O estilo jacool de Felipe Nelson, Ângelo Kanaan e Luiz Miranda. Foto minha.
Não é um auto-jabá. É quase… Trata-se do anúncio do show de lançamento do Chimpanzé Clube Trio, a dissidência instrumental de minha mumificada banda, Os Abimonistas.
O presente picareta que vos posta não faz parte do combo, mas lá estará fazendo volume no público e nas palmas.
Muito difícil para mim, que conheço e vi nascer o som do trio explicar que tipo de música faz o Chimpanzé. E prefiro nem tentar. E vou usar aqui um termo que, cada vez mais, tomo como um elogio: anacrônico. Tramas simples e perfeitamente tecidas de tudo o que soa bem aos ouvidos dos três. O resultado foi um disco raro: instrumental e nada cabeça. Pop pacas, mas para ouvidos apurados. Som dançante pra ouvir parado, e vice-versa.
Escuta aqui: http://www.myspace.com/chimpanzeclubetrio
E gaste o começo de sua noite de sábado no lançamento do primeiro álbum dos caras. Dia 29 de setembro, no nobre Museu da Imagem e do Som, 21hs. Por R$6 você vê o show. Por R$12, vê o show e leva o CD. Avenida Europa 158.
Não é por nada. Ou, ao contrário, é por tudo que ando cansado de escrever. Conta complicada essa, nunca fecha: Quanto mais você escreve, melhor escreve. Quanto mais você escreve, pior seu texto lhe parece. Isso para dizer que vou atrasar até o final de semana uns posts prometidos. E logo, segunda-feira, me despacho de novo algures. Torçam por mim.
E aproveito o mofado espaço de Fudeus para convidá-los a espiar o Flickr que fundei ontem. Como disse, ando cansado de escrever, cabreiro com o texto e com a defecação de regras. E de uns tempos pra cá, bateu um saudosismo violento do tempo em que eu não sabia bem se era repórter ou fotógrafo.
Espanei as câmeras, passei álcool no scanner, comprei meia dúzia de filmes e voltei a andar com minha amada Pentax MX na mochila. No link, além da bem polida foto acima, mementos de dias atuais e dos primeiros anos desse século XXI. Maldito século que digitalizou toda aquela fartura de tubinhos de filmes grátis de diferentes asas e bitolas na Redação da Trip.
Fico realmente comovido com os emails cada vez mais freqüentes pedindo atualização nessa publicação vaporosa.
Agora justifico. Sem computador funcionando em casa, trabalho atropelante na redação e meia dúzia de breves viagens que não me deixam tempo para rascunhar nada.
Mas garanto, semana que vem a coisa anda. Juntei uns tostões para comprar um novo computador, estarei de volta de uma viagem bizarra pacas, que começa hoje mesmo, onde pularei de asa delta, pilotarei um Stock Car (é sério) e margulharei com exóticas criaturas marítimas.
Então anota aí a promessa para a semana do dia 14:
- Entrevista extensa e emocionante com Laerte, o cartunista gênio.
- Fotos e causos da tal viagem acima anunciada
- E atrasadas impressões nada cristãs sobre a virada cultural no centro de São Paulo. Não, eu não estava nos Racionais MC´s.
James Brown rindo à toa, ao vivo no Brasil em 1978 no
clique perfeito de Penna Prearo
Fui a dois shows de James Brown em minha vida – obrigado, Senhor. O primeiro no Palace, o segundo, dois dias depois, no velódromo da USP, em meados de 1994.
Não me lembro bem do set list, mas de detalhes cravados – dois bateristas, dois baixistas, de um percussionista inflamado que atirava alto um pandeiro e das gostosíssimas bailarinas em frenesi. Eu nem passava perto das drogas naquele tempo, mas reconhecia na cara, olhos e disposição de muitos no palco o efeito de substâncias mal quistas pela família brasileira.
James Brown estava velho, mas nada caído – sua alma nunca coube no corpo pequeno. A voz explodia, os olhos apertados quando berrava. Eu imaginava quantas e quantas vezes ele havia cantados aqueles mesma músicas, feito as mesmas piadas e os mesmos passos. Seria esperar demais que o homem, como mentem os artistas, “sentisse a mesma emoção todo dia”.
Não. Era um trabalho, dava pra ver. Mas um ofício que ele fazia questão de executar melhor do que ninguém no mundo. No início do show, invariavelmente, desde 1961, seu MC bradava: “The Hardest Working Man In Showbusiness”.
