very much! E sai cercada por uma dezena de armários.
Frascos oprimidos
O Perfume de Paris e Povilho Granado. Os melhores perfumes
estão nos menores frascos
 

A gigantesca fama de Paris Hilton [o terceiro nome mais procurado no Google, atrás apenas das outras loiras Madonna – homônima da Virgem Maria – e Britney Spears] é uma das mais cômicas e irritantes provas de que, para ser famoso, basta agir como um.
Ela anda cercada de dez brutamontes. A troco de quê? Justamente na Daslu? Será que correria risco de uma curra dos 400 VIPs?
Mas a horda de securities provoca o assédio. A chegada triunfal, com fogos de artifício, a área VIP reservada [por seguranças de mãos dadas] dentro do Terraço ainda mais VIP, o inevitável atraso de horas, a impossibilidade de fazer uma pergunta… Um muro colocado entre ela e o povo milionário (!) como as duas outras colocadas no pódio do Google têm. Por isso é famosa: paga para ser. Além disso, fez um reality show zombando de sua própria arrogância [Simple life], um filme de terror fracasso de bilheteria [House of wax]. Ah, claro, além de sua maior obra: um vídeo caseiro em que fela seu namorado com a destreza de uma feminista lésbica.
E, ainda assim, ali estavam jornalistas e o mailing da Daslu, tão herdeiro quanto ela, sedentos por um pouco da figura de Paris Hilton.Coceira nas costas
Paris coça as costas – ahá! Falta de banho.
Ela dança no palco. Não tem bunda alguma. Não tem peito. Mas tem belas costas, e sabe disso. Paris as oferecia ao público em um amplo decote, em seus meticulosos movimentos. No único instante em que cruzou a pista de dança, colocou o celular junto ao rosto e passou apressada no meio da roda de seguranças. Senti seu perfume, o motivo da festa: forte, doce, cafona. Um de seus amigos, o produtor de seu novo CD, baixinho e de blaser largo, pára o som e discursa:– Esse dia é uma honra para vocês, brasileiros. Paris Hilton está aqui e vocês vão escutar agora, em primeira mão, uma música do CD de Paris que será lançado. Apenas 9 pessoas escutaram essa faixa. Ah, não reparem porque só está 40% pronta…Aplausos. Surge um hip-hop de quinta, com sussurros da loura gelada. A pista tenta dançar, meio sem jeito…Dois lampejos de decência: 1. Lobão e Mariana Weickert [costas muito mais suculentas que as de Paris], que deram as caras horas depois de Paris e foram embora depois da meia hora que descortinou o mico [Lobão dizia: “E eu pensava que nada poderia ser mais cretino que o discurso de Roberto Jefferson hoje”]. Momento Nelson Rubens: será que o Lobão está de coisa com a Mariana? Fica levantada a lebre.2. O bar. A agência contratada para servir os drinks empregava jovens de boa aparência – modelos mal-remunerados. Eles vestiam camisetas contrangedoras escritas “I Love Paris” e se submetiam sorrindo à boçalidade do jet-set que não sabe juntar os fonemas das palavras “por favor” e “obrigado”. Uma das bartenders, Fernanda, define de forma bem simples: “Todos iguais”. A beldade do balcão, que pretende ser cineasta, ostentava o melhor penteado da festa – e possivelmente o olhar mais vivo da noite. Já passava das três da matina, e enquanto Fernanda preparava meu quinto drink, suspirava de cansaço – de manhã ela tem aula. Embriagado, enquanto o mau elemente 50 cent soava nas caixas, eu recordava de Odair José, um cafona com mais classe do que 20 gerações de Paris: “Eu vou tirar você desse lugar”.Chega. Volto ao elevador, zonzo, levando embora o copo de vidro com o consentimento do segurança e deparo de novo com Luiz, o sommelier de pum de rico.
– E aí, Luiz, alguém peidou hoje?
– Hoje, não. De fedido, só o perfume.
Vazando
E Paris se vai… tarde…

4 Respostas to “Aquilo Rosa”

  1. daniele Says:

    d+ tdb legal gostie

  2. larissa vieira da cunha Says:

    paris hilton e muito bonita e falsa….

  3. Hesperus Says:

    Genial teu texto

  4. rebeca gonçalves Says:

    Voce nao tem o que fazer🙂

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