
Joy Food (o puteiro), Islamic Center (a mesquita) e Bang Bang (a butique fetichista)
Escrevo da casa do Oliver, o amigo que tenho há mais tempo na vida. Nos conhecemos desde 1989, quando me mudei para São Paulo, aos 10 anos de idade. Em 1991 ele se mudou para Singapura, mas todo santo ano a gente se vê no Brasil.
Hoje ele mora em Londres e estou aqui há 10 dias, a economizar as centenas de Pounds de uma estalagem, na primeira vez em que sou eu quem chega de visita.
Oliver tem sido de uma paciência budista em nossas caminhadas desnorteadas pela cidade. Tudo para mim é novidade. Para ele, quase nada. Ainda assim divide as bolhas nos pés e os kebabs econômicos.
Mas o assunto aqui é outro…
Quem lê esse blog deve saber que sou dado a arregaçar como posso a política dos EUA. Digo política para me corrigir: a máquina do fim-do-mundo que aquela bandeira listrada representa. Mas convêm me policiar, publica e internamente, para não confundir as coisas. Não é porque os muçulmanos são o barbecue da vez que preciso dar tapinhas em suas costas… Porque apesar de se apresentarem como uma nação, o Islã, não vejo lá muitos valores que deveriam reger um grupo com mais de dois sexos envolvidos.
Quem me lembrou disso, aliás, foi o Oliver.
Em Londres tem muçulmano pacas. E estamos em um bairro cheio deles. E antes que eu pudesse manifestar minha simpatia por eles, ou achar bonito o tanto de mulher só de olhos descobertos que circula, Oliver disse na lata:
- Cara, eu odeio muçulmano.
Para contexto: o Oliver é gay. Namora, casado na prática, com o Kevin há 9 anos. Odeia muçulmano por um motivo irretocável. Qualquer um que massacra gays e mulheres não merece lá muito respeito. Vou discordar?
Eu poderia argumentar, até. Dizer que é da religião. E que isso não pode ser julgado com base no ódio, na análise humanista do ocidente “esclarecido”. Até que, poucas quadras depois, chagamos ao Soho. Bairro meio chique, meio boca do lixo. E entramos pela zona do lugar. Boites gays, sex shops e puteiros explícitos. Eis que, entre um prostíbulo e uma loja de artigos fetichistas, há um centro islâmico. Um misto de mesquita e clube social. Está lá para converter as pessoas? Lembrar dos valores eternos em um antro de danação? Aos fatos… um homem com roupinha a la taleban sai do puteiro ajeitando o traje e troca de porta – entra no centro islâmico. O porteiro nem estranha.
Dias antes, no domingo, estava no speaker’s corner, no Hyde Park. Tradicionalmente, há gerações, é um lugar onde basta você subir em um banquinho para falar o que quiser. É sensacional. Fiz fotos aqui. Porém, atualmente, com poucas exceções, virou um lugar de pregação religiosa. Muçulmanos são a maioria. Uns pregam em árabe e uns em inglês. Um rapaz ocidental, sotaque britânico, convertidaço, bradava: “o ocidente enlouquece as pessoas. que mundo é esse onde a prostituição é proibida é a pornografia é legal? Isso é insano!” E evocava palavras do Corão enquanto fazia o sinal de loucura, girando o indicador em torno de sua orelha. Ele parecia sincero… sei lá. Mas em torno estavam uns rapazes e um velho. Em suas túnicas, meio entediados. Todos, o velho incluso, usavam Nikes lustrosos nos pés. Estavam há poucas quadras do centro islâmico da zona.
Será que essa religião não enlouquece as pessoas? Que nação é essa onde a prostituição é proibida e se apraz das meretrizes na porta ao lado? Que tipo de verdade tem um discurso que reconhece o massacre do Oriente Médio como obra de Satã, e continua a fazer de suas mulheres tendas ambulantes? Que tipo de inimigo de tudo o que a América representa usa Nike?
E pode ser fácil também, outra coisa para me policiar, tomar EUA vs Islã como dois extremos, antagonistas perfeitos. O que me sobe à tona aqui são as semelhanças entre os grupos que dominam suas políticas: ou a máquina do fim do mundo. E não me parecem mais conflitantes.
Concordo com o Robert Fisk, não há conflito de civilizações. Há a sinfonia dos hipócritas insanos. Que fracionam verdades e suas próprias mentes no mesmo jogo de poder. Um senador republicano que passa leis anti-gays é pego assediando um homem no banheiro de um aeroporto. Americanos de Cristo incitam ódio. Muçulmanos vestem Nikes, comem putas e vão à rua em nome de Maomé. Americanos tratam mulheres como carne. Muçulmanos como gado. Enquanto “Londres” e todos nós, os cínicos de bom coração, passamos atônitos, cientes do teatro que virou o mundo real, e incapazes de deixar a platéia.
Só me resta entender o Oliver… Que, pacífico como sempre, odeia muçulmanos, odeia republicanos e, ainda assim, volta ao lar para ler sobre Sidarta.
Me dá vontade de subir em um banquinho e fazer eco no hyde park: que mundo é esse que nos obriga a ser Budista e manter o ódio no coração? Isso é insano.
Setembro 8, 2007 às 6:08 am
Ei Bru, nem nos falamos antes de vc viajar mas ja ja esta voltando ne?
Adorei esse texto, perfeito. Mil beijos pro Oliver e se ele quiser fazer uma visita a LA sera muito bem vindo. Beijos mae
Setembro 8, 2007 às 9:35 am
O dia em que o Islam parar de perseguir gays, eu paro de odiar eles.
Setembro 11, 2007 às 11:23 am
ai que saudade d’ocê.
Setembro 22, 2007 às 5:37 pm
Porra, Bruno. Eu entro aqui quase todo dia…sou super-hiper-mega-fã dos seus textos – te acompanho há muito na Trip,TPM,já adicionei teu blog nos links do meu blog,já me inpirei em matéria tua pra escrever posts…enfim, eu ia entrar aqui hoje pra elogiar seu texto sobre os moleques aqui do centrão de Sampa e ao ler esse post aqui só tive a confirmação do que eu ja toh cansado de saber : vc é foda !! cara…consegue aliar um texto sempre inteligente – que nas mãos de outras pessoas talvez virasse um monte de palavras amontoadas – em sopros de emoção+razão.
Do fã.fã.fã
Stuart
Setembro 24, 2007 às 8:24 pm
Ótima matéria!
Outubro 31, 2007 às 7:02 pm
triste coincidência…estava em londres na mesma data.
Te encontro em algum show do Chimpa,provavelmente!
E elogiar seus textos me parece redundância!
Novembro 30, 2007 às 11:04 am
olá….tenho uma enorme curiosidade de saber….as mulheres muçulmanas tem vontade de viver com pessoas de outras culturas/religião/espaço geográfico?…o que elas dizem a esse respeito???…imagina essa cena…..digamos que uma delas estivesse vivendo no Brasil e fosse convidada para ASSISTIR AO VIVO ( somente ver!!!) um desfile de uma escola de samba no Rio de Janeiro………ia terminar em samba no pé??…ou ela ia dar no pé???? um abraço!!!!
Novembro 30, 2007 às 8:04 pm
tem tanta muculmana vivendo em SP,eu moro no Egito e conhe’co muitas meninas aqui que tem vontade de conhecer esses lados tipo do Brasil.