E lembro do final do show, mais clássico do que a intro, onde ele faz que sai do palco, arrasado de cansaço e tristeza, é coberto por um manto ofuscante com suas iniciais e… num tranco se livra da coberta e volta ao microfone decidido para mais berros e aplausos incansáveis como ele.
Eu tinha 15 anos, havia acabado de montar uma banda de Blues e Rock’n'Roll – ver James Brown ali na minha cara (a mesa era boa pacas…) era tipo perder um cabaço, tomar uma droga forte, boa, sem remorso.
No natal ele morreu, todo mundo sabe. E só fiquei sabendo dia 30, quando o Jornal da Globo mostrou o velório de JB no teatro Apollo, em Nova York.
Escutei um dos Live at Apollo, lembrei do show e procurei umas fotos que fiz do tal show do Palace. Não achei. Tentei escrever um texto para esse Fudeus, não rolou…
Sexta passada deixei a patroa em casa para comer uma pizza na Real, do lado de casa. No balcão está o chapa Penna Prearo, fotógrafo veterano, com uma alma apertada no corpo como JB.
Conheci Penna em uma reportagem que fizemos juntos, cobrindo os dias que antecediam a gravação de um DVD ao vivo de uma banda evangélica – a Praise Machine.
Ele era um expert em clicar bandas, desde os anos 70.
Já no primeiro dia de nossa matéria, Penna me contou de muitos cliques seus – retratos clássicos de Elis, Tim Maia, Mautner, Gil… E James Brown.
Quando lembramos, ali no balcão, da morte do cara, lembramos das fotos.
Quando entrei em casa de volta, Penna já havia mandado os cliques por email.
Nelson Triunfo triunfante na platéia do Chic Show, a festa back paulistana que chegou ao topo com James Brown. (foto de Penna Prearo)
JB também havia pisado por aqui em 1978, ano em que nasci. E Penna estava lá, no Palmeiras, no palco, registrando o Papa em plena forma.
A platéia sem área VIP, sem pulserinhas – o gargerejo sem camisetas do celular que patrocinou, mas cheio de pretos, e fãs.
Que fotos sensacionais.
Na janela ao lado, no uol, a chamada: “corpo de James Brown ainda não foi enterrado.” Já houve três velórios e ninguém jogou terra sobre o caixão.
Na hora me veio a imagem dele entrando e saindo do palco, se livrando do manto cintilante e voltando para um pouco mais de aplauso.
Seu corpo não se conforma com o caixão, e a alma do rei do soul, por mais mórbido que pareça, se recusa a descansar em paz.
Então, já que JB ainda está sendo velado, ficam aqui minhas condolências ao Papa que conclave nenhum substitui.
Nas fotos de Penna Prearo e nesse links absolutamente histórico:
Em 1968, assim que Martin Luther King foi assassinado, negros em todos os EUA armaram justificados protestos e distúrbios. James Brown tinha um show marcado em Boston (cidade de um silencioso, mas intenso racismo), imediatamente cancelado pala produção.
James Brown insistiu em fazer o show e transmiti-lo ao vivo pela TV para tentar conter as pessoas em casa e evitar a violência. Resultado: Boston foi a única grande cidade amerciana sem distúrbios.O povo negro ficou em casa para ver o homem tocar.
JB ainda conteve no verbo e em inacreditáveis passos de dança uma pancadaria prestes a acontecer entre polícia e a craude em cima do palco.
E… o triste – depois desse show, o governo americano, temeroso, percebeu o poder negro que James Brown tinha. E começou uma perseguição fiscal furiosa que lhe custou suas rádios independentes e muito de sua saúde mental.
Hoje morreu o Jece Valadão. E foi estranho, porque passei a tarde na internet recebendo msn´s de amigos falando: você viu que o Valadão morreu?
E eu respondendo: Vi, ele era meu tio.
Todos ficavam chocados, entre os pêsames e o susto.
Explico aqui melhor: Ele foi casado com minha tia avó. Foi a primeira de suas seis esposas, Dulce.
Ele era o pai de minha tia e avô de dois primos meus. Ele não tinha meu sangue, mas estava na famílila.
Nunca fui íntimo do Jece, mas lembro muito bem de alguns episódios. O mais importante eu vivi há 10 anos, quando ele havia acabado de se converter como evangélico.
Era natal. Meu pai fazia 50 anos no próprio 25/12 e a minha família carioca estava junta, na última grande reunião, de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas, na casa de Stella, filha de Jece e Dulce.
Natal louco aquele. Meu primo João Paulo, neto do Valadão, se enfurnava no quarto com a namorada linda e fumava maconha. O Papai Noel contratado dava as caras pela última vez na festa da família. Ricardo Bruno, outro neto de Jece, já desconfiava da barba do falso bom velhinho. E Beto Valadão, o outro filho do hômi, entrava a saía do quarto, brigando e tentado se reconciliar com Maria Zilda, a atriz, sua mulher crônica.
Tem bem mais…
Minha avó estava na sala com suas 4 irmãs ainda vivas. Exceto Dulce. E aqui convém explicar. Eram as irmãs Rodrigues, da família de Nelson, Mario Filho, Roberto, Joffre, Milton, Paulo e Augusto. Todos mortos, exceto Augusto, que estava também na sala.
Todo ano era assim. Exceto naquele… Stella havia convidado pela primeira vez, como família, os filhos “ocultos” de Nelson Rodrigues. Uma família grande que ele manteve em segredo de toda essa turma. Novos primos e tios e avós ali, no meio de nosso natal.
As tias estavam fechadas, falavam entre si e mantinham a rígida capacidade de agir como se nada estranho estivesse acontecendo.
Eu era novo, e em solidariedade a minha madrinha querida, Helena, eu mesmo tentava agir com uma naturalidade que, naturalmente, não havia.
Quando, ao bater meia noite e os cumprimentos se tornarem necessários, Jece bate um copo com a faca e pede a palavra. O homem que eu aprendi a enxergar como grande cafajeste começa um discurso diante da família dividida pelo súbito aumento.
Jece Valadão falava da família recém surgida naquele seio Rodrigueano de fato. E falava de Jesus. Do perdão. De como ele mesmo havia traído, negado, mentido, magoado e encontrado a redenção. E alvejava o coração antigo e esculpido das minhas tias e de minha avó. Pois Jece Valadão conclamou o perdão naquela sala. Helena, minha madrinha, manteve os olhos para o chão, chorando para dentro, sem lágrimas, já derramadas em uma vida de desgraças tão grandes quanto as alegrias.
Não era caso de perdão, era? Aqueles primos novos, radiantes de entrar para o “mainstream” de seu próprio sangue, e as irmãs, já dóídas do tempo, tendo que escutar do ex-cunhado, o cafajeste, lições de como o irmão Nelson, tão idealizado e perfeito na memória, era também ele um Jece. Perdoar quem? Os filhos? Não havia culpa e isso elas sabiam. Mas… Ali estava ele, falando de Deus.
Eu não sabia o que pensar e comecei a aprender a manter o cinismo que mantém qualquer família estável. Meu avô, sem talento para isso, me cutucava e cochichava: “é por isso que eu odeio natal”. Concordei. E não perdoei Valadão por isso.
Hoje ele morreu. E estou na casa de meus avós, no Rio. Hoje todas as irmãs estão mortas, exceto minha avó, que não levanta sozinha da cama. Meu avô fez 77 anos ontem e insiste em dizer que é seu último. Espero que não, mas não duvido. Ninguém em casa derramou uma lágrima, mas lamentamos todos com pensamentos solitários.
A morte está próxima aqui, eu sei. Restam poucos dos antigos, da velha geração, e, agora, um por um sabe que os dias são curtos, que o fim pode estar ali, no fim de uma escada, de um tombo no banho, de uma gripe mal curada.
Não sei se verei mais meus avós quando sair daqui, quando voltar para casa depois de amanhã. Mas hoje, ao lembrar de Jece e de suas palavras fora do lugar, apertou meu peito e deu vontade de chorar. Não pelo perdão ou por Jesus… pela memória em si.
Ela, a memória, estava morta. Mas é assim mesmo, lembranças reencarnam quando chega sua hora. E lembrei daquele dia, o último natal tal como o entendia. As tias vivas, o avô sarrista, os primos dando desgosto e eu tentando manter minhas tias estáveis. O que aprendo disso? Há uma lição? Uma conclusão que redima, que me conforme ou amorteça a sensação de que a morte ronda hoje a minha família mais querida?
Não. Não há. Apenas a sensação de que os velhos sabem (com a alma) do que se trata a vida. De que aquelas palavras de perdão constrangedoras à senhoras que hoje estão mortas (exceto minha avó) eram apemas palavras que morrem também. Mas não ainda…
Agora, por elas, Jece, eu te perdôo. Vá em paz.